sábado, 18 de outubro de 2014

Cara leitora, caro leitor,

O texto abaixo foi escrito por uma mulher de 61 anos que por ser "muito emotiva" foi "poupada" por sua irmã mais velha e por seu irmão. Viveu o mês de setembro entusiasmada com as eleições e na torcida por Dilma. Viveu o mês de setembro encantada com a chegada da primavera e com a possibilidade de poder amar de novo.  Se planejava com muito amor e  entusiasmo para um encontro com seus colegas de Psicologia 38 anos depois. Se planejava para ir e levar junto um monte de gente à feijoada do Instituto Viva Infância que acontecerá em novembro. Seguia encantada com a psicanálise fazendo seus estudos e exercendo sua clínica muito causada por ocupar o lugar de analista.

 Soube que a sua mãe passava uns dias em Aracaju porque seu filho e nora com quem mora em Maceió, estavam passeando em Paris. Soube que sua mãe tinha um nódulo benigno no seio sem qualquer importância que seria extirpado apenas para não lhe causar desconforto. Foi "poupada". Não entendeu porque se o nódulo era benigno, sua mãe que tem uma saúde gravemente fragilizada por problemas respiratórios  seria submetida a uma cirurgia. Manifestou-se veementemente contra tal procedimento. Estava, com a melhor das intenções por parte de seus irmãos, sendo "poupada".

No dia 30 de setembro, chegando cansada do seu consultório, recebe a visita de seu irmão e sua cunhada que de volta da viagem a Paris vieram a Salvador. Numa conversa que dura menos de 30 minutos toma conhecimento que já há coisa de um mês, pelos resultados da ultrassonografia e da mamografia, foi dito pelos médicos que havia noventa por cento de possibilidade de sua mãe estar com um câncer cuja extensão estava sendo avaliada. A mulher cai em prantos e agradece penhoradamente a seu irmão e a sua cunhada por terem tido finalmente a sensatez de deixarem de "poupá-la".

Dessa noite em que deixou de ser "poupada" abruptamente, essa mulher de 61 anos que vive sozinha em seu apartamento e praticamente não tem familiares em Salvador, passa a viver um pesadelo. O texto abaixo é um depoimento triste, melancólico até, dessa mulher que ainda não conseguiu sair do pesadelo. Está se trabalhando para elaborar a notícia. E toma você como interlocutor para partilhar esta experiência. Toma você como interlocutor, para pela via da escrita, elaborar e circunscrever o real do trauma.

O texto foi escrito na circunstância  em que essa mulher, por não ir ao trabalho nesse dia, passa longas horas de solidão no seu apartamento, tendo a escrita como única salvaguarda para sua intensa angústia. Angústia de uma mulher que teve uma relação ambivalente com sua mãe de quem está distante geograficamente. Uma mãe idosa, com a saúde muito fragilizada, que está deprimida e que por isso não lhe foi dito a gravidade da sua situação, nem lhe foi dito o resultado da biópsia. Uma mãe que a mulher que escreve não sabe por quanto tempo terá, não sabe quanto tempo lhes resta.

Por tudo isso o texto sai como associação livre, sem retoques, mal escrito e perpassado de muita dor. Provavelmente tem muitas inconveniências. Por favor, caro leitor, não se assuste. O escrito reflete um momento. Não me encontro assim todo o tempo. Tenho trabalhado normalmente e tento dar conta das minhas atividades buscando me deixar tomar pela vida necessária que pulsa em mim. Partilho com você esse momento como forma de elaboração.  Ficarei muito grata àqueles que puderem ler partilhando comigo.


19/10/14                                   ESPERANÇA  TRISTONHA

Hoje é quinta-feira. Numa manhã ensolarada  já desperto sob o impacto de medidas a tomar e mensagens a receber relativas ao estado de saúde de minha mãe. Acordei pensando em como notificar Lily, a minha irmã caçula que mora em Rio de Contas, a respeito deste assunto. Acho que ela tem direito de saber e com todas as letras, que o estado de nossa mãe é delicado para que possa elaborar este sofrimento sem subterfúgios e mensagens ambíguas. Fiz o telefonema a Lily.

 Foi difícil, foi penoso, mas ela reagiu com serenidade e me disse que há dias atrás nossa mãe lhe telefonou e lhe disse que vai se submeter a uma cirurgia que talvez resulte numa mastectomia. Isso me deixa um tanto arrasada e perplexa, mas seguro a onda no telefonema a Lily. A minha mãe é uma mulher inteligente e foi casada com médico. Quanto estará  sofrendo sem que tenha espaço para falar e ser ouvida nos seus temores, apreensões e receios?

As opiniões na família quanto a dizer ou não dizer a minha mãe o que ela tem, divergem. Há aqueles que pensam que é melhor esconder por enquanto, esperar que o médico fale, o que, pelo que ela disse a Lily, e pelo que tem perguntado sobre o resultado da biópsia, ela já sabe. Eu não sei o que pensar. No momento da dor e vendo-a tão fragilizada, nenhum saber psicanalítico me socorre. Para o seu bem estar emocional é melhor que não saiba até a hora da cirurgia ou esta condição do não dito, das mensagens veladas, agrava o seu estado emocional? Não sei, não sei.

 Não sem apreensão, tenho respeitado a opinião de meus irmãos que pela proximidade geográfica estão mais à frente do processo de levá-la a médicos, providenciar os exames pré-operatórios e encaminhar a burocracia do plano de saúde. Felizmente há na família um médico oncologista muito afetuoso e competente que já deixou claro que no momento apropriado o paciente deve ser informado do que se passa  para fazer suas escolhas. 

Assim que acabo de falar com Lily, ainda muito mobilizada, recebo um alentador, continente e inesperado telefonema solidário de uma colega que sequer é minha amiga. Convivemos juntas quando eu fui professora na UFBA e na Ruy Barbosa, mas nunca tivemos proximidade. Ficou sabendo da doença de minha mãe na rede internética de comunicação sobre o encontro das turmas de Psicologia que ocorrerá em novembro. O telefonema me comove muito.De repente, de onde menos se espera, aparece uma pessoa sensível, justo na hora em que acabo de conversar com  Lily. Eu queria muito poder ser religiosa num momento desses. Então atribuiria o telefonema dessa moça aos desígnios de Deus.

 Os amigos e colegas de modo geral têm sido muito solidários. Participando da preparação do encontro das turmas de Psicologia que ingressaram na UFBA em 71 e 72, retomei contato com muitos colegas e alguns professores que têm se mostrado sensíveis à minha dor, telefonando e enviando mensagens de apoio. Para mim, que praticamente não tenho familiares em Salvador, é muito, muito mesmo, alentador saber que não estou sozinha, que posso contar.

 Há também aqueles que em momentos como esses preferem, até para não correrem o risco de serem invasivos, fazer de conta que nada sabem, desconversar. Há  os que se escondem nas ocupações e desaparecem sem dar notícia. Há os que fazem comentários e perguntas indiscretas. Há os que dão conselhos, prometem rezas. Há reações de todos os tipos. Porque há pessoas de todos os tipos. Cada um com sua sensibilidade, cada um com mais ou menos aparato para lidar com a dor.

Felizmente entre esses e aqueles há uma Ana Cecília, que assoberbada de tarefas com a preparação do casamento da filha, acha tempo para telefonar a minha mãe e a sensibilizar com a sabedoria da palavra amorosa. Há uma Denise Coutinho que como leitora do "Blá,blá,blá..." não receia partilhar comigo sua própria experiência com a dor de perder um ente querido, e há um Virgílio, que passando por cima de todas as nossas diferenças, escreve um E-mail amoroso partilhando sentimentos.

 Há Rafa, meu filho adotivo, que, mesmo meio desajeitado como são os homens para assuntos de sofrimento, conversou longamente ao telefone com minha mãe com um carinho que me deixou eternamente grata. Ela ficou contente quando soube que ele estaria por aqui. Rafa passou uma semana aqui com Nelly, uma sua amiga colombiana. Jamais poderei esquecer dessa moça, que tendo vindo a Salvador para passear, em nenhum momento se furtou a estar comigo da forma mais solidária, mesmo sacrificando seus programas turísticos. Nelly cozinhou comida colombiana para me agradar, me serviu chá bom para relaxar e me maquiou antes de eu ir para o consultório para levantar meu astral e para que os pacientes não percebessem que eu estava abatida. Isso sem falar uma palavra de Português. Pessoas como Nelly vão para o céu mesmo eu não acreditando que o céu existe.

 Há Gláucia, Letícia, Anamélia, Eglê, Sônia Pata, Ana Helena, Myrian Vallias, Aninha Portela, Eulina (Bolota), alguns colegas da Letra Freudiana e tantos e tantos nomes de gente que sabe que é difícil falar de dor, e apesar da dificuldade, não foge do sofrimento por mera comodidade e se sente tocada pelo desejo de dizer que me quer bem.

 E há a analista que detrás do divã, no secreto das quatro paredes, consegue causar em mim o desejo de me manter de pé e me oferece o dinheiro com que pago a consulta para eu fazer alguma coisa que me relaxe, me dê prazer. Há a analista para quem trabalhar na transferência significa a qualquer preço, me sustentar como um sujeito causado. Há a analista que "compreende" que não devo me forçar a somente fazer tarefas de rotina. Nesses momentos, fazer coisas práticas, particularmente aquelas que envolvem números, fica muito, muito difícil. Há a analista que sentiu a dor de perder uma mãe e com a firme coragem do seu lugar, opera efeitos de com cuidado me permitir me deparar com a dor que é minha.

Há Kécia. Minha amiga Kecinha que assim que soube que minha mãe está gravemente doente, me fez um telefonema de um amor e uma empatia, difíceis de imaginar. A religiosidade de Kécia não me assusta. Pelo contrário, sinto inveja de quem tem essa possibilidade sem querer fazer a cabeça de ninguém. Me faz bem saber que rezará por mim e por minha mãe. Ela é tão sábia e sensível, que me disse que quando tememos ter pouco tempo para usufruir do amor de alguém, em vez de ficarmos negando e escamoteando a realidade, a vontade é poder chorar junto. Kécia se disponibilizou para o que eu precisar e aceitei ir com ela à missa neste domingo. Na missa irei procurar por um senhor que presenteou minha mãe com um azulejo com um texto de Santa Tereza D'ávila. Minha mãe me pediu que encontre esse senhor e que informe a ele que ela tornou-se noviça carmelita. Neste momento movo céus e terra para realizar um desejo de minha mãe.

No domingo passado deixei os leitores do "Blá, blá, blá domingueiro...." na mão. Não escrevi a crônica. Como observou uma amiga muito sensível, foi um domingo sem crônica. Na verdade, me deixei na mão. Passei um fim de semana um tanto deprimida, quase enveredando para uma melancolia. Este fim de semana estou tentando fazer diferente. Como o texto é muito íntimo, não o enviarei a todos os leitores. Para preservá-los, para me preservar e sobretudo para preservar minha mãe. Mas o enviarei às pessoas que me parecem mais sensíveis, que parecem suportar bem um escrito triste. Acho que tenho compromisso com meus leitores e enquanto tiver condições, procurarei honrá-lo. Mas não me peçam pra falar de flores.Não me peçam porque não quero escrever só pra não dizer que não falei de flores. Não quero e não posso falar de flores. Hoje sou de uma esperança tristonha.

Me bateu mal ouvir de uma pessoa que eu devo continuar fazendo as minhas tarefas rotineiras "como se nada estivesse acontecendo". Será que foi assim que ela fez quando perdeu sua mãe? Tenho baixa tolerância para esse nível alienado e patológico de negação. Só não mandei essa senhora à merda porque minha mãe tem uma enorme gratidão a ela. De mais a mais é uma dondoca que nunca se esforçou para ter um melhor nível de informação.

 Sei que me exponho muito partilhando com meus leitores um momento de sofrimento tão pessoal. Alguns me criticarão. Poucos elogiarão a coragem. Alguns silenciarão num ignorar em tom de censura. Sei que é quase consenso que não pega bem a uma psicanalista esse grau de exposição. Mas me reservo o direito de ocupar o lugar de analista dentro do meu consultório. Dentro dele sei o lugar que me cabe e o cumpro com rigor. Aqui quem escreve é a pessoa. E nesse momento faz bem à pessoa escrever. Nem que seja para estar melhor aparelhada para às 19:00h, depois da sua missa na televisão, dizer algo que faça bem à minha mãe.

Agradeço à vida a oportunidade de estar vivendo um momento de sintonia com minha mãe. Um momento em que converso com ela com entusiasmo, sobre o fato de ontem ter sido o dia de Santa Tereza D'ávila. Sua vozinha está muito frágil, com cinco minutos de conversa pede para descansar.Procuro oferecer a ela uma escuta para que se sinta à vontade para partilhar seus medos, receios e apreensões.

 Temo que por um mecanismo involuntário de negação as pessoas que a cercam evitem escutar, minimizem ignorando seu sofrimento, deixando-a muito só do ponto de vista do apoio psicológico, mesmo que se desvelem em outros cuidados com ela como administrar remédios e levá-la para fazer exames. Não podemos exigir de todos que tenham conhecimento e habilidade para escutar o sofrimento. Sei que tenho essa habilidade e gostaria de estar mais perto para exercê-la mais continuamente junto a minha mãe.

 Acho que meus leitores sabem que minha mãe é uma católica muito devota e que há poucos anos atrás ordenou-se noviça carmelita. Então converso com ela sobre o dia de Santa Teresa D'ávila. Não sem dificuldade, leio a Bíblia e comento com ela. Sinto que a religião é o que a mantém ainda conectada ao mundo ao redor e então converso sobre religião, lembro que Deus está segurando sua mão. Quando desligo o telefone estou exausta e aos prantos. Que Deus, meu Deus, que permite que uma senhora de 81 anos que já sofreu horrores na vida, passe pelo que ela está passando, sem que saibamos quanto de mais sofrimento a vida lhe reserva nos dias vindouros? Que Deus, meu Deus?

Se não tem Deus, agradeço à vida poder dar a minha mãe a alegria de saber que finalmente me converti, coisa que era o seu maior desejo. Ela, ao ouvir isso, esboça um quase sorriso. Não sinto culpa, remorso e muito menos me sinto pecando se escolho dizer a ela essas certas inverdades. De certa forma me converti. Hoje o que me move é poder proporcionar a ela momentos de alento, de alívio. Disse-lhe hoje que estou com muitas saudades e que na hora que ela quiser pego o avião e corro para abraçá-la. E aí ela me pergunta brincando se estou nadando em dinheiro para poder abandonar meus pacientes a qualquer hora, pelo tempo que for necessário. Eu respondo brincando que ganhei na Mega- Sena.

 Mas para meu desamparo ela em seguida me pede que não vá por agora vê-la em Maceió, porque isso atrapalharia a vida do meu irmão.Diz que prefere que eu vá na ocasião da cirurgia. Pra mim a prioridade é fazer a vontade dela. Mas isso me condena a um calvário sem fim. Ficar acompanhando os acontecimentos por telefone, à distância. Ruídos na comunicação, mal entendidos no relacionamento familiar, o medo, o terrível medo de ela não resistir a tempo de eu poder me despedir. A vontade de poder estar junto, cuidar. Acho que só quem cuidou de um ente querido gravemente enfermo, sabe o quão desamparante é ficar à distância. Beira o insuportável.

Com tudo isso, agradeço à vida pela irmã mais velha que tenho. Tão amorosa e tão empenhada quanto eu em proporcionar à nossa mãe momentos de alento. Sandra, que sempre foi muito maternal comigo, me telefona todo dia para saber como estou aguentando o tranco. Também, de modo diferente, porque ele é mais contido e chegado a uma negação, agradeço à vida estar podendo ter uma interlocução afetuosa com meu irmão. Tudo deve estar sendo muito difícil para ele e minha cunhada com quem mora minha mãe.

 Agradeço muito a eles por esses anos que vêm cuidando dela.  Meu irmão é seu filho preferido. Sempre foi o xodó de minha mãe que muito dele se orgulha. Lula é meio fechado, muito voltado para sua família nuclear e pouco partilha com suas irmãs as decisões que toma em relação a Dona Myriam Urpia, nossa mãe. Praticamente não nos telefona, mesmo depois que minha mãe ficou mais dependente e tendo muitos lapsos de memória. Se queríamos ter notícias suas, tínhamos que buscá-las com ela própria.

 Em relação a nós, as irmãs mulheres, Lula tem uma situação financeira privilegiada. É engenheiro da Petrobrás aposentado e felizmente pode proporcionar a ela uma moradia muito confortável com um jardim muito bonito. Este ano me reaproximei muito do meu irmão mas creio que preferia ser mais solicitada a participar do que diz respeito à nossa mãe. Às vezes sinto como se minhas opiniões não importassem, nada tivessem a contribuir. Não importa. Sou imensamente grata a ele e à minha cunhada que parece ser mais comunicativa e cuida com desvelo de Dona Myriam.

Hoje, quinta-feira, dia em que não trabalho, fico nesse longo lapso de dor. Tinha um grupo de estudos de Lacan, mas na última hora a colega desmarcou. A amiga, muito amiga mas que morre de medo de assuntos de doença, me liga num telefonema meio desajeitado e sequer se dá conta que havia me prometido sair comigo hoje à noite. Simplesmente se despede ao telefone e sequer menciona o que havia combinado.Eu, compreensiva, respeito o lapso.

 Ontem fui ao seminário da Letra Freudiana e me senti bem. Consegui acompanhar a discussão e opinar sobre o tema de trabalho do próximo ano. Infelizmente tive que interromper meu curso de psicanálise e literatura. Tenho que conter gastos ao máximo. Não sei o que me reservam os dias futuros, não sei por quanto tempo poderei precisar me ausentar do consultório para assistir minha mãe. Também me faz bem atender aos pacientes. A gente relativiza o próprio umbigo. O compromisso com o rigor quebra, dá um corte na tendência ao sentimentalismo. 

Na minha estante passo de relance o olhar no dorso do livro "O Lado Fatal". Depoimento corajoso de Lia Luft quando perdeu Hélio Pellegrino. Se não me engano, Lia Luft deixou um casamento e mudou de cidade para viver sua paixão por Hélio Pellegrino e o perdeu 2 anos depois. Como a compreendo!! Precisou escrever e escrever para elaborar seu luto. O que mais me dói e me deixa tão vulnerável é ter ganhado uma nova mãe com pânico de não ter tempo para usufruí-la. Pelo menos na minha leitura, a mãe que eu tive até mais ou menos 10 anos atrás, era controladora, autoritária, de difícil manejo. Nos atritávamos muito. Com o passar do tempo eu fui ficando mais terna e tolerante. Com o passar do tempo a fui sentindo mais vulnerável e doce. Fiz um longo trabalho de análise para ressignificar minha relação com minha mãe. Trabalho penoso como deixar um casamento e mudar de cidade como fez Lia Luft.  

 Quando minha mãe mudou-se de Aracaju, onde mandava e desmandava na sua própria casa, e passou a viver sob os cuidados muito amorosos de meu irmão e minha cunhada, perdeu muito da sua autonomia, afastou-se da paróquia onde tinha uma rede de amigos, passou a ter uma vida social mais restrita. Sua saúde com os problemas respiratórios foi se debilitando a ponto de não poder mais ir à igreja assistir missa. Como meu irmão e minha cunhada são espíritas, minha mãe ficou em casa sem uma interlocução para seus interesses religiosos.

 Como eu queria ter ainda hoje aquela mãe com quem eu me atritava! Não teria esse rasgo cavado fundo de ternura me devassando as vísceras. Será? Me sinto sem chão, sem eira nem beira, ouvindo a sua vozinha frágil como um passarinho desamparado. Será que esse passarinho desamparado sempre esteve ali e eu é que não via? Quanto tempo perdemos sem nos reconhecermos! E agora que posso protegê-la como a um passarinho desamparado, agora que posso lhe dar meu colo, meu amparo, meu esteio, me deparo com essa distância geográfica. Será que justo agora, ela resolve partir me deixando sentir como um abraço inutilizado, como um afago que chegou fora de hora? Não é justo!!!

 Os psicanalistas que me leem, se não são afeitos à ternura e à comoção, e se não são bons psicanalistas, devem estar lendo este texto pensando em "Luto e Melancolia" e fazendo interpretosas à vontade.Pois que façam.Eu, nesse momento, dispenso interpretosas. Tenho a minha analista e já recorri a ela que, rigorosa, ética, foge dos clichês livrescos como o diabo foge da cruz.

Quero mais é acolher o carinho dos meus irmãos, dos meus  familiares, leitores e amigos. Quero me fortalecer para me sentir um abraço útil e um afago que ainda está na hora. Quero não perder a esperança de que a minha mãe sobreviva a esta cirurgia e que possa sorrir esse seu atual sorriso de docilidade quando disser que Quitéria, a sua empregada, é a cara de Marina, a ex-candidata a presidenta. Ela não gosta de Marina porque ouviu dizer que é evangélica. Perguntei a ela hoje se Marina derrotada no primeiro turno resolveu assumir o papel de cozinheira. Ela, ainda que timidamente, sorri da minha brincadeira.

 Numa tarde solitária de quinta-feira, escrevo a meus leitores um depoimento mal escrito. Como escrever bem em meio a tanta angústia? Não consigo escrever bem e o texto parece piegas. E ao fazê-lo me desmancho em lágrimas. A necessária catarse. Choro também de gratidão à vida, por estar sempre a nos surpreender com o inesperado.De tentar acreditar que desta experiência sairei uma pessoa melhor. De tentar acreditar que estou aprendendo e crescendo. De tentar acreditar que vou suportar.

 Numa tarde de quinta-feira solitária, sem ter santo a quem apelar, quero fantasiar que a minha mãe acorda da cirurgia revigorada e me dá um carão bem autoritário por eu não ter senso prático e não saber fazer cálculos. Mas eu toco a sua testa com suavidade e lhe digo: "Mama, minha mama querida!" e aí ela vira a mãe com ar de passarinho desamparado e invertendo os papéis a alimento como faz a mãe a seu filhote. Aí eu integro as duas mães e fico com ambas para a eternidade.

Hoje já é sábado de manhã. Escutar meus pacientes ontem me fez um bem enorme. Durante o café me inteirei com a minha auxiliar doméstica do andamento das pesquisas sobre o segundo turno das eleições. Fiquei preocupada com a de não todo afastada perspectiva da direita representada por Aécio ocupar o poder. Mas na verdade meu investimento de energia para esse tipo de assunto é muito pequeno agora. Acordo e fico aguardando que dê a hora de ligar para minha mãe. Enquanto aguardava, liguei para Lily, minha irmã caçula, para saber como ela está depois da notícia que lhe dei. Infelizmente não consigo falar. 

A conversa com minha mãe me deixa extremamente triste. Tenho o cuidado de disfarçar para lhe dar forças e isso me machuca. Tenho um lampejo de ânimo quando a escuto dizer que assistiu ontem na televisão um programa sobre a Chapada Diamantina. Manifesto interesse, faço perguntas. Ela pede para interromper o telefonema porque está muito cansada. Passou a noite inteira com falta de ar. Me disse que não telefona a ninguém porque não tem boas notícias para dar. Queiram ou não minha mãe parece saber o que se passa com ela. Está cansada. Sua voz está por um fio. Consternada, lembro que o livro "As Palmeiras Bravas" de Falkner termina com a seguinte frase: "Prefiro a dor, ao nada". Consternada, lembro do livro de Simone de Bauvoir intitulado "A Cerimônia do Adeus". O sal da lágrima marca a pele do meu rosto. Resolvo deixar meus leitores descansar. Minha mãe pede descanso. Comigo o sal da lágrima.
                                                                        Marcia Gomes. 

domingo, 5 de outubro de 2014

05/10/14                                              MAMA.

Não sei com que fôlego, escrevo. Numa tarde de sábado que levou para bem longe meus anseios de primavera, ouvindo no meu predileto canal Arte 1 uma sonata muito triste ao piano. Definitivamente hoje não há primavera em Salvador e chove. E venta impiedosamente no Morro do Gato. O fôlego vem do fato de ela ter tido fôlego de me telefonar de lá de Maceió, onde mora. Quantos e quantos quilômetros nos separam neste momento de dor? Não vejo a hora de ouvir ao vivo a sua vozinha sem fôlego. A asma a maltrata. Seu aparelho respiratório oscila como uma folha outonal ao vento. E sem qualquer razão, ao vento se desfaz em pequenos pedaços.

Me telefonou com sua vozinha de nada e até esboçou um sorriso. Disse que sua amiga de igreja de Aracaju lhe recomendou uma pomada milagrosa que aliviou a forte dor no braço. Dor no braço do lado em que foi feita a biópsia. Palavra sardônica. Palavra cruel. Palavra que não poupa quem está perto e poupa menos ainda quem está longe. Quem está longe e a quem nada mais resta senão se identificar sentindo uma forte dor no braço. Uma forte dor no braço que recusa interpretações. Hoje não quero saber de Freud ou Lacan. Dor de amor e forte no braço. Com sua vozinha de nada também conseguiu me dizer que está contente porque Rafael, meu filho adotivo, chega amanhã.

Contendo o choro e encenando uma boa inflexão de voz digo à Mama que colocarei Rafael ao telefone amanhã para falar com ela. Mama agradece. Mama é o modo carinhoso com que trato minha mãe, desde que a descobri diversa da mãe que eu pensava ter. Faz tempo isso. Faz, felizmente, muito tempo que a descobri diversa. Faz muito tempo que a redescobri. A mãe da minha adolescência e juventude que eu me permitia ter, jamais se queixaria de uma dor no braço. Talvez porque eu só pudesse enxergar a minha própria dor. Talvez porque ela estava tão ocupada em nos fazer sobreviver em meio a um deserto prenhe só de ausências, que ficavam confundidos amar e cuidar. Amar e prover. Era uma mãe de estranhamentos e um certo temor de minha parte.

De repente me vi uma mulher na maturidade e sem protestos juvenis ou julgamentos intelectualóides, me vi uma mulher com coragem de admirar e se enternecer com a sua forte religiosidade. Foi esse o caminho que escolheu para responder às indagações do por quê passou tantas privações na vida, teve um casamento infeliz, trabalhou duro na vida vendendo livro de porta em porta antes de se tornar uma escrivã competente e reconhecida, ficou viúva aos 40 anos, padeceu de sérios problemas respiratórios e na velhice ainda teve que ajudar financeiramente aos filhos. Admiro e tenho orgulho dos seus 40 cadernos manuscritos e muito bem redigidos com reflexões bíblicas. Admiro como na igreja se dedicou a causas sociais e fez uma imensidão de amigos que a respeitam tomando-a como referência. Há alguns anos atrás, fui assistir à sua ordenação como noviça carmelita e me senti pacificada com seu júbilo à moda de Santa Tereza D'ávila.

Quando a visitei em junho deste ano por ocasião de nossos aniversários, me disponibilizei a assistir à missa com ela diariamente na televisão. Desde o ano passado ela já não tinha condições de sair. Então assistíamos na televisão, religiosamente. Não há modo melhor de dizer que a amo. Há poucos anos atrás me confidenciou que seu maior pecado foi não ter nos dado a devida educação religiosa e nos ter deixado à mercê do ateísmo de nosso pai. Quando de uns tempos para cá a percebi perdendo forças, com a saúde fragilizada e sofrida por precisar ser cuidada, passei com regularidade a ler trechos da Bíblia para conversar com ela.

Foi um privilégio para mim poder fazer as pazes com essa mãe que tenho, e poder dispensar a ela meu amor e meu cuidado do modo que ela necessita, compreende e agradece. Chove torrencialmente lá fora. Tenho a alma úmida e meu braço dói, bem do lado em que ela fez a biópsia. Palavra sardônica. Palavra cruel. Como encontro fôlego para escrever e não deixar os leitores na mão? Urge não deixar os leitores na mão. Não sei o que será no próximo domingo. Não sei, mas talvez precise deixar os leitores na mão. Preciso fazer esforço para não me deixar na mão. Partilho com os amigos a minha dor. Recebo muita solidariedade.

 Me machuca muito constatar que não podemos fugir às contingências e que a vida da gente muda radicalmente de significado a uma frase dita, uma sentença proferida. E essa distância geográfica, como me tortura!! Não vejo a hora de estar ao lado de minha mãe. Amanheço e anoiteço pensando nas horas do dia em que posso falar com ela. Cada minuto, cada segundo conta não sei em que direção. Estou diante do imponderável. Essa semana que entra será decisiva quanto a saber por quanto tempo poderei ouvir a sua vozinha sem fôlego. Está difícil trabalhar. É uma corrida contra o tempo.

 Penso todo o tempo no que posso lhe proporcionar de melhor. E quase nada posso. Penso no que se passa com ela, em como ela está, enquanto escrevo. Penso se devo estar escrevendo assim aos meus leitores. Ficarão sabendo que a saúde da minha mama está por um fio. Isso me constrange. Não  estarei devassando a sua privacidade confessando aos leitores o que não posso confessar a ela própria? E se vierem manifestações de solidariedade, será que quero recebê-las? Os  meus leitores costumam me escrever e eu respondo. Será que vou querer responder desta vez?

Mama. Palavra. Qual a sua extensão? Da sua extensão depende o tempo em que terei minha mãe comigo. Não quero dizer mais nada. Não quero escrever mais nada. Peço licença aos leitores para me retirar. Peço licença para chorar e para pedir ao Deus que ela acredita tanto, que não a deixe sofrer. Ainda que para isso tenha que me deixar só. Só dessa solidão que não tem escrita que dê jeito.
                                                                            Marcia Gomes. 

sábado, 27 de setembro de 2014

28/09/14                                  CAPRICHO  À  ITALIANA

O encontro das turmas de Psicologia que ingressaram na Ufba em 71 e 72 vai ganhando corpo de acontecimento memorável. Como pré-aquecimento do evento que ocorrerá em 1 de novembro, muita troca de E-mails no grupo que participará. Num primeiro momento foram mensagens um tanto mais formalizadas, tentando dar conta da organização do festejo. A busca por localizar o maior número de colegas e professores, votação para escolher onde vai ser o evento , o que será servido, como efetuar o pagamento da despesa, etc. Muito trabalho e um esforço muito dedicado para que as decisões sejam coletivas, tentando agradar a gostos de gregos e troianos.

Não me recordo bem como começou, talvez com a brincadeira de uma colega perguntando como nos reconheceríamos no momento da festa, já que somos no mínimo sessentões, muitos que não se encontram há 38 anos. O fato é que começou a circular na internet uma troca de figurinhas muito informal que vai dando conta do quão seletiva é a memória, e de que o que representou muito para um, sequer é recordado pelo outro. Assim, juntando fragmentos vai se montando um lindo caleidoscópio de recordações, que muda de configuração a cada vez que cada um lhe dá um giro.

Vários foram enviando fotos atuais, dizendo quem são, o que fizeram nesses 38 anos e o que andam fazendo. Alguns já usufruem do gostoso convívio com os netos, outros passaram por importantes mudanças profissionais, conta-se sobre perdas, ganhos, fazem-se confidências.  Na foto de cada um, as marcas deixadas pelo tempo vão sulcando uma certa doce sabedoria no olhar e no sorriso.  O cabelo, às vezes numa nova conformação, qual moldura vai contornando cada rosto  que parece dizer nas entrelinhas o muito do que se aprendeu nesses quase quarenta anos. Sem dúvida nos tornamos mais bonitos, de uma beleza generosa e compassiva.

Uma colega muito cooperativa e empenhada na realização do encontro, cria no Facebook uma página do grupo que se formou em 76. Lá estão fotos da nossa formatura, fotos nossas já sessentões, fotos da  Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) sediada na antiga Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus, fotos da FFCH sediada no antigo casarão próximo à Igrejinha de São Lázaro, foto com relato sobre vida e obra da querida e saudosa Professora Mercedes Cunha, incansável defensora dos direitos humanos, e entusiasta lutadora contra a ditadura. Como é usual no Facebook, cada um vai colocando comentários ao que está postado, deixando marcas da singularidade de suas impressões.

E haja singularidade!! Para uns, a memória de quando estávamos no Terreiro de Jesus é mais vívida. Parece que lá ficamos de 72 a 74. Para outros, as recordações tomam mais corpo depois que fizemos a mudança para São Lázaro. Uma colega também muito empenhada na realização do encontro, enviou por E-mail fotos de como está São Lázaro atualmente. Isso desencadeou uma bonita hora da saudade inclusive com lindos poemas da querida amiga Ana Cecília. Os poemas de Ana nos fizeram lembrar do ano em que em razão de uma greve, a polícia repressiva ocupou a universidade e não podíamos nos agrupar em mais de 3.

 A propósito disso, lembramos de uma assembléia na Escola de Engenharia em que, enfrentando a repressão, num gesto heróico e corajoso o então presidente do DCE (Diretório Central dos Estudantes) discursou dizendo estar disposto a deixar derramar seu sangue na defesa dos companheiros. Tempos duros, tempos difíceis, tempos de uma beleza ímpar pela corajosa esperança que animava nossos corações de jovens entusiastas com um futuro promissor sem militares prendendo, torturando, assassinando pessoas por defenderem o ideal de uma sociedade mais justa e igualitária nos direitos.

Não é na memória de todos que os cruéis anos da ditadura ganham destaque de figura. Para alguns, foram mais fundo. E na troca de E-mails fala-se também de episódios do cotidiano, lembranças marcantes no convívio desse ou daquele grupo, imagens, impressões sobre o espaço que compartilhávamos, corredores, janelas, anfiteatros, percepções sobre o que ocorria nas ruas próximas de onde assistíamos aulas, características desse ou daquele professor, enfim uma colcha de retalhos de cenas, costurada com a candura própria ao olhar de jovens entre 18 e vinte e poucos anos. Tínhamos alguns colegas mais velhos que a maioria de nós, mas por certo acalentados pelo mesmo viço juvenil de nossos ideais. 

Muito me comoveu o relato sempre de escrita impecável de Ana Cecília (ela é poeta com livros publicados e ganhou o prêmio BRASKEM de poesia. Endereço do blog de Ana Cecília:  casulotemporario.blogspot.com.br) contando que nossa aproximação se deu por sermos as únicas na turma a usar calças de marca TOPEKA. Não tínhamos dinheiro para comprar calças de marca melhor. Eu, naquela época, morava no Conjunto Residencial Santa Madalena, uns apartamentos desconfortáveis e minúsculos na Vasco da Gama.  Ana era filha de uma família numerosa (9 filhos) recém chegada do Crato, no Ceará. Pobres e apaixonadas por poesia, nossa amizade se consolidou com  trocas a respeito de Drummond.

 Tem se falado até em escrever um livro com tantas histórias que estão sendo contadas. Gomersinda, uma colega, escreveu uma crônica de verdadeiro valor literário sobre a sua experiência na FFCH do Terreiro de Jesus. Linda crônica!! E que memória sensível a de Gomersinda!! Bolota (Eulina) também escreve bonito. E que pitorescos e bem humorados os relatos da colega Judith! Talvez nem valha a pena ficar citando nomes, tão belas que são todas as contribuições. Eu mesma já escrevi, não sei se belas, duas crônicas domingueiras sobre o assunto. Uma, "Reencontro", dizendo do significado que o encontro tem pra mim. Outra, "O Cisne Vivo", uma homenagem ao colega Caria que foi meu primeiro amor e que infelizmente não está mais entre nós.

 Uma correspondência muito enternecedora se estabeleceu entre as pessoas do grupo que vêm mostrando que quando  vivemos de modo tocante  e intenso, a experiência pode se tornar uma peça literária. De modo que estamos nos revelando todos, escritores potenciais. Trinta e oito anos depois, quem suspeitaria que as recordações dos tempos da Faculdade estariam tão vivas e frescas nas nossas memórias? Sem dúvida estamos atestando que os anos da juventude tão cheios de inquietações e dúvidas existenciais são de beleza rara e importantes na nossa constituição como sujeitos.

 Parece que para mim, embora eu não tivesse uma posição de destaque nem fizesse parte dos quadros do movimento estudantil (ME), as lembranças são muito perpassadas pelo histórico do processo de luta contra a ditadura e pelo como isso imprimia marcas à nossa vida de estudantes.

De quando o curso de Psicologia se alojava na antiga Faculdade de Medicina no Terreiro de Jesus, algumas recordações são marcantes para mim. Aquele prédio, na sua beleza arquitetônica, me impressionava muito. Também porque ali estudou meu pai que se formou em medicina. No jardim onde havia dois patinhos, eu e Ana Cecília jogávamos conversa fora sobre a antipsiquiatria de Laing sob o olhar um tanto cético e irônico de Ana Helena e Virgílio que sempre foram mais objetivos e não curtiam muito essas viagens de malucos.

 Lembro muito da minha experiência com esse grupo de amigos como monitores das Professoras Eglê e Anamélia, na época, duas entusiastas do pensamento behaviorista. Recordo com satisfação e alegria como nos sentíamos crescer intelectualmente com tudo aquilo que aprendíamos com elas. Fizemos um trabalho de modificação de comportamento numa escola pública do Pelourinho cujas crianças eram na sua maioria filhos de prostitutas. Entrar em contato com aquela realidade nos enchia de sonhos de nos tornarmos psicólogos atuando em trabalhos socialmente relevantes.

 Lembro também, logo no primeiro ano, das aulas com a Professora Alda Mota, com sua sociologia engajada que muito me encantava e a quem sou muito grata. A convite de Alda Mota participei de uma pesquisa sobre o imaginário das empregadas domésticas em Salvador. Meu trabalho como pesquisadora era representar o papel de empregada num curso de arte culinária na Paróquia da Vitória. Eu me vestia, falava, e gesticulava como empregada doméstica e ia com as minhas amigas olhar as lojas da Baixa de Sapateiros, antes de voltar para a casa de "minha patroa". Assim igualada a minhas colegas de curso, eu podia conversar com elas sobre suas crenças, valores, ideologias, estilos de ver e estar no mundo. Foi uma experiência muito rica.

Do Terreiro de Jesus lembro muito do dono da cantina da faculdade, de apelido "Bahia", por ser um fanático torcedor do time. A cantina de Bahia ficava na passagem das salas de aula para a sala do Diretório Acadêmico. Como eu e meu grupo de amigos vivíamos enfiados no diretório, toda hora era hora de um dedo de prosa com Bahia, uma figura muito particular, que cheio de segredos por medo da repressão, apoiava as causas estudantis.

 Lembro de algumas assembléias ocorridas no prédio da antiga Faculdade de Medicina e de quão gratificante era colaborar na redação do jornalzinho intitulado "Reflexo". Se não me engano o nosso colega Acácio que saiu para a clandestinidade participava daquelas sessões de redação onde conversávamos muito e trocávamos confidências. Confidências sempre perpassadas por alguma cautela quanto a o que revelar, evitando transgredir as normas de segurança. A poesia "engajada" sempre se fazia presente e eu conversava muito com as colegas poetas.

De resto, a memória focaliza as nossas frequentes idas à sede do Diretório Acadêmico, inicialmente dirigido por Sônia Sampaio (Sônia Pata) e em seguida por nosso colega de turma Virgílio. Para frequentarmos o Dapsi não nos acanhávamos de "filar" as aulas que nos pareciam irrelevantes. O mais relevante para nós era a transformação social. Por experiências políticas muito precoces e não muito bem sucedidas na adolescência, de meu grupo de amigos na militância estudantil talvez fosse eu a que se mantivesse mais "a reboque". Isso quer dizer que eu tinha posições de "massa avançada" mas sem me sentir tentada a assumir cargos de direção.

 Mas ainda assim participava de reuniões de leitura e discussão de textos sobre o materialismo dialético e a revolução socialista. Na sede do Diretório Acadêmico, além de participarmos de reuniões, ouvíamos música popular brasileira, líamos poesia, promovíamos atividades culturais e conversávamos com colegas com mais experiência política sobre nossos dilemas existenciais e os riscos dos desvios pequeno burgueses.

Da passagem do prédio do Terreiro de Jesus para o prédio em São Lázaro em 1974 a memória não é tão nítida. Perdi meu pai com apenas 45 anos em janeiro daquele ano e passava por um doloroso processo de luto. Mas recordo que o Diretório ficava na mesma área da cantina de "Seu" Farias e Dona Dalva, pessoas adoráveis. Lá costumávamos almoçar com grana muito curta. Recordo também da importância que teve a Comissão de Finanças no trabalho do DCE , do Jornal "Viração" e da luta pela compra de um mimeógrafo, se não me engano.

 Lembro que a repressão pegou pesado com alguns representantes estudantis que eram meus amigos quando eu os ajudei a se resguardarem na casa de colegas, uma das quais morava no Morro Ipiranga vizinha à casa do reitor da Ufba. Fui até o Morro Ipiranga levar mantimentos à colega que lá recebia guarida e por engano toquei a campainha na casa do reitor. Naquele tempo o reitor tinha uma função totalmente diferente do que tem hoje, obviamente não era eleito diretamente e era cúmplice da repressão. Devo ter dado uma desculpa muito bem dada quando me dei conta que tocara na casa errada. O que sei é que entreguei os mantimentos à minha amiga sem que nada de prejudicial lhe acontecesse.

Quando vejo colegas do grupo na conversa coletiva por E-mail, recordando vivamente das características desse ou daquele professor, de travessuras que aprontavam, das ternuras inocentes que trocavam nos tempos da faculdade, dou-me conta que eu e meu grupo de amigos vivíamos, uma boa parte do tempo, em outro diapasão. Éramos muito estudiosos mas estávamos mais tomados pelo ideal de fazer a revolução, não nos sobrando muito tempo e energia para além de estudar desfrutar das pequenas alegrias que animavam os colegas e de nos relacionarmos mais ingenuamente com eles.

 Ainda assim, lembro de uma professora de estatística chamada Ivone a quem sou muito grata. Ivone sabia que eu sofria de discalculia. De modo que nas provas eu resolvia com o raciocínio correto todos os quesitos, mas na hora dos cálculos eu precisava "pescar" de uma amiga muito boa em matemática.  Ivone, generosa, fazia de conta que não estava vendo eu "pescar". Só assim eu podia ser aprovada com boas notas.

Não tenho como esquecer a deslumbrante vista do mar de São Lázaro. De lá, víamos o por do sol. Gostava de assistir com interesse aos rituais festivos às segundas-feiras em celebração a Omolu que aconteciam na Igrejinha, bem próxima da faculdade. Lembro também com muita ternura das nossas sessões de estudo noturnas quando tínhamos que entregar trabalhos em cima da hora, particularmente a professores de vertente mais psicanalítca aos quais não dávamos nenhum cartaz e de cujas aulas às vezes escapávamos para fazer trabalho político como passar nas salas de aula para dar avisos, convocar para reuniões, etc.

Às vezes penso que não só o trabalho político assumiu o lugar de figura na minha vida dos tempos de faculdade. Na verdade por dois anos cursei paralelamente Psicologia na Ufba e Letras na Católica. Nesse período eu era quase noiva de um rapaz lindo, estudante de arquitetura. Mas Dona Marcia de vez em quando apronta das suas. Quase noiva e fui me apaixonar perdidamente por um professor da Católica, muito mais velho que eu. Ele, provavelmente encantado com a boa aluna, eu provavelmente dando vasão a meu Édipo mal resolvido.

 O fato é que nos envolvemos e enquanto meus colegas de Psicologia usufruíam inocentes do seu saudável convívio com os amigos e professores, eu passava grande parte do meu tempo pensando no professor da Católica e amargando uma culpa intolerável em relação a meu quase noivo.Eu visitava o professor na sua casa e ouvíamos uma música chamada "Capricho Italiano".

 Ele era muito politizado, progressista e culto. Rolava muito papo filosófico. Conversávamos muito sobre literatura e ele caia de encantos pelo fato de eu alfabetizar duas crianças filhos da baiana do acarajé, enquanto aguardava o início da aula no período noturno da Católica, cujo prédio ficava no Largo da Palma.Apesar do encantamento mútuo, éramos corretos. Eu, sendo quase noiva, entre nós nada acontecia a não ser uma carícia "inocente" na mão,  olhares e conversas.


 No dia que finalmente nos declaramos um para o outro, resolvemos que o mais honesto era eu romper com meu quase noivo. Saindo da casa do professor, assim o fiz. No dia seguinte, passando dentro de um táxi, avisto meu ex- quase noivo na Ladeira da Barra, chorando aos prantos no ombro do meu irmão. Condoída, desço do táxi e vou consolá-lo.

 A partir daí saio à francesa (ou à italiana?) da vida do professor, nunca mais aparecendo na Católica.  Passei o resto do curso de Psicologia morta de saudades pensando nele que, obviamente, não me procurou mais. Perdi meu curso de Letras, perdi talvez um grande amor e não me casei com meu lindo quase noivo. Fui me apaixonar em novas plagas.

 Mais de 40 anos depois, quando às vezes recordo desta experiência, só me resta sorrir com uma certa complacência da tamanha inabilidade de uma jovem em torno de 19 anos, para lidar com as tortuosas e complexas vias do amor . Confundir compaixão e amor, fugir do próprio desejo a ponto de sumir da vida do professor sem sequer dar uma satisfação, convenhamos!! Haja inabilidade!!

 Será que na idade adulta conseguimos estar melhor aparelhados para manejar essas questões? Ou apaixonados, em qualquer idade, ficamos acometidos de uma certa crise de regressão à adolescência? Pelo que a gente escuta no consultório, parece que em qualquer idade somos seres de linguagem sujeitos às contingências do amor com seus imprevisíveis encontros e desencontros. Capricho à italiana? De que nacionalidade são os caprichos do coração? Fico às vezes desconfiada que o coração é apátrida, "terra em que ninguém passeia", como diz o sábio dito popular. Só nos resta viver nesta errância. E usufruir, porque ninguém é de ferro.
                                                                                                 Marcia Gomes.

domingo, 21 de setembro de 2014

21/09/14                               VOTAR  PRA  NÃO  VOLTAR.

Tenho ficado atenta às datas. Não sei bem o por quê. Também não sei se esse "por quê" substantivo é junto ou separado. Lapsos. Lapsos porque o inconsciente parece existir e ninguém é de ferro. Lapsos que me deixam sem saber se a primavera chega amanhã, dia 21, ou se há um decreto muito antigo postergando em dois dias a data de sua chegada. Não importa. O azul do céu é definitivamente um azul que se espraia sem quaisquer ameaças de cinza.

Penso em N., a auxiliar doméstica que perdi porque só queria trabalhar como diarista sem assinar a carteira. Como preciso de alguém que venha todos os dias e N. não se sensibilizou com meus insistentes apelos para que aceitasse ter carteira assinada e direitos trabalhistas assegurados, o jeito foi despedi-la. Fiquei com o coração amargurado. Temos um vínculo afetivo muito forte e sou uma manteiga derretida para as perdas do afeto. Esta semana ela já veio me visitar e o papo rolou muito gostoso, como sempre foi.  Não quer assinar a carteira mas veio demarcar território em relação a minha nova auxiliar doméstica e fez cara de desaforo pra ela. N. é uma figura!! Totalmente diferente de mim, é muito espaçosa e não leva desaforo pra casa. Totalmente diferente de mim, N. é despachada.

Mas tanto quanto eu, N. é cheia das controvérsias e não tenho muita aparelhagem para entender como lida com as contradições inerentes à sua condição sócio-econômica desprivilegiada. Sempre foi difícil pra mim entender como uma pessoa assim prefere votar em políticos como ACM  Neto, dizendo que o seu avô roubava mas fazia. Usei todo o meu verbo e não consegui convencê-la de que a novo regime do atual governo  beneficia as empregadas domésticas e que ela deveria lutar por seus direitos. Para N. uma carteira assinada é uma mácula. Quando eu a convidei para meu aniversário de 60 anos no ano passado, ela só aceitou comparecer sob a garantia de que na festa haveria outras pessoas negras. Do contrário, podiam pensar que ela era uma assaltante. Assim me disse.

Sempre tratei N. com muito carinho e quando eu ia ao shopping, às vezes a convidava para ir a passeio comigo. O que ela me respondia?  "Vou com a senhora porque a senhora já tem uma certa idade e não deve andar desacompanhada. Mas shopping center não é lugar de empregada doméstica". Se eu entrava em alguma loja, ela preferia ficar me aguardando do lado de fora para não ser tomada como uma assaltante.

 Tanto comentou  sobre a propaganda na televisão anunciando a beleza que ficou a reforma da Ceasinha do Rio Vermelho, que eu, toda animada, a convidei para irmos lá visitar o mercado e comer no Boteco do Edinho uma daquelas comidas que N. gosta. Marcamos o dia e o horário e ela confirmou presença. Resultado: fiquei como uma boba esperando.  N. não apareceu e depois alegou ter esquecido o compromisso. Tenho cá com meus botões a impressão de que ela ficou constrangida de aparecer num restaurante comigo.

Pois é. Não dou conta das idiossincrasias de N. Mas posso intuir que há na sua subjetividade, subjacente a seu jeito despachado e desaforado de ser, uma grande dor. Uma dor secular das rotinas oprimidas das senzalas. Uma dor que a faz se desqualificar como um sujeito que tem direito a frequentar os mesmos lugares que eu frequento, de cabeça erguida. A dor de preferir perder um trabalho de que gosta muito, por não querer formalizar a sua condição de empregada doméstica. A dor de preferir votar em ACM  Neto talvez como uma forma de não se identificar com a grande parcela do povão que reconhece os benefícios que obtém de um governo mais progressista e popular. A grande dor da negação, do não saber o que faz com o que é. Dor na recusa de vislumbrar possibilidades de ascender socialmente para obter um lugar mais dignificante da sua condição de empregada doméstica, negra e mulher.

O sofrimento de N. me comove muito. E cuido de não apagá-lo da minha visão recorrendo a clichês como classificá-la como uma pessoa reacionária, que não tem consciência dos próprios direitos. Ao sintonizar com sua dor, não tento com argumentos políticos racionais persuadi-la a votar em candidatos mais à esquerda cujos projetos atendem aos anseios das camadas populares mais desfavorecidas. Bem que gostaria. Mas intuo que não é por aí. Quando vejo o sofrimento de N. dou-me conta de que há todo um trabalho ainda por fazer, e em várias frentes, para que alguns desfavorecidos despertem do pesadelo histórico desalentador que foi o nosso passado político.

 A propósito de várias frentes de trabalho, sinto muito orgulho da minha colega psicanalista do Instituto Viva Infância, que não tem receio de publicar no Facebook a sua preferência pela candidata Dilma. O Instituto Viva Infância, como muitos de vocês sabem, é uma organização sem fins lucrativos cuja causa é a criança e que entre outros serviços, presta atendimento psicoterápico a crianças e pais de baixa renda. Atendi no Viva Infância por alguns meses, e fiquei encantada com a proposta de atendimento inclusive a crianças autistas, totalmente destituída de vieses caridosos ou populistas. Lá as pessoas são tratadas como sujeitos que têm legítimo direito aos serviços que usufruem. Acho que um trabalho como esse cala mais fundo na consciência política das pessoas do que qualquer discurso eleitoreiro que eu tentasse fazer a pessoas como N.

Nas minhas noites de reflexões meditativas quando volto do consultório, penso muito no que posso fazer em prol de pessoas como N.  Tenho as minhas posições à esquerda, mas não sou, nem de longe uma pessoa bem informada. Não tenho muita paciência para acompanhar programas de notícias, e as opiniões de Marilena Chauí, uma intelectual da filosofia que escreve sobre o desejo, me sensibilizam mais do que ler sobre as plataformas políticas dos candidatos. Compartilhei no Facebook um depoimento muito esclarecedor de Marilena sobre o perigo que representa para o país a candidatura de uma pessoa como Marina.

Desde que abandonei a minha ativa militância na adolescência em uma organização clandestina de esquerda, fiquei um pouquinho desconfiada dos métodos de persuasão política usados naquela época, no contexto da mais cruel repressão da ditadura militar. Tornei-me um pouco cética e anárquica. Algumas vezes cheguei a votar nulo.

 Foi o que aprendi  numa correspondência diária sobre poesia e sobre a vida com todo o seu colorido pessoal de dilemas existenciais com um escritor que foi ativo militante do PCdoB, que me fez no ano passado sair à rua para celebrar o Dia Nacional da Consciência Negra. Falar sobre poesia e sobre o viver com uma pessoa sensível com passado tão significativo, reavivou meus interesses pela política. Porque escrevíamos diariamente  sobre poesia sem deixarmos de considerar temas como a exclusão dos negros, dos deficientes físicos, dos idosos, dos que padecem de sofrimento psíquico, das mulheres que são maltratadas pelos maridos ou assediadas pelos patrões. Acho que é fundamental o "sem perder a ternura". Acho que é fundamental não perder a delicadeza. E é pela via da ternura e da delicadeza que tomo minhas posições políticas. É pensando toda noite no sofrimento de N. 

Por essa via, fiquei muito tocada de ver um homem inteligente, sensível e de esquerda, muito esclarecido politicamente, cavalheiro, me fazer passar à sua frente na hora de entrar no elevador e de subir a escada rolante. Não gosto muito das pessoas politizadas que confundem as mulheres terem direitos sócio-econômico-político-culturais iguais aos homens, com serem tratadas por eles sem quaisquer deferências ou delicadezas. É com esse homem cavalheiro que vou me aconselhar a respeito de em quem votar para os demais cargos além de presidente. 

Pela via da ternura e da delicadeza é que fiquei assombrada de admiração por um senhor de 92 anos, que por ter sofrido um processo de interdição por motivo de saúde, teve cassado seu direito ao voto nas próximas eleições presidenciais. Quando soube que não poderia exercer seu direito de cidadão, este senhor ficou muito indignado e triste. No meu modo de ver a vida e o mundo, este fato tem toda uma beleza particular e constitui um chamado para nos fazer pensar. Pensar em N. Pensar no que há de extraordinariamente dignificante, neste senhor tão apropriado do seu valor como sujeito e do seu dever como cidadão. Nele, nos seus 92 anos, a vida pulsa. E sentir vergonha, uma enorme vergonha, se algum dia me passou pela cabeça a ideia de votar nulo.

Temos ainda um longo caminho a percorrer para que um dia a ficha de N. possa cair. Foram anos infindáveis de escravidão. Foram anos massacrantes de ditadura. Me deixa triste, mas é compreensível a sua desesperança sofrida  e de alguns semelhantes a ela. Isso sem pensarmos na diuturna maciça propaganda na mídia, particularmente nos canais de TV e rádio escutados pelas camadas populares, nos empurrando para um retrocesso político, para uma volta a um passado desalentador.

Mesmo sendo uma pessoa pouco informada das notícias políticas de jornal (prefiro ler sobre literatura, artes e cultura),  mesmo preferindo a opinião de Marilena Chauí e de outros intelectuais sobre as eleições, sou inquieta quanto ao futuro do meu país. Quero que as pessoas de baixa renda que vêm usufruindo de melhores condições de vida, usufruam mais ainda. Quero que pessoas como o vigia noturno do prédio onde tenho consultório, sobre quem falei a vocês na crônica intitulada "Quebra-cabeça", possa ter uma vida profissional promissora quando se formar em filosofia. Quero sobretudo que ele não tenha que esperar a Doutora Marcia descer num fim de dia de trabalho para que possa ter uma interlocução sobre Ariano Suassuna e Manoel de Barros. Quero que ele possa conversar sobre essas coisas com seus parceiros de trabalho. Quero que N. não se sinta constrangida de entrar comigo num boteco da Ceasinha ou  num restaurante mais sofisticado.

Por isso passei a manhã de hoje dando uma devassa no meu minúsculo quartinho de estudos para encontrar meu título de eleitor. Encontrei. Estava no meio de uns papéis destinados à minha inscrição na pós-graduação do Instituto de Letras. Deixei o título guardado bem à vista para não desaparecer de novo. Faço absoluta questão de votar e penso que escolherei com critério minhas candidatas e/ou meus candidatos.

 Se vou votar numa mulher, não o faço apenas por ser mulher. Tenho um pouquinho de pé atrás com o discurso feminista. Pelo menos aquele discurso feminista cheio de investidas fálicas que tenta contemplar as mulheres desqualificando os homens. Acho que embora tendo direitos iguais, para além da anatomia homem e mulher são coisas muito diferentes e assimétricas. Então certamente as questões das mulheres têm especificidades às quais uma mulher pode ser mais sensível, sem dúvida. Penso contudo, que as questões do masculino têm também suas particularidades, às quais uma mulher sensível pode e deve também contemplar. Voto numa mulher pelo programa político que defende para os cidadãos, mulheres e homens cujas demandas específicas devem ser escutadas.

 Não digo a nenhum de vocês "votem nesse, votem naquele". Até tentei dizer a N. Mas acho que usar da prerrogativa de ter sido sua patroa para convencê-la é abuso de poder. Acho que ela, como todos nós, precisa de tempo para amadurecer suas posições. Acho que quando a gente se ocupa das questões da subjetividade, acaba por saber que nem tudo se resolve pela via da mestria das argumentações racionais.

 Não quero persuadir N. enchendo-a de argumentos fazendo uso da minha "superioridade" intelectual. Que superioridade? N. com a escolaridade que teve e as oportunidades que lhe foram oferecidas é muito mais inteligente que eu que não sei registrar números de telefone numa agenda de celular. Não sei. Mas acho que sua questão diz respeito ao lugar que se permite ocupar na vida, no mundo. Isso não se resolve necessariamente pelo caminho da racionalidade. A opressão destitui as pessoas da sua condição de sujeitos desejantes. O que seria preciso fazer para lhes restituir essa condição? Aqui acredito que a psicanálise joga um papel importante. Mas qual? Certamente não seria o caso de recomendar a todas as pessoas como N. que se submetam a um tratamento psicanalítico. Mesmo porque infelizmente a psicanálise não é ainda acessível a todas as parcelas da população.

Estas questões me ocupam a cabeça. As precárias condições de vida de pessoas como N. clamam por  soluções mais imediatas. A fome não pode esperar.  N. passou um mês pernoitando em uma cadeira de hospital público acompanhando seu marido que sofria de cirrose hepática e acabou vindo a falecer. Ela estava tão exausta na hora do funeral, que atualmente não se lembra a data da morte. Como falar de elaboração de luto a uma pessoa que vive assim? O que posso fazer de mais imediato por ela, é exercer com consciência o meu voto. As eleições estão aí.

 Por isso, quando chegar na cabine de votação estarei pensando nela. E em mim também. Quero eleger um governo que possa permitir que algum dia faça parte dos programas de saúde um projeto que vise restituir aos cidadãos sua condição de sujeitos desejantes. Sei que para isso há um grande caminho a trilhar. Há que se definir prioridades. Por isso é preciso primeiro chegar na cabine de votação. Quando lá chegar, também estarei pensando em vocês que me leem, a quem não digo "votem nesse, votem naquele". Votem de acordo com suas consciências. Eu vou votar para dar continuidade a um projeto de Brasil sem desigualdade social.  Vou votar, pra não voltar.
                                                                                                             Marcia Gomes.

domingo, 14 de setembro de 2014

14/09/14                              DIVISÃO,  DE  VISÃO.     

 Amanhã, setembro entre dois números quatorze, faz o mês oscilar na corda-bamba.Uma simetria quase primaveril equilibra a data que acabei de escrever. Hoje, sábado uma moldura plúmbea ainda invernal dá contorno à tarde. Prenúncios ainda vacilantes de uma primavera por vir me animam a pena. Mas teimo ainda em persistir no tom de inverno porque gosto da palavra "plúmbea". Tem peso, densidade e acho que a vi pela primeira vez num romance de Jorge Amado em que o mar encapelado ameaçava os corações das amantes à espera de seus pescadores. Acho que era "Mar Morto".

 Plúmbeo, o céu da tarde não me permite antever quão célere correrá o ponteiro do relógio para que chegue a primavera. Como o mês de setembro cortado pelo meio, meu coração se divide entre ditar um discurso de amante à espreita do que virá, ou um discurso de uma senhora desencantada que nada mais espera. O que prevalecerá?

Não sei, não sei. Só sei que ainda esta semana escrevi a umas colegas que jamais precisei de reposição hormonal e que sou uma incorrigível encantada com as surpresas do amor. Uma amiga querida me deu uma vez um livro de Ítalo Calvino intitulado "Os Amores Difíceis", dizendo ser esse título a minha cara. Por certo. Gosto das coisas dialetizadas, movidas por contradições. Mas ganhei este livro há anos atrás, quando ainda à meia noite não tinha as retinas fatigadas. Agora durmo cedo e acordo cedo. Troquei o hábito de um jantar farto por uma frugal refeição noturna que me preserva o estômago e o sono. Por certo. Gosto dos amores tormentosos, cheios de interdições, percalços. Mas isso era há anos atrás quando o corpo movia-se acompanhando a velocidade de um coração descompassado. Agora meus músculos estão um tanto flácidos e os ossos  cansados.

Será que deixo os prenúncios vacilantes da primavera me animarem a pena ou cedo à sensação de ser um Roland Barthes combalido e recolho os fragmentos do discurso para debaixo do tapete? Enquanto não sei responder, espio o céu da tarde. E o céu se abre. O plúmbeo vai concedendo lugar a um azul com nesgas de sol. Enquanto escrevo, assisto ao canal Arte 1 e me colhe uma cena de um seriado onde o amante rouba a amante de seu leito e a leva numa carruagem. Falam francês. E é aquela musicalidade de frases entrecortadas por arfares. O céu continua se abrindo. Devagar como uma mulher madura vai se abrindo com cautela ao cerco titubeante de um parceiro maduro. O aparelho de TV perde o sinal e a cena dos amantes se interrompe. O ruído de carros na Sabino Silva ilude a escuta, e me toma a sensação de um mar encapelado assustando os corações das amantes à espera de seus pescadores. A televisão volta ao ar e a amante diz ao parceiro que temia que ele morresse antes que se reencontrassem.

Então recordo uma discussão de quarta-feira passada na Letra Freudiana, onde a propósito das insígnias de poder que precisam os machos apresentar, alguém comentou que José Wilker morreu de um infarto de tanto que consumiu Viagra para comparecer viril a uma amante jovem. Penso que se é à custa de infartar, prefiro um parceiro não tão viril que consuma o seu Viagra com parcimônia para poder envelhecer comigo. Penso em Gabriel Garcia Marques e o seu lindo "O Amor nos Tempos do Cólera". E o céu continua a se abrir.

 Lembro também que na discussão da Letra Freudiana comentou-se que as insígnias da masculinidade não estão na posse de um órgão sempre ereto (um homem "neurótico normal" precisa sucumbir à realidade da detumescência para que possa ter uma vida amorosa saudável), mas no quanto um homem pode despertar admiração, respeito pela sua competência, sentimento de proteção e cuidado na sua parceira. Lembro que no início da minha adolescência eu ficava fascinada com um casal de idosos que ficava namorando, se olhando, se beijando e conversando muito, no largo do bairro da Graça. Quanta coisa pareciam os dois ter a conversar!! Eu achava lindo!

Agora o seriado acabou e há um ator sexagenário dando uma entrevista e dizendo que nos tempos atuais da internet e do Facebook, a experiência de intimidade está na criação artística. A amiga que me deu o Ítalo Calvino me telefona e meio sem pensar no que estou dizendo, lhe digo que escrevo sobre o amor na maturidade. Me assusto. Agora o ator entrevistado fala da sua ascendência portuguesa e no fundo da entrevista toca um fado. Me emociono. Acho que fado combina com o amor na maturidade.

 Penso que em começo de outubro Rafael, meu filho adotivo, vem com uma amiga ficar aqui em casa. Gosto muito de ter o status de mãe. Receber seus telefonemas para lhe aconselhar sobre seus planos como professor na universidade. Gosto de ser uma mãe respeitosa do seu desejo, só aconselho quando ele me demanda, e penso mesmo que o melhor que temos a oferecer a um filho é dar o exemplo de ser um sujeito desejante.

Agora volto a olhar o céu. É de um azul claro com nuvens totalmente brancas. Acabou-se o plúmbeo. Penso que hoje estou de visão do céu. Divisando. Divisão. O que faço agora que o céu é azul luminoso e tenho um corpo idoso? O que teria no meu corpo para oferecer a um parceiro? À essa altura da vida é difícil se confrontar com as estrias, as celulites, as adiposidades que despencam e ter que mostrar o corpo. Por que não mostrar? Por que não me ancorar no fato de que não preciso de reposição hormonal? Não é essa a evidência de que tenho ainda um corpo amorável? E pensar que vou ter coragem de postar este texto no Facebook amanhã...

 Vontade de conversar coisas dos meus interesses atuais. Vontade de partilhar, de ouvir sobre experiências. Alguém me contou com entusiasmo que visitou o Museu de Freud compreendendo a importância histórica daquele que trouxe à humanidade mais uma ferida narcísica. Penso que há até pouco tempo atrás eu escrevia num diário intitulado "Palavra Ferida". Vontade de conversar sobre as feridas narcísicas trazidas à humanidade. Acho que Copérnico, Darwin, Freud. Definitivamente gosto de quem compreende a importância histórica de Freud. Gosto de quem se faz respeitar.

Definitivamente o céu ficou azul. Me alegra saber que daqui pra frente haverá cada vez mais céus azuis. Eu, dividida, como o é um bom sujeito neurótico, me permito me alegrar com isso. Não há um bom papo que não cure tempos sombrios.

 Agora no Arte 1 estão passando um texto satírico de Hamlet.  Aprendi no meu curso de psicanálise e literatura que Shakespeare foi contemporâneo de Descartes. "Penso, logo existo." "Ser ou não ser, eis a questão." Hamlet, personagem emblemático da divisão subjetiva, não por acaso. Há então uma coincidência histórica entre o momento em que existem os pré-requisitos para o surgimento da ciência e em seguida da psicanálise, e os dilemas existenciais de Hamlet. Gosto de quem entende de razões históricas. Isso nos permite contextualizar, transcender. Isso nos permite deixar prevalecer a alegria do encantamento com a chegada da primavera. Divagar, pra não assustar, se fecha o ciclo do plúmbeo. É hora de amar de novo?
                                                                                    Marcia Gomes.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

07/09/14                                             O  CISNE  VIVO.

Quinta-feira passada. Prenúncios no ar de primavera à moda baiana. Um dia que não chega a ser acalorado, mas sem os ruídos do vento úmido entrando na varanda do meu apartamento. Para matar as saudades, saio com uma amiga para almoçar num restaurante português aqui perto. Comida honesta, bom atendimento. Como isso me agrada!!

 O papo entre amigas foi delicioso. Falamos até um pouquinho do encontro da turma de Psicologia que acontecerá em 1 de novembro. Falamos do quanto me surpreendeu um escritor que respeitamos muito, haver sugerido que eu publique num livro algumas crônicas selecionadas. Falamos também das nossas preocupações com a saúde uma da outra. Fomos ao banco e estacionamos na vaga para idosos. Com essa amiga eu posso ser eu mesma. Prescindimos de máscaras sociais. Como isso me agrada, me enternece, me gratifica!!

De volta para casa, vou cuidar de fazer alguns contatos para o encontro da turma de Psicologia e me chega a notícia desconcertante. Diante da notícia perco muita energia e não quero fazer mais nada, a não ser falar com Sandra, minha irmã mais velha. Me sinto um tanto em estado de choque. Tento o telefone uma, duas, três, vezes. Sandra não responde. Não sei e não gosto de enviar mensagens. Me sinto desolada, envelhecida e solitária com a noite que chega. Finalmente Sandra atende o telefone e posso partilhar a minha perplexidade.

Conhecemos Cilinho quando eu contava apenas 10 anos, morando no bairro de Nazaré. Nossos pais ainda viviam juntos. Cilinho ficou amigo de Sandra através de um namorado dela que era nosso vizinho. Morava na Rua da Poeira. Que poético esse nome de rua! Tudo que diz respeito a Cilinho me soa poético. Com a separação de nossos pais mudamos para o bairro da Graça e Cilinho muda da Poeira para o Canela. Era só descer um pedacinho da Euclides da Cunha e já estávamos no apartamento dele, um adolescente de rosto delicado, olhos pequenos amendoados, testa muito grande e voz grave-doce.

 Filho caçula temporão de Dona Lurdes que o enchia de mimos. Colega de Sandra no Severino Vieira, os laços de amizade entre os dois se fortaleceram com a intermediação de Bento, agora já outro namorado de Sandra com quem ela se casou e teve minha sobrinha Daniela, de quem Cilinho viria futuramente tornar-se padrinho. Ele e Bento eram unha e carne. Cúmplices nas malandragens que faziam com as garotas, onde um estava, o outro estava também.

Me vejo então já com 12 anos, corpo de mulher feita sob a ebulição dos hormônios. Por conta do namoro de Sandra e Bento convivo com Cilinho que devia ter já uns 17 anos.  Trabalhava na prefeitura e gazeteava trabalho e aulas para fazer poemas e tocar violão. Era sensível, inteligente, delicado e muito sedutor. Eu estava com meus hormônios à flor da pele, também era sensível, delicada, inteligente e não resistia a uns versos bonitos feitos só pra mim. Como resistir àquela voz grave-doce ao som de um violão bem tocado? Quando Cilinho me olhava passava um choque elétrico em todo meu corpo. Eu tinha medo daquela intensidade. Ao tempo em que queria, fugia dele. Houve uma noite em que ele tomou minhas mãos nas suas e me disse estar se cansando das minhas escapadelas.

Fomos milhares de vezes juntos à praia do Barravento. Dançamos a noite toda de rostos colados na festa do Manoel Devoto, onde eu estudava e era presidente do grêmio. Íamos sempre com Sandra e Bento à casa de uma amiga no Cabula comer Maniçoba. Partilhei com ele a minha descoberta de Drummond e de Fernando Pessoa. Aprendi com ele a recitar uns versos de Augusto dos Anjos que terminavam assim: ... "no desespero dos iconoclastas, quebrei a imagem de meus próprios sonhos".  Também, acho que de Raul de Leone: ..."que o cisne vivo cheio de saudade, nunca mais cante  nem sozinho nade, nem nade nunca ao lado de outro cisne". Cantamos juntos muitas canções da época. 

 Eu me enfeitava toda e me perfumava para estar com ele, mas nem um beijo na boca eu permiti. Cilinho era o primeiro grande amor da minha vida com direito a todos os clichês. Ele se cansou de me esperar e se interessou por outras garotas. Eu, uma donzela abandonada, chorei lençóis de lágrimas e escrevi milhões de versos.

Vieram novos amores pra mim já sem medo, mudei de casa mais uma vez, e, embora ele continuasse amigo de Bento, as contingências da vida nos separaram e ele saiu do meu coração e do meu campo visual.

Quando estava cursando Psicologia na Ufba, encontrei na faculdade o colega Caria. Pequena a aproximação. Batíamos papo de corredor, nunca estudamos juntos, frequentávamos galeras diversas. Muito boêmio, Caria era próximo dos simpatizantes da psicanálise, gostava muito de tomar uma cervejinha, fazer versos e tocar violão. Eu era praticamente noiva nessa época. Caria, se não me engano, já separado da primeira mulher, namorou e casou com uma moça chamada Cléia ou Icléia, ou algo assim. Morou na Vila Matos, se não me engano teve filhos estudando na Via Magia. Mas eu e esse colega de faculdade vivemos sempre meio afastados e chegou um tempo que mais nada soube dele.

Até que chega a quinta-feira passada e nos contatos de preparação do encontro da turma de Psicologia, uma colega me diz que o colega Caria já há algum tempo não está mais entre nós. Transmutou-se em poeira com toda a poesia a que esta palavra tem direito. A minha memória retrocedeu num torvelinho desamparado de recordações.

 Por que a perda de um colega com quem não tive ligação mexeu tanto comigo, trouxe a inexorabilidade da morte pra tão perto de mim, me fez sentir uma solidão infinita diante do anoitecer? Não parece simples responder. Vocês já devem ter adivinhado. Aqui vai mais um clichê: "o primeiro amor a gente nunca esquece". É que o nome de Cilinho era Otacílio Mendes Caria.

 Pra mim, na quinta-feira passada, quem morreu não foi Caria. Foi o meu Cilinho. Morreu um pouco da Marcia de 12 anos que subia num caixote conclamando os colegas pra derrubar a ditadura. Morreu um pouco da Marcia que tendo medo do amor, tremia de amor. Porque qual um cisne solitário sobreviveu a Otacílio uma senhora que perdeu a única possível testemunha do que é apaixonar-se  pela primeira vez sem coragem de beijar na boca. Como eu gostaria de ter podido sentar com ele e relembrar aqueles tempos!

"Que o cisne vivo cheio de saudade, nunca mais cante nem sozinho nade, nem nade nunca ao lado de outro cisne". Obrigada, Cilinho, por me iniciar, com suavidade, com a delicadeza da poesia, no tortuoso percurso dos desfiladeiros do amor.
                                                                                                                   Marcia Gomes