domingo, 21 de setembro de 2014

21/09/14                               VOTAR  PRA  NÃO  VOLTAR.

Tenho ficado atenta às datas. Não sei bem o por quê. Também não sei se esse "por quê" substantivo é junto ou separado. Lapsos. Lapsos porque o inconsciente parece existir e ninguém é de ferro. Lapsos que me deixam sem saber se a primavera chega amanhã, dia 21, ou se há um decreto muito antigo postergando em dois dias a data de sua chegada. Não importa. O azul do céu é definitivamente um azul que se espraia sem quaisquer ameaças de cinza.

Penso em N., a auxiliar doméstica que perdi porque só queria trabalhar como diarista sem assinar a carteira. Como preciso de alguém que venha todos os dias e N. não se sensibilizou com meus insistentes apelos para que aceitasse ter carteira assinada e direitos trabalhistas assegurados, o jeito foi despedi-la. Fiquei com o coração amargurado. Temos um vínculo afetivo muito forte e sou uma manteiga derretida para as perdas do afeto. Esta semana ela já veio me visitar e o papo rolou muito gostoso, como sempre foi.  Não quer assinar a carteira mas veio demarcar território em relação a minha nova auxiliar doméstica e fez cara de desaforo pra ela. N. é uma figura!! Totalmente diferente de mim, é muito espaçosa e não leva desaforo pra casa. Totalmente diferente de mim, N. é despachada.

Mas tanto quanto eu, N. é cheia das controvérsias e não tenho muita aparelhagem para entender como lida com as contradições inerentes à sua condição sócio-econômica desprivilegiada. Sempre foi difícil pra mim entender como uma pessoa assim prefere votar em políticos como ACM  Neto, dizendo que o seu avô roubava mas fazia. Usei todo o meu verbo e não consegui convencê-la de que a novo regime do atual governo  beneficia as empregadas domésticas e que ela deveria lutar por seus direitos. Para N. uma carteira assinada é uma mácula. Quando eu a convidei para meu aniversário de 60 anos no ano passado, ela só aceitou comparecer sob a garantia de que na festa haveria outras pessoas negras. Do contrário, podiam pensar que ela era uma assaltante. Assim me disse.

Sempre tratei N. com muito carinho e quando eu ia ao shopping, às vezes a convidava para ir a passeio comigo. O que ela me respondia?  "Vou com a senhora porque a senhora já tem uma certa idade e não deve andar desacompanhada. Mas shopping center não é lugar de empregada doméstica". Se eu entrava em alguma loja, ela preferia ficar me aguardando do lado de fora para não ser tomada como uma assaltante.

 Tanto comentou  sobre a propaganda na televisão anunciando a beleza que ficou a reforma da Ceasinha do Rio Vermelho, que eu, toda animada, a convidei para irmos lá visitar o mercado e comer no Boteco do Edinho uma daquelas comidas que N. gosta. Marcamos o dia e o horário e ela confirmou presença. Resultado: fiquei como uma boba esperando.  N. não apareceu e depois alegou ter esquecido o compromisso. Tenho cá com meus botões a impressão de que ela ficou constrangida de aparecer num restaurante comigo.

Pois é. Não dou conta das idiossincrasias de N. Mas posso intuir que há na sua subjetividade, subjacente a seu jeito despachado e desaforado de ser, uma grande dor. Uma dor secular das rotinas oprimidas das senzalas. Uma dor que a faz se desqualificar como um sujeito que tem direito a frequentar os mesmos lugares que eu frequento, de cabeça erguida. A dor de preferir perder um trabalho de que gosta muito, por não querer formalizar a sua condição de empregada doméstica. A dor de preferir votar em ACM  Neto talvez como uma forma de não se identificar com a grande parcela do povão que reconhece os benefícios que obtém de um governo mais progressista e popular. A grande dor da negação, do não saber o que faz com o que é. Dor na recusa de vislumbrar possibilidades de ascender socialmente para obter um lugar mais dignificante da sua condição de empregada doméstica, negra e mulher.

O sofrimento de N. me comove muito. E cuido de não apagá-lo da minha visão recorrendo a clichês como classificá-la como uma pessoa reacionária, que não tem consciência dos próprios direitos. Ao sintonizar com sua dor, não tento com argumentos políticos racionais persuadi-la a votar em candidatos mais à esquerda cujos projetos atendem aos anseios das camadas populares mais desfavorecidas. Bem que gostaria. Mas intuo que não é por aí. Quando vejo o sofrimento de N. dou-me conta de que há todo um trabalho ainda por fazer, e em várias frentes, para que alguns desfavorecidos despertem do pesadelo histórico desalentador que foi o nosso passado político.

 A propósito de várias frentes de trabalho, sinto muito orgulho da minha colega psicanalista do Instituto Viva Infância, que não tem receio de publicar no Facebook a sua preferência pela candidata Dilma. O Instituto Viva Infância, como muitos de vocês sabem, é uma organização sem fins lucrativos cuja causa é a criança e que entre outros serviços, presta atendimento psicoterápico a crianças e pais de baixa renda. Atendi no Viva Infância por alguns meses, e fiquei encantada com a proposta de atendimento inclusive a crianças autistas, totalmente destituída de vieses caridosos ou populistas. Lá as pessoas são tratadas como sujeitos que têm legítimo direito aos serviços que usufruem. Acho que um trabalho como esse cala mais fundo na consciência política das pessoas do que qualquer discurso eleitoreiro que eu tentasse fazer a pessoas como N.

Nas minhas noites de reflexões meditativas quando volto do consultório, penso muito no que posso fazer em prol de pessoas como N.  Tenho as minhas posições à esquerda, mas não sou, nem de longe uma pessoa bem informada. Não tenho muita paciência para acompanhar programas de notícias, e as opiniões de Marilena Chauí, uma intelectual da filosofia que escreve sobre o desejo, me sensibilizam mais do que ler sobre as plataformas políticas dos candidatos. Compartilhei no Facebook um depoimento muito esclarecedor de Marilena sobre o perigo que representa para o país a candidatura de uma pessoa como Marina.

Desde que abandonei a minha ativa militância na adolescência em uma organização clandestina de esquerda, fiquei um pouquinho desconfiada dos métodos de persuasão política usados naquela época, no contexto da mais cruel repressão da ditadura militar. Tornei-me um pouco cética e anárquica. Algumas vezes cheguei a votar nulo.

 Foi o que aprendi  numa correspondência diária sobre poesia e sobre a vida com todo o seu colorido pessoal de dilemas existenciais com um escritor que foi ativo militante do PCdoB, que me fez no ano passado sair à rua para celebrar o Dia Nacional da Consciência Negra. Falar sobre poesia e sobre o viver com uma pessoa sensível com passado tão significativo, reavivou meus interesses pela política. Porque escrevíamos diariamente  sobre poesia sem deixarmos de considerar temas como a exclusão dos negros, dos deficientes físicos, dos idosos, dos que padecem de sofrimento psíquico, das mulheres que são maltratadas pelos maridos ou assediadas pelos patrões. Acho que é fundamental o "sem perder a ternura". Acho que é fundamental não perder a delicadeza. E é pela via da ternura e da delicadeza que tomo minhas posições políticas. É pensando toda noite no sofrimento de N. 

Por essa via, fiquei muito tocada de ver um homem inteligente, sensível e de esquerda, muito esclarecido politicamente, cavalheiro, me fazer passar à sua frente na hora de entrar no elevador e de subir a escada rolante. Não gosto muito das pessoas politizadas que confundem as mulheres terem direitos sócio-econômico-político-culturais iguais aos homens, com serem tratadas por eles sem quaisquer deferências ou delicadezas. É com esse homem cavalheiro que vou me aconselhar a respeito de em quem votar para os demais cargos além de presidente. 

Pela via da ternura e da delicadeza é que fiquei assombrada de admiração por um senhor de 92 anos, que por ter sofrido um processo de interdição por motivo de saúde, teve cassado seu direito ao voto nas próximas eleições presidenciais. Quando soube que não poderia exercer seu direito de cidadão, este senhor ficou muito indignado e triste. No meu modo de ver a vida e o mundo, este fato tem toda uma beleza particular e constitui um chamado para nos fazer pensar. Pensar em N. Pensar no que há de extraordinariamente dignificante, neste senhor tão apropriado do seu valor como sujeito e do seu dever como cidadão. Nele, nos seus 92 anos, a vida pulsa. E sentir vergonha, uma enorme vergonha, se algum dia me passou pela cabeça a ideia de votar nulo.

Temos ainda um longo caminho a percorrer para que um dia a ficha de N. possa cair. Foram anos infindáveis de escravidão. Foram anos massacrantes de ditadura. Me deixa triste, mas é compreensível a sua desesperança sofrida  e de alguns semelhantes a ela. Isso sem pensarmos na diuturna maciça propaganda na mídia, particularmente nos canais de TV e rádio escutados pelas camadas populares, nos empurrando para um retrocesso político, para uma volta a um passado desalentador.

Mesmo sendo uma pessoa pouco informada das notícias políticas de jornal (prefiro ler sobre literatura, artes e cultura),  mesmo preferindo a opinião de Marilena Chauí e de outros intelectuais sobre as eleições, sou inquieta quanto ao futuro do meu país. Quero que as pessoas de baixa renda que vêm usufruindo de melhores condições de vida, usufruam mais ainda. Quero que pessoas como o vigia noturno do prédio onde tenho consultório, sobre quem falei a vocês na crônica intitulada "Quebra-cabeça", possa ter uma vida profissional promissora quando se formar em filosofia. Quero sobretudo que ele não tenha que esperar a Doutora Marcia descer num fim de dia de trabalho para que possa ter uma interlocução sobre Ariano Suassuna e Manoel de Barros. Quero que ele possa conversar sobre essas coisas com seus parceiros de trabalho. Quero que N. não se sinta constrangida de entrar comigo num boteco da Ceasinha ou  num restaurante mais sofisticado.

Por isso passei a manhã de hoje dando uma devassa no meu minúsculo quartinho de estudos para encontrar meu título de eleitor. Encontrei. Estava no meio de uns papéis destinados à minha inscrição na pós-graduação do Instituto de Letras. Deixei o título guardado bem à vista para não desaparecer de novo. Faço absoluta questão de votar e penso que escolherei com critério minhas candidatas e/ou meus candidatos.

 Se vou votar numa mulher, não o faço apenas por ser mulher. Tenho um pouquinho de pé atrás com o discurso feminista. Pelo menos aquele discurso feminista cheio de investidas fálicas que tenta contemplar as mulheres desqualificando os homens. Acho que embora tendo direitos iguais, para além da anatomia homem e mulher são coisas muito diferentes e assimétricas. Então certamente as questões das mulheres têm especificidades às quais uma mulher pode ser mais sensível, sem dúvida. Penso contudo, que as questões do masculino têm também suas particularidades, às quais uma mulher sensível pode e deve também contemplar. Voto numa mulher pelo programa político que defende para os cidadãos, mulheres e homens cujas demandas específicas devem ser escutadas.

 Não digo a nenhum de vocês "votem nesse, votem naquele". Até tentei dizer a N. Mas acho que usar da prerrogativa de ter sido sua patroa para convencê-la é abuso de poder. Acho que ela, como todos nós, precisa de tempo para amadurecer suas posições. Acho que quando a gente se ocupa das questões da subjetividade, acaba por saber que nem tudo se resolve pela via da mestria das argumentações racionais.

 Não quero persuadir N. enchendo-a de argumentos fazendo uso da minha "superioridade" intelectual. Que superioridade? N. com a escolaridade que teve e as oportunidades que lhe foram oferecidas é muito mais inteligente que eu que não sei registrar números de telefone numa agenda de celular. Não sei. Mas acho que sua questão diz respeito ao lugar que se permite ocupar na vida, no mundo. Isso não se resolve necessariamente pelo caminho da racionalidade. A opressão destitui as pessoas da sua condição de sujeitos desejantes. O que seria preciso fazer para lhes restituir essa condição? Aqui acredito que a psicanálise joga um papel importante. Mas qual? Certamente não seria o caso de recomendar a todas as pessoas como N. que se submetam a um tratamento psicanalítico. Mesmo porque infelizmente a psicanálise não é ainda acessível a todas as parcelas da população.

Estas questões me ocupam a cabeça. As precárias condições de vida de pessoas como N. clamam por  soluções mais imediatas. A fome não pode esperar.  N. passou um mês pernoitando em uma cadeira de hospital público acompanhando seu marido que sofria de cirrose hepática e acabou vindo a falecer. Ela estava tão exausta na hora do funeral, que atualmente não se lembra a data da morte. Como falar de elaboração de luto a uma pessoa que vive assim? O que posso fazer de mais imediato por ela, é exercer com consciência o meu voto. As eleições estão aí.

 Por isso, quando chegar na cabine de votação estarei pensando nela. E em mim também. Quero eleger um governo que possa permitir que algum dia faça parte dos programas de saúde um projeto que vise restituir aos cidadãos sua condição de sujeitos desejantes. Sei que para isso há um grande caminho a trilhar. Há que se definir prioridades. Por isso é preciso primeiro chegar na cabine de votação. Quando lá chegar, também estarei pensando em vocês que me leem, a quem não digo "votem nesse, votem naquele". Votem de acordo com suas consciências. Eu vou votar para dar continuidade a um projeto de Brasil sem desigualdade social.  Vou votar, pra não voltar.
                                                                                                             Marcia Gomes.

domingo, 14 de setembro de 2014

14/09/14                              DIVISÃO,  DE  VISÃO.     

 Amanhã, setembro entre dois números quatorze, faz o mês oscilar na corda-bamba.Uma simetria quase primaveril equilibra a data que acabei de escrever. Hoje, sábado uma moldura plúmbea ainda invernal dá contorno à tarde. Prenúncios ainda vacilantes de uma primavera por vir me animam a pena. Mas teimo ainda em persistir no tom de inverno porque gosto da palavra "plúmbea". Tem peso, densidade e acho que a vi pela primeira vez num romance de Jorge Amado em que o mar encapelado ameaçava os corações das amantes à espera de seus pescadores. Acho que era "Mar Morto".

 Plúmbeo, o céu da tarde não me permite antever quão célere correrá o ponteiro do relógio para que chegue a primavera. Como o mês de setembro cortado pelo meio, meu coração se divide entre ditar um discurso de amante à espreita do que virá, ou um discurso de uma senhora desencantada que nada mais espera. O que prevalecerá?

Não sei, não sei. Só sei que ainda esta semana escrevi a umas colegas que jamais precisei de reposição hormonal e que sou uma incorrigível encantada com as surpresas do amor. Uma amiga querida me deu uma vez um livro de Ítalo Calvino intitulado "Os Amores Difíceis", dizendo ser esse título a minha cara. Por certo. Gosto das coisas dialetizadas, movidas por contradições. Mas ganhei este livro há anos atrás, quando ainda à meia noite não tinha as retinas fatigadas. Agora durmo cedo e acordo cedo. Troquei o hábito de um jantar farto por uma frugal refeição noturna que me preserva o estômago e o sono. Por certo. Gosto dos amores tormentosos, cheios de interdições, percalços. Mas isso era há anos atrás quando o corpo movia-se acompanhando a velocidade de um coração descompassado. Agora meus músculos estão um tanto flácidos e os ossos  cansados.

Será que deixo os prenúncios vacilantes da primavera me animarem a pena ou cedo à sensação de ser um Roland Barthes combalido e recolho os fragmentos do discurso para debaixo do tapete? Enquanto não sei responder, espio o céu da tarde. E o céu se abre. O plúmbeo vai concedendo lugar a um azul com nesgas de sol. Enquanto escrevo, assisto ao canal Arte 1 e me colhe uma cena de um seriado onde o amante rouba a amante de seu leito e a leva numa carruagem. Falam francês. E é aquela musicalidade de frases entrecortadas por arfares. O céu continua se abrindo. Devagar como uma mulher madura vai se abrindo com cautela ao cerco titubeante de um parceiro maduro. O aparelho de TV perde o sinal e a cena dos amantes se interrompe. O ruído de carros na Sabino Silva ilude a escuta, e me toma a sensação de um mar encapelado assustando os corações das amantes à espera de seus pescadores. A televisão volta ao ar e a amante diz ao parceiro que temia que ele morresse antes que se reencontrassem.

Então recordo uma discussão de quarta-feira passada na Letra Freudiana, onde a propósito das insígnias de poder que precisam os machos apresentar, alguém comentou que José Wilker morreu de um infarto de tanto que consumiu Viagra para comparecer viril a uma amante jovem. Penso que se é à custa de infartar, prefiro um parceiro não tão viril que consuma o seu Viagra com parcimônia para poder envelhecer comigo. Penso em Gabriel Garcia Marques e o seu lindo "O Amor nos Tempos do Cólera". E o céu continua a se abrir.

 Lembro também que na discussão da Letra Freudiana comentou-se que as insígnias da masculinidade não estão na posse de um órgão sempre ereto (um homem "neurótico normal" precisa sucumbir à realidade da detumescência para que possa ter uma vida amorosa saudável), mas no quanto um homem pode despertar admiração, respeito pela sua competência, sentimento de proteção e cuidado na sua parceira. Lembro que no início da minha adolescência eu ficava fascinada com um casal de idosos que ficava namorando, se olhando, se beijando e conversando muito, no largo do bairro da Graça. Quanta coisa pareciam os dois ter a conversar!! Eu achava lindo!

Agora o seriado acabou e há um ator sexagenário dando uma entrevista e dizendo que nos tempos atuais da internet e do Facebook, a experiência de intimidade está na criação artística. A amiga que me deu o Ítalo Calvino me telefona e meio sem pensar no que estou dizendo, lhe digo que escrevo sobre o amor na maturidade. Me assusto. Agora o ator entrevistado fala da sua ascendência portuguesa e no fundo da entrevista toca um fado. Me emociono. Acho que fado combina com o amor na maturidade.

 Penso que em começo de outubro Rafael, meu filho adotivo, vem com uma amiga ficar aqui em casa. Gosto muito de ter o status de mãe. Receber seus telefonemas para lhe aconselhar sobre seus planos como professor na universidade. Gosto de ser uma mãe respeitosa do seu desejo, só aconselho quando ele me demanda, e penso mesmo que o melhor que temos a oferecer a um filho é dar o exemplo de ser um sujeito desejante.

Agora volto a olhar o céu. É de um azul claro com nuvens totalmente brancas. Acabou-se o plúmbeo. Penso que hoje estou de visão do céu. Divisando. Divisão. O que faço agora que o céu é azul luminoso e tenho um corpo idoso? O que teria no meu corpo para oferecer a um parceiro? À essa altura da vida é difícil se confrontar com as estrias, as celulites, as adiposidades que despencam e ter que mostrar o corpo. Por que não mostrar? Por que não me ancorar no fato de que não preciso de reposição hormonal? Não é essa a evidência de que tenho ainda um corpo amorável? E pensar que vou ter coragem de postar este texto no Facebook amanhã...

 Vontade de conversar coisas dos meus interesses atuais. Vontade de partilhar, de ouvir sobre experiências. Alguém me contou com entusiasmo que visitou o Museu de Freud compreendendo a importância histórica daquele que trouxe à humanidade mais uma ferida narcísica. Penso que há até pouco tempo atrás eu escrevia num diário intitulado "Palavra Ferida". Vontade de conversar sobre as feridas narcísicas trazidas à humanidade. Acho que Copérnico, Darwin, Freud. Definitivamente gosto de quem compreende a importância histórica de Freud. Gosto de quem se faz respeitar.

Definitivamente o céu ficou azul. Me alegra saber que daqui pra frente haverá cada vez mais céus azuis. Eu, dividida, como o é um bom sujeito neurótico, me permito me alegrar com isso. Não há um bom papo que não cure tempos sombrios.

 Agora no Arte 1 estão passando um texto satírico de Hamlet.  Aprendi no meu curso de psicanálise e literatura que Shakespeare foi contemporâneo de Descartes. "Penso, logo existo." "Ser ou não ser, eis a questão." Hamlet, personagem emblemático da divisão subjetiva, não por acaso. Há então uma coincidência histórica entre o momento em que existem os pré-requisitos para o surgimento da ciência e em seguida da psicanálise, e os dilemas existenciais de Hamlet. Gosto de quem entende de razões históricas. Isso nos permite contextualizar, transcender. Isso nos permite deixar prevalecer a alegria do encantamento com a chegada da primavera. Divagar, pra não assustar, se fecha o ciclo do plúmbeo. É hora de amar de novo?
                                                                                    Marcia Gomes.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

07/09/14                                             O  CISNE  VIVO.

Quinta-feira passada. Prenúncios no ar de primavera à moda baiana. Um dia que não chega a ser acalorado, mas sem os ruídos do vento úmido entrando na varanda do meu apartamento. Para matar as saudades, saio com uma amiga para almoçar num restaurante português aqui perto. Comida honesta, bom atendimento. Como isso me agrada!!

 O papo entre amigas foi delicioso. Falamos até um pouquinho do encontro da turma de Psicologia que acontecerá em 1 de novembro. Falamos do quanto me surpreendeu um escritor que respeitamos muito, haver sugerido que eu publique num livro algumas crônicas selecionadas. Falamos também das nossas preocupações com a saúde uma da outra. Fomos ao banco e estacionamos na vaga para idosos. Com essa amiga eu posso ser eu mesma. Prescindimos de máscaras sociais. Como isso me agrada, me enternece, me gratifica!!

De volta para casa, vou cuidar de fazer alguns contatos para o encontro da turma de Psicologia e me chega a notícia desconcertante. Diante da notícia perco muita energia e não quero fazer mais nada, a não ser falar com Sandra, minha irmã mais velha. Me sinto um tanto em estado de choque. Tento o telefone uma, duas, três, vezes. Sandra não responde. Não sei e não gosto de enviar mensagens. Me sinto desolada, envelhecida e solitária com a noite que chega. Finalmente Sandra atende o telefone e posso partilhar a minha perplexidade.

Conhecemos Cilinho quando eu contava apenas 10 anos, morando no bairro de Nazaré. Nossos pais ainda viviam juntos. Cilinho ficou amigo de Sandra através de um namorado dela que era nosso vizinho. Morava na Rua da Poeira. Que poético esse nome de rua! Tudo que diz respeito a Cilinho me soa poético. Com a separação de nossos pais mudamos para o bairro da Graça e Cilinho muda da Poeira para o Canela. Era só descer um pedacinho da Euclides da Cunha e já estávamos no apartamento dele, um adolescente de rosto delicado, olhos pequenos amendoados, testa muito grande e voz grave-doce.

 Filho caçula temporão de Dona Lurdes que o enchia de mimos. Colega de Sandra no Severino Vieira, os laços de amizade entre os dois se fortaleceram com a intermediação de Bento, agora já outro namorado de Sandra com quem ela se casou e teve minha sobrinha Daniela, de quem Cilinho viria futuramente tornar-se padrinho. Ele e Bento eram unha e carne. Cúmplices nas malandragens que faziam com as garotas, onde um estava, o outro estava também.

Me vejo então já com 12 anos, corpo de mulher feita sob a ebulição dos hormônios. Por conta do namoro de Sandra e Bento convivo com Cilinho que devia ter já uns 17 anos.  Trabalhava na prefeitura e gazeteava trabalho e aulas para fazer poemas e tocar violão. Era sensível, inteligente, delicado e muito sedutor. Eu estava com meus hormônios à flor da pele, também era sensível, delicada, inteligente e não resistia a uns versos bonitos feitos só pra mim. Como resistir àquela voz grave-doce ao som de um violão bem tocado? Quando Cilinho me olhava passava um choque elétrico em todo meu corpo. Eu tinha medo daquela intensidade. Ao tempo em que queria, fugia dele. Houve uma noite em que ele tomou minhas mãos nas suas e me disse estar se cansando das minhas escapadelas.

Fomos milhares de vezes juntos à praia do Barravento. Dançamos a noite toda de rostos colados na festa do Manoel Devoto, onde eu estudava e era presidente do grêmio. Íamos sempre com Sandra e Bento à casa de uma amiga no Cabula comer Maniçoba. Partilhei com ele a minha descoberta de Drummond e de Fernando Pessoa. Aprendi com ele a recitar uns versos de Augusto dos Anjos que terminavam assim: ... "no desespero dos iconoclastas, quebrei a imagem de meus próprios sonhos".  Também, acho que de Raul de Leone: ..."que o cisne vivo cheio de saudade, nunca mais cante  nem sozinho nade, nem nade nunca ao lado de outro cisne". Cantamos juntos muitas canções da época. 

 Eu me enfeitava toda e me perfumava para estar com ele, mas nem um beijo na boca eu permiti. Cilinho era o primeiro grande amor da minha vida com direito a todos os clichês. Ele se cansou de me esperar e se interessou por outras garotas. Eu, uma donzela abandonada, chorei lençóis de lágrimas e escrevi milhões de versos.

Vieram novos amores pra mim já sem medo, mudei de casa mais uma vez, e, embora ele continuasse amigo de Bento, as contingências da vida nos separaram e ele saiu do meu coração e do meu campo visual.

Quando estava cursando Psicologia na Ufba, encontrei na faculdade o colega Caria. Pequena a aproximação. Batíamos papo de corredor, nunca estudamos juntos, frequentávamos galeras diversas. Muito boêmio, Caria era próximo dos simpatizantes da psicanálise, gostava muito de tomar uma cervejinha, fazer versos e tocar violão. Eu era praticamente noiva nessa época. Caria, se não me engano, já separado da primeira mulher, namorou e casou com uma moça chamada Cléia ou Icléia, ou algo assim. Morou na Vila Matos, se não me engano teve filhos estudando na Via Magia. Mas eu e esse colega de faculdade vivemos sempre meio afastados e chegou um tempo que mais nada soube dele.

Até que chega a quinta-feira passada e nos contatos de preparação do encontro da turma de Psicologia, uma colega me diz que o colega Caria já há algum tempo não está mais entre nós. Transmutou-se em poeira com toda a poesia a que esta palavra tem direito. A minha memória retrocedeu num torvelinho desamparado de recordações.

 Por que a perda de um colega com quem não tive ligação mexeu tanto comigo, trouxe a inexorabilidade da morte pra tão perto de mim, me fez sentir uma solidão infinita diante do anoitecer? Não parece simples responder. Vocês já devem ter adivinhado. Aqui vai mais um clichê: "o primeiro amor a gente nunca esquece". É que o nome de Cilinho era Otacílio Mendes Caria.

 Pra mim, na quinta-feira passada, quem morreu não foi Caria. Foi o meu Cilinho. Morreu um pouco da Marcia de 12 anos que subia num caixote conclamando os colegas pra derrubar a ditadura. Morreu um pouco da Marcia que tendo medo do amor, tremia de amor. Porque qual um cisne solitário sobreviveu a Otacílio uma senhora que perdeu a única possível testemunha do que é apaixonar-se  pela primeira vez sem coragem de beijar na boca. Como eu gostaria de ter podido sentar com ele e relembrar aqueles tempos!

"Que o cisne vivo cheio de saudade, nunca mais cante nem sozinho nade, nem nade nunca ao lado de outro cisne". Obrigada, Cilinho, por me iniciar, com suavidade, com a delicadeza da poesia, no tortuoso percurso dos desfiladeiros do amor.
                                                                                                                   Marcia Gomes

domingo, 31 de agosto de 2014

31/08/14                                      REENCONTRO.

Década de setenta. 1971 e 1972. Anos negros da ditadura militar. O que acalentava os sonhos daqueles jovens de ingressarem na Ufba e se tornarem psicólogos? A universidade era alvo da mais dura repressão. O movimento estudantil atuava tendo que recorrer a estratégias para se fazer presente na luta contra a ditadura, ao tempo em que cuidava de preservar a segurança de seus quadros. O que acalentava meu sonho de me tornar psicóloga em tempos tão sombrios?

A minha turma, que ingressou em 72, já o fez sob a égide de uma disputa que tínhamos que travar com os próprios colegas. Depois de aprovados no vestibular, para permanecermos no curso, tínhamos que nos submeter a uma outra seleção, o chamado "provão". O quinto ano de Psicologia, que nos autorizaria como psicólogos, não estava ainda regulamentado.

Acho que não é à toa que na literatura do materialismo dialético se diz que a contradição é o motor da transformação. Entrávamos no curso de Psicologia confrontados com as mais duras contradições impostas pelo regime militar, e ao invés de escolhermos competir com o colega que sentava ao nosso lado, junto com o Diretório Acadêmico lutamos e derrubamos o "provão". Nos engajamos na luta pela regulamentação do quinto ano e nos tornamos uma turma unida e solidária. Alguns de nós se tornaram ativos representantes do Diretório, outros escreviam no jornal "Reflexo" e vivemos com perplexidade e angústia a necessidade de nosso colega Acácio se refugiar na clandestinidade. Há alguns anos atrás soube por amigos do falecimento de Acácio por motivo de doença. Creio que jamais ele pode realizar o sonho de se tornar psicólogo.

O que acalentava meu sonho de me tornar psicóloga? Era um sonho antigo. Desde a adolescência comecei a me interessar pelas questões da subjetividade e do fazer clínico. A singularidade do outro me instigava e li autores como Balzac, Flaubert e Machado de Assis pelo quanto sabiam construir e descrever o perfil psicológico de seus personagens, ambientado em determinado contexto sócio cultural. Gostava de observar as pessoas e me tornei uma boa ouvinte das suas questões existenciais, seus dramas, seus dilemas, suas histórias de vida. Entrei no curso querendo ser psicoterapeuta e acreditando ter o psicólogo uma função  importante como agente de transformação, numa sociedade marcada pela desigualdade e pelo autoritarismo.

Ainda que sob alguns aspectos  não me furtasse a exercer uma certa liderança, eu era uma estudante tímida e muito aplicada. De modo que logo me refugiei num pequeno grupo de colegas muito estudiosos e politizados. Creio que a interação com a maioria dos colegas da classe ficava prejudicada pela timidez mal disfarçada por uma certa ascendência intelectual. No segundo ano de faculdade eu e meu grupo de amigos no qual eu vivia fechada, nos tornamos entusiastas do behaviorismo e muito devemos da nossa formação em Análise do Comportamento às professoras Anamélia e Eglê. De ambas nos tornamos monitores.

Já faz tanto tempo que não tenho certeza. Mas suponho que meu relacionamento com a grande maioria dos colegas se dava pela via de exercer a função de monitora. Pensando hoje, sinto muita falta de ter me relacionado com meus colegas mais de igual para igual, e uma enorme vergonha do preconceito com que eu lidava com professores psicanalistas e com colegas simpatizantes da psicanálise. Foram cinco anos que se eu pudesse retroceder no tempo muita coisa eu faria diferente. Sinto como se, fechada em meu grupo, tenha me privado de conhecer mais de perto outros colegas, de vislumbrar outras alternativas. Fico triste quando olho a foto da formatura em 76 e não me recordo do nome e mal reconheço alguns daqueles que durante cinco anos sentaram nos bancos escolares ao meu lado.

Na formatura, eu ainda estava muito tomada pelo luto de meu pai, mas tenho a bonita lembrança de mim no palco declamando a minha frase do jogral que toda a turma encenou. Foi um jogral de autoria da colega Ana Cecília que escreve muito bem, se não me engano, abordando a questão da função social do psicólogo. Lembro também que no nosso convite de formatura havia um poema "engajado" do colega Helson Ramos.

 Éramos jovens interpelados pelas questões que cercavam os tempos sombrios em que vivíamos, e na nossa maioria nos sentíamos convocados a lutar por uma sociedade mais justa e isso, como causa, nos movia como pessoas engajadas e responsáveis pela construção de um futuro. É claro que havia também entre nós aqueles "alienados" , acomodados aos fáceis confortos das suas vidinhas burguesas. Mas eram poucos. Tenho a clara lembrança de colegas de classe média alta ou mesmo alta escondendo em suas casas colegas perseguidos pela repressão, participando de assembléias e manifestações, e colaborando financeiramente para a luta contra a ditadura. 

Passada a formatura, a não ser do meu grupo de amigos, me afastei completamente de meus colegas. Com o grupo de amigos montei consultório para fazer Terapia Comportamental e lecionei alguns anos no curso de Psicologia da Ufba. No consultório, ainda muito politizados, prestamos  serviços a alguns militantes do PCdoB, atendendo-os em psicoterapia.

Na década de 80 mudei-me para São Paulo para fazer mestrado na USP, me desliguei da Ufba, não me casei oficialmente nem tive filhos. Voltei para Salvador na década de 90 e exerci, por vários anos, com muito sucesso a função de Terapeuta Cognitivo Comportamental até que em 2004, passando por um rico processo de análise, fiz, felizmente, minha passagem para a psicanálise e ocupo hoje com muito orgulho o lugar de psicanalista no meu consultório. Diante de tantas mudanças e reviravoltas, onde estavam os meus colegas de faculdade, o que andavam fazendo, o que fizeram de suas vidas? Eu os havia perdido de vista, como se nunca houvesse participado daquela turma.

Quando a gente se submete a um processo de análise, muitas coisas são ressignificadas. A gente, implicada no processo, se interroga sobre o destino que deu à própria vida, revê as escolhas que fez, arca com o ganho do que considera acertos, mas não deixa de pagar o preço pelos equívocos que cometeu, e corre atrás de se reinventar, fazer diferente.

Foi com esse espírito de querer me reinventar, que aceitei em abril deste ano o convite de uma colega que encontrei por acaso, para visitar um grupo de colegas da faculdade que se reúne uma vez por mês. Fui muito bem recebida no grupo. Senti prazer em rever as pessoas. Gostei das recordações tipo "hora da saudade" nas quais nos engajamos. E, de repente, muito espontaneamente, surgiu a ideia de 38 anos depois, fazermos um encontro das turmas de Psicologia que ingressaram em 71 e 72. Me deu um frio na barriga de medo mas achei a proposta bem interessante. O medo, acho, é efeito da timidez. Acho que anos de análise não curam timidez. Fico muito desajeitada em eventos sociais, particularmente em ambientes em que não me sinto pertencer. Como já disse, pelo meu fechamento e pelos meus preconceitos, é como não me sentisse pertencer àquela turma.

Diante da proposta senti-me dividida. Contudo o desejo de ver meus colegas, talvez poder abraçá-los como essa nova Marcia que sou, me fez embarcar no projeto. Trocaram-se E-mails e telefones, muitos colegas queridos e generosos apostaram na realização do evento que vai acontecer em 1 de novembro. A troca de mensagens para implementar a realização vai me dando conta de que somos uma turma carinhosa, cooperativa e com muita coisa pra compartilhar. Pode ser que na hora da festa me dê uma "caruara" e eu fique recolhida num canto. Mas o desejo agora é de rever aquelas pessoas das quais estive tão distante.

Fico impressionada com o número de pessoas que se disponibilizam para arcar com as tarefas de realização da festa. Alguns mais à frente, outros, nem tanto, mas todo mundo com desejo. Me emociona tanto esse impulso coletivo de reencontro, que acho que vou mandar esta crônica para toda a lista de contatos. Vou mandar a crônica para que todos saibam quão importante esse movimento de resgate é pra mim. Vai que na hora me dá a "caruara", então já me garanto contando na crônica.

Acho que foi minha a ideia de convidar aqueles que foram nossos professores. Agora que começo a envelhecer e tento me tornar mais humilde, sou grata a todos eles. Psicanalistas, behavioristas, pertencentes a quaisquer correntes teóricas, deram uma importante contribuição para nossa formação e uns mais, outros menos, estiveram todos juntos na jornada de fazer de nós os profissionais que somos.

 Não sei como será o encontro. Não sei no que se transformaram aquelas pessoas 38 anos depois. O que importa é que passamos 5 anos da nossa juventude convivendo diariamente juntos. Nos mais árduos anos da feroz ditadura. Éramos quase adolescentes. Quantas dúvidas, quantas inquietações, quantos projetos não tomavam cada um de nós? Dou-me conta de que somos hoje quase todos sexagenários. Muitos já perderam seus pais, ou são seus cuidadores. Muitos devem estar cheios de netos.Por quantas mudanças profissionais e pessoais não passamos? Quantos ganhos, quantas perdas, sonhos que se perderam, quimeras construídas, casamentos feitos e desfeitos?

 Podemos estar todos muito diferentes inclusive fisicamente. Em alguns pode ser que a pele não tenha mais o mesmo viço. Alguns podem estar acometidos dos achaques da PVC (porra da velhice chegando) ou da PVI (porra da velhice instalada). Talvez, como eu que não sou vaidosa, alguns prefiram mostrar seus cabelos grisalhos. Outros não. Fizeram plástica, lipoaspiração e fazem muito bem em malhar na academia. Não importa. Podemos, se quisermos, falar nesse encontro sobre tudo isso, até (por que não?) achando graça. Um senso de humor ancorado na ternura. Uma colega muito divertida, na troca de E-mails de preparação do encontro, sugeriu que usássemos crachás para sermos reconhecidos. De repente a ideia pega.

Acho que a riqueza do encontro vai estar em também nos reconhecermos nas nossas diferenças, respeitando a trajetória que foi possível para cada um, que cada um trilhou. Que possamos nos escutar com interesse e alegria. Somos testemunhas de uma época. A partilha de anos da juventude, para uns mais, para outros, menos, é um elo de ligação que transcende a passagem do tempo e todas as diferenças. Vamos então nos reconhecer em 1 de novembro. Vamos todos celebrar esse reencontro.
                                                                         Marcia Gomes.

31/08/14                                      REENCONTRO.

Década de setenta. 1971 e 1972. Anos negros da ditadura militar. O que acalentava os sonhos daqueles jovens de ingressarem na Ufba e se tornarem psicólogos? A universidade era alvo da mais dura repressão. O movimento estudantil atuava tendo que recorrer a estratégias para se fazer presente na luta contra a ditadura, ao tempo em que cuidava de preservar a segurança de seus quadros. O que acalentava meu sonho de me tornar psicóloga em tempos tão sombrios?

A minha turma, que ingressou em 72, já o fez sob a égide de uma disputa que tínhamos que travar com os próprios colegas. Depois de aprovados no vestibular, para permanecermos no curso, tínhamos que nos submeter a uma outra seleção, o chamado "provão". O quinto ano de Psicologia, que nos autorizaria como psicólogos, não estava ainda regulamentado.

Acho que não é à toa que na literatura do materialismo dialético se diz que a contradição é o motor da transformação. Entrávamos no curso de Psicologia confrontados com as mais duras contradições impostas pelo regime militar, e ao invés de escolhermos competir com o colega que sentava ao nosso lado, junto com o Diretório Acadêmico lutamos e derrubamos o "provão". Nos engajamos na luta pela regulamentação do quinto ano e nos tornamos uma turma unida e solidária. Alguns de nós se tornaram ativos representantes do Diretório, outros escreviam no jornal "Reflexo" e vivemos com perplexidade e angústia a necessidade de nosso colega Acácio se refugiar na clandestinidade. Há alguns anos atrás soube por amigos do falecimento de Acácio por motivo de doença. Creio que jamais ele pode realizar o sonho de se tornar psicólogo.

O que acalentava meu sonho de me tornar psicóloga? Era um sonho antigo. Desde a adolescência comecei a me interessar pelas questões da subjetividade e do fazer clínico. A singularidade do outro me instigava e li autores como Balzac, Flaubert e Machado de Assis pelo quanto sabiam construir e descrever o perfil psicológico de seus personagens, ambientado em determinado contexto sócio cultural. Gostava de observar as pessoas e me tornei uma boa ouvinte das suas questões existenciais, seus dramas, seus dilemas, suas histórias de vida. Entrei no curso querendo ser psicoterapeuta e acreditando ter o psicólogo uma função  importante como agente de transformação, numa sociedade marcada pela desigualdade e pelo autoritarismo.

Ainda que sob alguns aspectos  não me furtasse a exercer uma certa liderança, eu era uma estudante tímida e muito aplicada. De modo que logo me refugiei num pequeno grupo de colegas muito estudiosos e politizados. Creio que a interação com a maioria dos colegas da classe ficava prejudicada pela timidez mal disfarçada por uma certa ascendência intelectual. No segundo ano de faculdade eu e meu grupo de amigos no qual eu vivia fechada, nos tornamos entusiastas do behaviorismo e muito devemos da nossa formação em Análise do Comportamento às professoras Anamélia e Eglê. De ambas nos tornamos monitores.

Já faz tanto tempo que não tenho certeza. Mas suponho que meu relacionamento com a grande maioria dos colegas se dava pela via de exercer a função de monitora. Pensando hoje, sinto muita falta de ter me relacionado com meus colegas mais de igual para igual, e uma enorme vergonha do preconceito com que eu lidava com professores psicanalistas e com colegas simpatizantes da psicanálise. Foram cinco anos que se eu pudesse retroceder no tempo muita coisa eu faria diferente. Sinto como se, fechada em meu grupo, tenha me privado de conhecer mais de perto outros colegas, de vislumbrar outras alternativas. Fico triste quando olho a foto da formatura em 76 e não me recordo do nome e mal reconheço alguns daqueles que durante cinco anos sentaram nos bancos escolares ao meu lado.

Na formatura, eu ainda estava muito tomada pelo luto de meu pai, mas tenho a bonita lembrança de mim no palco declamando a minha frase do jogral que toda a turma encenou. Foi um jogral de autoria da colega Ana Cecília que escreve muito bem, se não me engano, abordando a questão da função social do psicólogo. Lembro também que no nosso convite de formatura havia um poema "engajado" do colega Helson Ramos.

 Éramos jovens interpelados pelas questões que cercavam os tempos sombrios em que vivíamos, e na nossa maioria nos sentíamos convocados a lutar por uma sociedade mais justa e isso, como causa, nos movia como pessoas engajadas e responsáveis pela construção de um futuro. É claro que havia também entre nós aqueles "alienados" , acomodados aos fáceis confortos das suas vidinhas burguesas. Mas eram poucos. Tenho a clara lembrança de colegas de classe média alta ou mesmo alta escondendo em suas casas colegas perseguidos pela repressão, participando de assembléias e manifestações, e colaborando financeiramente para a luta contra a ditadura. 

Passada a formatura, a não ser do meu grupo de amigos, me afastei completamente de meus colegas. Com o grupo de amigos montei consultório para fazer Terapia Comportamental e lecionei alguns anos no curso de Psicologia da Ufba. No consultório, ainda muito politizados, prestamos  serviços a alguns militantes do PCdoB, atendendo-os em psicoterapia.

Na década de 80 mudei-me para São Paulo para fazer mestrado na USP, me desliguei da Ufba, não me casei oficialmente nem tive filhos. Voltei para Salvador na década de 90 e exerci, por vários anos, com muito sucesso a função de Terapeuta Cognitivo Comportamental até que em 2004, passando por um rico processo de análise, fiz, felizmente, minha passagem para a psicanálise e ocupo hoje com muito orgulho o lugar de psicanalista no meu consultório. Diante de tantas mudanças e reviravoltas, onde estavam os meus colegas de faculdade, o que andavam fazendo, o que fizeram de suas vidas? Eu os havia perdido de vista, como se nunca houvesse participado daquela turma.

Quando a gente se submete a um processo de análise, muitas coisas são ressignificadas. A gente, implicada no processo, se interroga sobre o destino que deu à própria vida, revê as escolhas que fez, arca com o ganho do que considera acertos, mas não deixa de pagar o preço pelos equívocos que cometeu, e corre atrás de se reinventar, fazer diferente.

Foi com esse espírito de querer me reinventar, que aceitei em abril deste ano o convite de uma colega que encontrei por acaso, para visitar um grupo de colegas da faculdade que se reúne uma vez por mês. Fui muito bem recebida no grupo. Senti prazer em rever as pessoas. Gostei das recordações tipo "hora da saudade" nas quais nos engajamos. E, de repente, muito espontaneamente, surgiu a ideia de 38 anos depois, fazermos um encontro das turmas de Psicologia que ingressaram em 71 e 72. Me deu um frio na barriga de medo mas achei a proposta bem interessante. O medo, acho, é efeito da timidez. Acho que anos de análise não curam timidez. Fico muito desajeitada em eventos sociais, particularmente em ambientes em que não me sinto pertencer. Como já disse, pelo meu fechamento e pelos meus preconceitos, é como não me sentisse pertencer àquela turma.

Diante da proposta senti-me dividida. Contudo o desejo de ver meus colegas, talvez poder abraçá-los como essa nova Marcia que sou, me fez embarcar no projeto. Trocaram-se E-mails e telefones, muitos colegas queridos e generosos apostaram na realização do evento que vai acontecer em 1 de novembro. A troca de mensagens para implementar a realização vai me dando conta de que somos uma turma carinhosa, cooperativa e com muita coisa pra compartilhar. Pode ser que na hora da festa me dê uma "caruara" e eu fique recolhida num canto. Mas o desejo agora é de rever aquelas pessoas das quais estive tão distante.

Fico impressionada com o número de pessoas que se disponibilizam para arcar com as tarefas de realização da festa. Alguns mais à frente, outros, nem tanto, mas todo mundo com desejo. Me emociona tanto esse impulso coletivo de reencontro, que acho que vou mandar esta crônica para toda a lista de contatos. Vou mandar a crônica para que todos saibam quão importante esse movimento de resgate é pra mim. Vai que na hora me dá a "caruara", então já me garanto contando na crônica.

Acho que foi minha a ideia de convidar aqueles que foram nossos professores. Agora que começo a envelhecer e tento me tornar mais humilde, sou grata a todos eles. Psicanalistas, behavioristas, pertencentes a quaisquer correntes teóricas, deram uma importante contribuição para nossa formação e uns mais, outros menos, estiveram todos juntos na jornada de fazer de nós os profissionais que somos.

 Não sei como será o encontro. Não sei no que se transformaram aquelas pessoas 38 anos depois. O que importa é que passamos 5 anos da nossa juventude convivendo diariamente juntos. Nos mais árduos anos da feroz ditadura. Éramos quase adolescentes. Quantas dúvidas, quantas inquietações, quantos projetos não tomavam cada um de nós? Dou-me conta de que somos hoje quase todos sexagenários. Muitos já perderam seus pais, ou são seus cuidadores. Muitos devem estar cheios de netos.Por quantas mudanças profissionais e pessoais não passamos? Quantos ganhos, quantas perdas, sonhos que se perderam, quimeras construídas, casamentos feitos e desfeitos?

 Podemos estar todos muito diferentes inclusive fisicamente. Em alguns pode ser que a pele não tenha mais o mesmo viço. Alguns podem estar acometidos dos achaques da PVC (porra da velhice chegando) ou da PVI (porra da velhice instalada). Talvez, como eu que não sou vaidosa, alguns prefiram mostrar seus cabelos grisalhos. Outros não. Fizeram plástica, lipoaspiração e fazem muito bem em malhar na academia. Não importa. Podemos, se quisermos, falar nesse encontro sobre tudo isso, até (por que não?) achando graça. Um senso de humor ancorado na ternura. Uma colega muito divertida, na troca de E-mails de preparação do encontro, sugeriu que usássemos crachás para sermos reconhecidos. De repente a ideia pega.

Acho que a riqueza do encontro vai estar em também nos reconhecermos nas nossas diferenças, respeitando a trajetória que foi possível para cada um, que cada um trilhou. Que possamos nos escutar com interesse e alegria. Somos testemunhas de uma época. A partilha de anos da juventude, para uns mais, para outros, menos, é um elo de ligação que transcende a passagem do tempo e todas as diferenças. Vamos então nos reconhecer em 1 de novembro. Vamos todos celebrar esse reencontro.
                                                                         Marcia Gomes.

domingo, 24 de agosto de 2014

24/08/14                                       INTERVALO

Intervalo compulsório e interessante. Dois dias inteiros sem pisar na rua. Me submeti a uma cirurgia odontológica um tanto complicada. Por causa do diabetes, dose cavalar de antibióticos. Por causa dos antibióticos, dose cavalar de desconforto gástrico. As doses cavalares aos 61 anos imprimem à alma desamparada uma certa solidão. Solidão do filho que está longe, solidão da família que está longe, solidão principalmente daqueles que estão perto, tão longe, que nem sabem que sinto solidão.

Ao contrário de me submeter às dores da solidão, me rebelo ancorada nos mecanismos para mitigá-la. Penso que vou ler Hamlet. Estou fazendo um curso de literatura e psicanálise cuja tarefa é Hamlet. Tem tarefa melhor? Penso que vou reescrever um trabalho sobre os "Três Tempos do Édipo" que começou direitinho e ficou mal acabado. Qual o quê? Nem ler nem escrever. Dois dias inteiros sem baixar a cabeça. Foi essa a prescrição. Me resta ouvir música e assistir televisão. Odeio televisão.

 Mas tudo na vida tem jeito se a gente quer dar jeito na vida. Escolho primeiro me entreter com a tarefa de tomar um banho como alguém que não se destina a ir a lugar algum. Tomar banho sem qualquer pressa só pra ficar em casa com nada pra fazer é o maior barato!! A gente espia com cuidado cada parte do corpo. A gente lembra dos banhos que tomou acompanhada quando a carne do corpo era mais rija. Agora, não tão rija, a carne continua seus reclamos pela carne do outro corpo. Onde o outro corpo se há pouco a alma do outro se refugiou num deserto de ausências? A gente sente o sabonete fazendo espuma e deslizando na pele.  Acaricio minha pele e sinto saudade de todos aqueles que um dia fizeram isto por mim. Onde andam aqueles? Sinto ternura pelo meu corpo desemparceirado. Penso um a um em cada parceiro que passou. Nossa, quanta recordação!!! Findo o banho, já que não quero ficar numa sessão nostalgia dos amores perdidos, começo a pensar em algo mais que fazer. O telefone toca.

É minha mãe ao telefone. Já estou no segundo dia pós cirúrgico e posso falar. Como foi gostoso conversar com minha mãe!! Desde que ela soube que está às vésperas de uma viagem de Maceió para Aracaju seus ânimos são outros. Foi muito feliz nos anos que viveu em Aracaju. Participava ativamente das tarefas da Paróquia de Santa Luzia, tinha um grande grupo de amigos, gostava do acolhimento do Padre Manoel. É tão devota a minha mãe, que já esqueceu seus lapsos de memória só de saber que em Aracaju poderá receber a eucaristia diariamente. E eu, que nada entendo de eucaristia, dou corda ao papo que  alimenta , nutre sua alma. Lúcida, alerta, ela se encarrega de perguntar como foi a cirurgia, prescreve cuidados, me dá colo. Colo de mãe é tão bom!! Mas o papo não pode demorar. Ela tem a saúde frágil e precisa de seus rituais de repouso, de respeitar seus horários. Nos despedimos e eu de novo às voltas com meu intervalo compulsório.

Tenho tanta coisa para ler do Seminário VI de Lacan!! Mas o dentista prescreveu cabeça erguida. Nada de Lacan. Então me entretenho com o sentido metafórico de "cabeça erguida" e vou ligar a televisão. Para não baixar a cabeça  aos apelos sensacionalistas da mídia, como o diabo foge da cruz fujo das notícias globais e sintonizo o canal 183, Arte 1. Está passando um documentário muito interessante sobre um violoncelista pernambucano de nome Antônio Meneses que mora na Suiça. Titubeio um pouco a respeito de assistir o programa. Já contei a todos que tive pai comunista. Em casa só música popular ou coisa dos negros americanos, Jazz, blues. Música clássica era costume considerado aristocrático. A propósito do gosto musical de meu pai, soube do falecimento de Cybele do Quarteto em Cy e fiquei triste. Quando moramos em Ibirataia meu pai costumava fazer serenatas com as irmãs, antes de se tornarem famosas.Então na minha educação não fui iniciada nos ritos da canção erudita e me socorre o ouvido com uma dose de intuição. Minha mãe, a contragosto, é formada em piano. Então nunca a vi tocar um dó. De cabeça erguida resolvo desobedecer ao pai e escuto Antônio Meneses.

Bendito ouvido, bendita intuição. Ouço Tchaikovsky, Vivaldi, Bach, Debussy, Schubert, Schumman e principalmente me emociono muito com "O Canto do Cisne Negro" de Heitor Villa Lobos. O Antônio Meneses viaja por toda a Europa regido por famosos maestros e caminha na rua carregando nas costas um violoncelo que tem 300 anos. Deu seu primeiro concerto aos 11 anos. Um sentimento de nacionalidade de cabeça erguida me toma. Me comovo, fico orgulhosa desse brasileiro.Vejo anunciando no intervalo um filme de Leon Hirszman sobre Nelson Cavaquinho. Esse posso assistir sem desobedecer a meu pai. O programa do violoncelo acaba e entra uma exposição de um pintor e desenhista chamado F. Bacon. Muito interessantes os rostos distorcidos, deformados que ele concebe. Trata-se de um homossexual que foi violentamente castigado na puberdade por ter sido surpreendido usando as roupas da mãe. No intervalo fico sabendo que o último filme de Alain Resnais se chama "Amar, Beber e Cantar".

Muito mais coisa do Arte1 desfila diante de meus olhos e ouvidos. Mas a cabeça já está em outra viagem.  Uma nostalgia de quando eu vivia em São Paulo me toma. Acho que ainda morava em São Paulo quando assisti a filmes de Alain Resnais. Saudade das tardes outonais onde me deixando tocar pela fuligem que encobria os caules das árvores derramando no chão suas folhas amarelecidas, eu ia aos cinemas, aos concertos, aos museus, às exposições. Ah, como eu ia ao teatro! Por que não usufruo tanto quanto da vida cultural em Salvador?  Por que recuso a minha baianidade ? Se apodera de mim um sentimento de exílio.Por que tive de vir embora de São Paulo? Por que resisto tanto a voltar lá? Penso na frase deixada no Facebook por minha amiga em São Paulo: "Venha me visitar".

 Uma condescendência com a dor da estrangeirice me acalenta. Deixo a televisão, levanto do sofá, vou me olhar no espelho e choro porque não tenho e jamais terei respostas para tais questões. São os mistérios da vida na sua perplexidade que a gente vai saber só depois. "Se eu soubesse disso, teria escolhido aquilo." Nem sei se a gente tem mesmo escolha. Mas de uma coisa eu sei: dentro do que a vida me ofereceu fiz o melhor que pude. Ainda é tempo de em tardes ensolaradas de verão me deixar tocar pela coreografia ao vento das folhas verdejantes dos coqueiros e ir aos cinemas, aos concertos, aos museus, às exposições. Ah, como posso ir ao teatro!  Para isso, basta me apropriar da bonita frase de Caetano Veloso: "O melhor lugar é ser feliz."
                                                                                                     Marcia Gomes. 

domingo, 17 de agosto de 2014

17/08/14                                      TENTAR  SAIR  DE  CENA

Um luto pudico me inibe de falar da perda de Eduardo Campos. Só me ocorre dizer que quando perdi meu pai ele contava apenas 45 anos. Entre o diagnóstico e o fim foram apenas treze dias de insuportável dor. Mas dor não se coloca na balança. Como saber o peso da dor dos entes queridos de Eduardo Campos?  Um homem com filhos pequenos, honesto, competente, neto de Miguel Arraes e jovem, sair de casa em missão de trabalho e não voltar mais, é inqualificável! Muitos, nele depositaram a esperança de um Brasil melhor. A morte imprevisível, precoce e trágica me deixou com a sensação de o país ter sido traído pelas contingências, como quando perdemos Tancredo Neves e Ulisses Guimarães.

Com esse acontecimento dou-me conta de que há alguns domingos venho falando sobre a morte e o morrer. Rubem Alves, João Ubaldo, Ariano Suassuna. Perdas significativas para o povo brasileiro. Quando começamos a envelhecer a morte já nos parece alcançável e então nos toca mais? Sobrevivermos àqueles que se vão e nos são tão caros, causa uma espécie de constrangimento dolorido? 

Talvez não tão importante para o povo brasileiro, mexeu muito comigo a morte por suicídio do ator americano do filme "Uma Babá Quase Perfeita". Não presto muita atenção a noticiários mas fiquei sabendo que ele tinha envolvimento com drogas, álcool e principalmente que estava muito deprimido. Acho lamentável que a informação sobre o envolvimento com drogas e com álcool, coloca nas entrelinhas da notícia da mídia algo cruel assim: "Estão vendo vocês, ele se suicidou porque não tinha o juízo perfeito." A gente sente o tom de acusação da imprensa com o dedo em riste. Eu não sei nem me importa saber dessa maneira, se ele tinha o juízo comprometido ou não. Quem de nós tem o juízo perfeito?

A mim importa saber que assisti ao filme e o personagem feito por ele me enterneceu muito. É um pai um tanto desajuizado e transgressor, que num processo de divórcio está legalmente proibido de estar com os filhos, a não ser na presença da mãe que é uma educadora rígida e autoritária. Então esse pai, para estar diariamente com as crianças, cria o bem construído estratagema de se vestir de mulher e de conseguir ser contratado como babá pela ex-esposa. Não gosto muito de comédias, mas essa foi para mim comovente, pelas embrulhadas em que o pai se mete por amor aos filhos. O desempenho do ator é muito bom. Um ator excelente, que a despeito de envolvimento com drogas e álcool e o que mais quiser divulgar a mídia devassando sua privacidade, teve talento para fazer rir o mundo inteiro e sobretudo sentir muita ternura por aquele pai tão amoroso.

 Ao que parece, ao contrário da maioria das pessoas, que por motivos religiosos ou não, pensam que devemos viver sob quaisquer circunstâncias, tenho um enorme respeito pelo gesto suicida. Dizer do meu respeito muito longe está de fazer apologia do suicídio.  Somos, felizmente, quase todo o tempo, tomados pelo movimento de preservação da vida, particularmente quando ocupamos o lugar de psicanalistas. Trabalho em prol da preservação da vida. Mas não quero falar aqui do meu trabalho. Não cabe fazer pontuações psicanalíticas sobre o suicídio enquanto passagem ao ato. Quem quiser saber sobre isso é só ir a Lacan pelo menos no Seminário livro 10 "A angústia". Aqui no "Blá, blá, blá...." quem lê a minha escrita, são pessoas que fazem interlocução com Marcia enquanto sujeito que pensa sobre seu cotidiano e que sobretudo dele também padece e usufrui. É comigo enquanto pessoa que os meus leitores se relacionam. Por isso, não quero e não cabe aqui fazer considerações teórico-técnicas.

Mas não sei se pelos ossos do ofício, tenho uma aguda consciência de que há estados de angústia tão dilacerantes,  que tornam difícil ao sujeito vislumbrar outra saída, senão o suicídio. Não julgo os suicidas. Não penso que eles poderiam ter feito isso ou aquilo para sobreviver, tampouco os considero necessariamente desequilibrados, covardes ou egoístas. Quantos homens sábios, brilhantes, sensíveis ao longo da história da humanidade, ficaram sem qualquer outra saída plausível?  Penso que há momentos que a "pulsão de morte" prevalece e isso deve ser de uma incorrigível solidão. Uma solidão sem apelo possível. Uma solidão de angústia extremada que nós, que estamos do outro lado, do lado da "pulsão de vida", não podemos nem de longe avaliar. Então, talvez nos defendendo do suicida que há dentro de cada um de nós, julgamos o outro e o recriminamos por não suportar o insuportável.

A dor da perda de alguém nessas circunstâncias deve ser intolerável. Talvez por isso, numa complicada elaboração de luto, recorramos a responsabilizar o ente perdido pelo "gesto impensado". Será que foi tão impensado assim? Será que não pediu socorro? Será que quando o ente perdido falou em suicídio não desqualificamos a sua fala tomando-a como uma mera chantagem emocional? E a nossa responsabilidade, onde fica?

Penso que antes de julgarmos num "só depois" quem põe fim à própria vida, devemos nos perguntar o que temos feito por aqueles que estão angustiados ou deprimidos. O que temos feito pelos que se desestabilizam emocionalmente. Ao invés de censurarmos aqueles que "optam" por sair da vida, poderíamos nos perguntar o que temos feito em prol da preservação da vida.

 Tenho visto que infelizmente, mesmo nós, os da área psi, fugimos da dor como o diabo foge da cruz e, às vezes, nos permitimos ajudar a um amigo que está deprimido somente se, estando conosco, ele aceitar fazer um "semblant" alegrinho. Quantas pessoas angustiadas e deprimidas fogem mais ainda de contatos sociais temendo serem inoportunas ou indesejáveis na sua tristeza, no seu mutismo ou mesmo no seu sono persistente?

 Sob os mais diferentes pretextos, fugimos dos deprimidos e os rotulamos como pessoas que não querem se ajudar. Numa sociedade globalizada onde prevalecem as especializações, quem quer chegar perto de alguém que está desestabilizado emocionalmente? Costumamos dizer : "Ah, isso é coisa para profissionais, para especialistas". Às vezes, queremos nos distanciar tanto, que sequer reconhecemos como nosso dever recomendarmos a um amigo em sofrimento psíquico, que consulte um especialista.

Às vezes penso, que não há algo sujeito a mais preconceito e discriminação do que o sofrimento psíquico. Preconceito e discriminação sem direito de defesa. Outro dia uma colega numa instituição psicanalítica que frequento, relatou ter visto médicos dizerem de pacientes que padecem de doenças psicossomáticas: "Não é nada não. É só psicológico." Que reducionismo!! Que ignorância!! Tem algo mais estarrecedor do que um psiquiatra, se sentindo molestado no seu sono, ignorar o apelo que o familiar de um paciente em agudo sofrimento, precisa fazer numa madrugada? Tem algo mais estarrecedor nos dias de hoje, que uma mãe internar numa clínica psiquiátrica para lá viver para sempre, seu filho, pacífico, inofensivo, porque foi submetido a um rótulo que o coloca como doente mental, portanto como mal visto nas rodas sociais que ela frequenta?

 Como é comum vermos familiares e amigos de pessoas em sofrimento psíquico usando das mais mirabolantes estratégias de evitação! Numa sociedade onde prevalecem valores como sucesso profissional e produtividade, tornou-se legítimo, adequado e normal recusarmos socorro a alguém próximo em agudo sofrimento psíquico porque temos uma reunião, porque temos que participar de uma defesa de tese ou mesmo porque temos que ir ao teatro.

O "modismo" das chamadas "neurociências" nas suas tendências organicistas, só faz piorar esse estado de coisas. Se o sofrimento psíquico é de natureza orgânica, um mero desarranjo de neurotransmissores, então estamos liberados de nossa responsabilidade social diante daqueles que sofrem. Que vão procurar um médico que lhes prescrevam a medicação adequada e nós podemos dormir nosso sono tranquilo.

A cruel sociedade globalizada onde a singularidade é desqualificada em prol dos ideais de sucesso a qualquer preço, onde estamos todos com pressa para provar que somos competentes e bem remunerados, a ideologia do prazer, da juventude e da beleza física, da felicidade custe o que custar, a quase imposição de estarmos sempre bem e sem dar trabalho ao outro, a proliferação da propaganda na mídia do modelo inalcançável de completude, tudo isso a meu ver conspira contra e ameaça a integridade das almas mais sensíveis, daqueles que se aventuram a fazer escolhas fora dos padrões vigentes e a apostar em causas consideradas socialmente desvantajosas.

Dizendo o que penso, não quero culpabilizar a nenhum de nós que temos ou tivemos pessoas angustiadas, deprimidas ou desestabilizadas emocionalmente no nosso seio familiar ou no nosso círculo de amigos, por ter se omitido. Reconheço que o sujeito que sofre também está implicado no que lhe acontece, e que às vezes não sabemos nem temos o que fazer. Muitas vezes somos confrontados com a impotência. Há um impossível incontornável. Mas temos que lidar com isso sem que precisemos para nos defender, acrescentar mais dor àquele que sofre, fazendo julgamentos cruéis de quem na sua solidão aterrorizada por fantasmas invencíveis, não teve outra saída senão tentar sair de cena.

Meu apoio, minha admiração e solidariedade a familiares, amigos, psiquiatras e psicanalistas que exercem seu esforço incansável, apostam acima de tudo que vale preservar a vida de cada sujeito que sofre, contribuindo pessoal e profissionalmente para que tenha uma qualidade na sua existência que justifique o desejo de nela se manter. Podem triunfar ou fracassar na sua empreitada, sobre isso não podem ter controle. Mas com certeza não tentaram sair de cena.
                                                 Marcia Gomes.