domingo, 21 de fevereiro de 2016

23/08/2015                                        SÓ  MATIZES

Somatizar, só matizar, só matizes dessa dor que não me dá trégua. Como um degradé cromático do mais claro ao mais escuro, vai passando por escalas de intensidade de um pequeno sinal ao tom mais agudo. Mas hoje não quero falar de dor. Dor na coluna, não. Da coluna que sustenta o corpo, não. Sinto como se tivesse um corpo insustentável e um atrito de ossos inconciliáveis. Ainda outro dia disse e falei fartamente de sentir ter a bunda fora do lugar. Costumo sentir a bunda fora do lugar por falta de sustentação na coluna. Costumo sentir a bunda fora do lugar. E eis que sinto como se  o outro me espreitasse com o dedo em riste apontando a inadequação, a impropriedade. Sou imprópria a ponto de não caber na demanda do outro. Estou sempre a dever o que de mim se espera. Sou afeita a silêncios, a recolhimentos. Não sei o que dizer em conversas de elevador. Eleva dor. No encontro efêmero com o outro, antes de poder dizer a que vim, o esboço de conversa finda e de mim resta uma bunda atópica. Atípica.

Mal comecei a escrever e sou interrompida por uma chamada telefônica de minha mãe. De memória curta, pergunta se hoje já falou comigo. Falou há alguns minutos atrás. Sinto um transbordamento de ternura por essa mãe que apenas com 82 anos, já se perde no tempo e no que nele fez. Ainda outro dia fiquei a cismar um pouco tristonha ao ver uma mãe mais velha que a minha, ainda senhora de seu tempo, desenhando, pintando e confeccionando belas caixas com fotos de Freud e Lacan, para vender. Minha mãe, além das tarefas de rotina que já faz com uma certa dificuldade, consegue apenas se entreter assistindo à missa na televisão, à novela sobre a história da vida de Moisés e telefonando às filhas distantes. Mas embora com lapsos, sua memória não a deixa esquecer de sempre me perguntar se a minha auxiliar doméstica veio trabalhar, se deixou comida pronta para mim, se me tem feito companhia. A memória não a trai no seu sempre presente anseio de cuidar da filha. Como se isso estivesse registrado nos ternos redutos do afeto, desafiando nosologias e diagnósticos. Ainda assim, sinto-a volatizando-se, evanescente. E penso que urge ir até lá onde ela está, antes que o tempo implacável nos atraiçoe. Digo a ela que a amo muito, que Deus a abençoe, e de repente sinto como se essas palavras cavassem um fosso de ausência por eu não poder partilhar o seu cotidiano.

Feita esta digressão com o meu saudoso amor filial, volto para meu texto. E me pergunto, como me atrevo aos domingos a escrever essas garatujas literárias, que nem literárias são, porque da escrita nada sei. Apenas faço dela um exercício de fazer contato com leitores e amigos para dizer de algo que me escapa à fala. Quanto mais velha fico, mais sou afeita a silêncios, a recolhimentos.Não me ocorre falar num bate-papo polêmico a defender posições pró ou contra alguma coisa. Não me anima o desejo de convencer alguém de nada. Cada um tem as suas posições sobre política, religião e até sobre se a psicanálise resiste aos apelos imediatistas do mundo contemporâneo globalizado. Quando assisto a debates calorosos, às vezes penso que os debatedores estão numa corrida narcísica querendo que seja a sua a opinião que prevalece. Parece que cada um quer  se revelar mais informado, tendo acesso às novidades que circulam nas redes sociais. Não me dá gosto falar sobre a notícia que foi veiculada pela rede Globo, falar sobre a vida privada do outro, sobre quem está namorando ou não está, sobre um vestido da moda que foi adquirido. Alguns parecem ter urgência em falar sobre a última mercadoria que compraram não importa se há quem ouça. Tenho os meus pensares, as minhas convicções e cada vez mais me reservo o direito de falar sobre isso com aqueles que sinto semelhantes. Deixo-me mais a escutar e então escrevo. Escrever sem nada saber de escrita não será banalizar o trabalho sério dos que são escritores?

Feita essa pergunta que não cabe a mim responder, me ponho a desconfiar que entre mim e os escritores há de comum, mesmo que eu não saiba fazê-lo, o impulso imperioso de esvaziar a palavra do sentido trivial. Deixar-se submeter à palavra sem quaisquer garantias. Entregar-se à imposição da palavra aceitando ser por ela subornado sob pena de ficar esvaziado de toda consistência ontológica. Para escrever, coisa que não sei fazer, é preciso ser palavra. Felizmente nesses últimos dias estou sob o impacto do sério fazer poético. Compareci ontem ao lançamento do livro de poemas do amigo Carlos Machado, pessoa de genialidade assombrosa, que ainda que tente, não consegue esconder com a sua modéstia. Machado é daquelas pessoas que falam com propriedade sobre quaisquer assuntos relevantes, sabendo relatar experiências sem cair na trivialidade. Em "Tesoura Cega", seu livro, Machado diz coisas como essas : "Como dizer? Menino, os mapas não são roteiros de achamento, mas tênues direções de vento para quem só busca o buscar." Talvez de uma certa tonalidade niilista, este poema de irrepreensível drummondiana parcimônia de palavras, me lembra o que diz a psicanálise sobre a inalcançável busca do objeto perdido. E mais ainda, pra mim que tenho fixada na memória a recordação dos pombos compondo a paisagem urbana de São Paulo, o registro de um momento de observação da cena onde se entrevê o marco da resistência: "O pombo coxo resiste. Para, bica, olha em frente, apoiado sobre o coto de uma perna sem pata." Na minha leitura, nesse poema a condensação de palavras imprime uma absurda dramaticidade à cena observada. E ainda sobre o amor, Machado diz: "O amor inventa todos os fogos/desanda todos os pêndulos."

Junto a "Tesoura Cega" me chega por esses dias o "Escritos extraídos do silêncio", manuscrito do livro de poemas de uma amiga querida. E aqui volto à coluna. Não a que sustenta o corpo, mas a coluna cheia de volteios barrocos da igreja de São Francisco. "Escritos extraídos do silêncio" me faz pensar na coluna cheia de volteios barrocos. Como um exercício sonoro de ruptura de entranhas, esse livro tem palavras curvas desenhando um dizer feminino como nesse verso: "...enredada sem esperança em sutilezas...." ou então: "A poesia envia-me sinais, raio de luz em sótão empoeirado." "Moro na poesia, sem escolha."A inexorável melancolia de sentir-se habitada pela palavra poética. Dois poetas, cada qual com seu estilo, iluminando meus dias com palavras esvaziadas do sentido trivial. Tensas, intensas, tonalidades em gradação do estar no mundo subvertendo a ordem natural das coisas. Matizes. Só matizes.
                                                                                                                                     Marcia Gomes.

domingo, 9 de agosto de 2015

09/08/2015                                                      DESIDENTIFICAÇÃO

Dia dos pais me é quase indiferente. A não ser por ter visto no Facebook a comovente fotografia de um pai com óculos enormes. Tão grandes quanto a dor da saudade de quem postou a fotografia. A não ser por ter visto no Facebook um pequeno texto poético sobre um pai que à noite, enquanto dirigia, costumava deixar a luz interna do carro acesa. A gente é indiferente, é uma data comercial, mas talvez por sermos seres de linguagem, imersos no simbólico, alguma coisa nos fisga e cutuca a memória com vara curta. Então lembro que meu pai que morreu aos 45 anos, era defensor da ideologia comunista e que isso deixou em mim marcas identificatórias pelas quais sou grata. Doutor Joaquim, era esse o nome dele, era avesso a celebrações inventadas pela sociedade de consumo. Neste dia, aceitava de bom grado um presente que fosse um desenho, uma redação, um poema, uma pintura, um trabalho com as artes. Nem pensar mercadoria comprada em loja, invenção perversa do capitalismo.

Me ponho a pensar sobre as marcas identificatórias pelas quais sou grata, imaginando o que estaria Doutor Joaquim a dizer sobre o grave momento político que vivemos. Se eu acreditasse que existe céu e se por lá ele estivesse, teria ficado muito feliz ao ver há poucos meses atrás, os socialmente desprivilegiados como ele fazia questão de ser (assumindo suas origens na negritude e, sectário, recusando-se a ter consultório particular ao qual só tem acesso a elite ), podendo circular livremente nos aeroportos desfrutando das viagens de avião. Meu pai ficaria muito feliz com o sistema de cotas nas universidades, com o povão tendo acesso a moradia, a bens e serviços como qualquer cidadão tem direito a ter. Outra vez, sectário, torceria um pouco o nariz para o governo do PT por achá-lo reformista e populista, fazendo alianças amplas demais com setores progressistas da sociedade que defendem as liberdades democráticas mas não se interessam em empreender a revolução socialista. Provavelmente diria que o momento crítico em que está mergulhado o governo seria o resultado desse equívoco do PT.

Penso que as marcas identificatórias produziram em mim vieses que comprometeram ou pelo menos retardaram que eu chegasse à compreensão que tenho hoje do momento político que atravessamos. Na adolescência, fui militante de uma radical organização clandestina de esquerda. Na juventude, preferi não estar à frente do movimento político e não assumi cargos de direção. Participava do movimento estudantil na luta contra a ditadura, simpatizando com as posições do PCdoB. Na maturidade, ("ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais") talvez por as marcas identificatórias terem se tornado mais incisivas e também por falta de informações fundamentadas e consequentes,  por um longo tempo, torci o nariz para o PT a partir do momento em que assumiu o poder.

Achava que o presidente Lula não estava tão à esquerda quanto eu gostaria. Algumas vezes preferi votar nulo do que votar num partido que na minha opinião fazia alianças muito amplas, defendendo propostas reformistas e populistas que não lidavam com as raízes das contradições da classe trabalhadora, contentando-se com lhe oferecer melhores condições de vida, retardando a marcha para a revolução comunista. Pelo que eu via, o governo do PT não lutava radicalmente contra os interesses das elites privilegiadas. Na verdade, eu estava repetindo o discurso que supunha que meu pai teria, se aqui estivesse. Um discurso anacrônico. Isso eu não percebia.

Foi o meu contato com setores das classes dominantes que me fez mudar de opinião. Desde que o PT assumiu a presidência da república, eu fui vendo um tamanho rancor pelo governo por parte da classe dominante e de setores da classe média alta que só aspiram ascender socialmente, que pouco a pouco foi caindo a ficha. As contradições entre a classe dominante e os oprimidos são tão agudas, que o mero fato de os desprivilegiados terem tido acesso a melhores condições de vida, enfurece os poderosos gerando neles e naqueles que neles se espelham uma ira descomunal. Ouvi de uma psicanalista respeitável, a quem muito considero, que depois do bolsa família "esse povo" não quer mais saber de trabalhar. São uns desocupados. Nas palavras dela.

 Escutei no consultório alguém dizer que agora já não dá nem gosto viajar de avião. Qualquer hora na sua poltrona ao lado tem um preto.De outra psicanalista que confunde igualdade de direitos defendida por Marx com a natural diversidade subjetiva defendida por Freud e Lacan e que eu defendo também, escutei que não cabe defender igualdade de direitos porque os sujeitos são diferentes por estrutura. Em outras palavras, quem nasceu pobre tem que se conformar em ser pobre e que não se atreva a reivindicar direitos. Ouvi muitas coisas como essas até compreender que numa sociedade em que a luta de classes é tão acirrada, não dá para se pensar em de uma hora para outra se fazer a revolução. Mesmo porque os tempos agora são outros e é preciso se pensar qual transformação na estrutura da sociedade é necessária e cabível fazer. Finalmente compreendi que alcançar melhorias significativas na educação, na saúde, na moradia, nas condições de trabalho aliadas à preservação das liberdades democráticas, num país como o nosso já é um avanço enorme.

O divisor de águas entre a Marcia revolucionária incendiária  e a Marcia progressista que apoia o projeto do governo de preservar as liberdades democráticas promovendo melhores condições de vida para os desprivilegiados, foi a Copa do Mundo. Entendi que o governo ainda que a passos lentos, estava mexendo nas contradições sociais, ao ver que a elite conservadora chegou ao cúmulo de abrir mão de seu gosto apaixonado pelo futebol para sabotar o trabalho da presidente da república e de seus aliados. De lá para cá não me tornei petista, (por enquanto me reservo o direito de me manter à parte de filiação partidária) mas apoio o projeto de governo da presidente Dilma assim como apoiarei Lula se vier a se candidatar.Um Brasil livre com pleno respeito aos direitos humanos e com garantia de igualdade sócio- econômica-cultural vai sendo aos poucos construído. Se a direita rancorosa vocifera enfurecida contra o pouco que já foi conquistado, imaginem o que não seria se quiséssemos dar um passo para além do que as condições propiciam.

Assisti ontem na casa de uma amiga (muito generosa e excelente anfitriã) uma palestra do historiador Leandro Karnal sobre Hamlet no Café Filosófico. Com um jeito de sábio cínico um tanto niilista, entre muitas coisas interessantes que disse, quando falava sobre o que diria Hamlet na contemporaneidade, Karnal falou com um certo escárnio que só os que querem se sentir felizes podem sustentar o engano de que a corrupção está circunscrita a apenas um partido. Esses mesmos que se querem felizes propagam que é preciso exterminar um partido para exterminar a corrupção. Segundo ele, a corrupção começa quando o seu carro anda no acostamento, quando numa aula de ética alguém assina a lista de presença pelo colega faltoso. Começa muito antes de qualquer partido ser acusado de corrupto.

Acho lamentável que haja pessoas do PT envolvidas em processos de corrupção e acho que tendo primeiro assegurado o seu direito de defesa, os considerados culpados devem ser punidos. Diga-se de passagem, considerados culpados por um judiciário imune a pressões ideológicas da mídia vendida aos interesses dos poderosos. Não quero ser ingênua e me deixar contaminar pela campanha caluniosa e sensacionalista da rede Globo e outros órgãos de propaganda  contra o governo, cujo visível propósito é desestabilizar o estado democrático com vistas a tornar viável um golpe de direita. O PSDB nada tem a oferecer de bom ao nosso país. Não estamos numa conjuntura política semelhante a 1964. Os tempos são outros. A ditadura foi derrubada e não voltará, graças ao preço pago por inúmeros brasileiros patriotas. Brasileiros patriotas como eu, como você, cujas memórias estão prontas a testemunhar o horror que foi a ditadura militar. As manifestações propostas pelas forças reacionárias para acontecerem no próximo dia 16, não contarão com a minha participação nem a de milhões de brasileiros que querem contribuir para um Brasil livre e democrático.
                                                                                                                                Marcia Gomes. 

domingo, 2 de agosto de 2015

02/08/2015                                                             ESCREVER                                  

Agosto é chamado de "mês do cachorro louco". Acho que é em São Paulo, nas suas idiossincrasias climáticas, que o vento uiva, vocifera como um cachorro acometido de hidrofobia, no mês de agosto. Agosto, mês que anuncia, inclemente, que mais da metade do ano já se passou e que estamos mais velhos, sem que necessariamente nossos projetos estejam se cumprindo. Meu projeto de publicar algumas crônicas domingueiras. Bem poucas. Aquelas que repercutiram melhor no cotidiano dos leitores. Aquelas sobre as quais mais leitores me escreveram comentando, ou disseram que me ler fez alguma pequena diferença nas suas vidas. É muito gratificante saber que alguns mais generosos me leem. Alguns mais sensíveis, talvez, adivinhos de que em mim uma subjetividade clama por se fazer presente numa interlocução com o outro, mesmo sabendo que interlocução não há e que o outro é mera suposição.

Acho que àqueles que apraz escrever, mesmo que como eu, não tenham exatamente talento literário, não sejam escritores, há o gosto por inventar uma interlocução possível com um outro suposto, que se deixa entrever por detrás do traçado percorrido pela pena. Cada vez que se toma a pena, sem saber a quem se dirige, sem saber a quem vai tocar, quem escreve sabe que constrói um interlocutor sem substância palpável, que serve para mitigar a dor de existir. A não ser aqueles autores de obras comerciais como a literatura de auto-ajuda, quem escreve não sabe para quem escreve. Não sabe a quem vai agradar, não pode escolher a quem endereçar o seu texto, oscila na corda bamba sem qualquer garantia. Escrever talvez seja o ato que melhor represente a angústia de ser montado, tomado pela linguagem, açoitado por ela, mergulhado no buraco negro de se arriscar sem eira nem beira, tendo como alento, como anteparo para a angústia, somente um leitor criado pela invencionice do faz de conta. Quem escreve o faz para um leitor que não tem rosto, um leitor criado para dar conta da solidão que é não saber nunca o que o outro quer.

Quem poderia dar conta de responder por quê numa tarde de sábado, ao invés de ir ao cinema, ir ao shopping, ir encontrar com amigos ou mesmo estudar, preparar um trabalho, arrumar a casa, eu escolho, por um certo tempo, escrever e enviar o meu texto para um número razoável de leitores que são meus amigos e/ou meus colegas, nos quais não penso quando componho meu escrito? Não penso em ninguém em particular no sentido de ser destinatário do meu texto, enquanto escrevo. No entanto, depois de enviado, o escrito passa a pertencer a quem o recebe, cuja leitura me importa muito. Gosto de saber que a leitura do meu texto tocou alguém, fez alguém ter alguma experiência estética, aprender sobre a vida, repensar algumas questões, concordar, discordar, ou que alguém simplesmente ficou sabendo de mim.

 Gosto de contar sobre mim por escrito. Por que? Para que? Não tenho resposta. É mistério. Só sei que desde que me entendo por gente gosto de escrever e levo isso a sério. Estou me lembrando agora que na quarta-feira passada, encontrei uma colega que raramente vejo, no Centro Médico Itamaraty. Ela me disse que lê minha crônica domingueira e falou : "você anda lendo Valter Hugo Mãe, não é?" Fui tomada de um contentamento muito singular ao ouvir aquela pergunta. A pergunta dava conta que a colega me leu. Fui tomada também por uma vergonha, um pudor, quase uma culpa, porque entabulamos uma conversação muito tímida sobre Valter Hugo Mãe, já que no momento da conversa eu sentia forte dor no corpo, não podendo ficar muito tempo de pé, razão pela qual tive que abreviar o nosso promissor bate papo. Mas registrei que ela me disse que aquele autor escreveu um livro intitulado "A desumanização".

Na quinta-feira encontrei no shopping com outra colega que havia me escrito no domingo dizendo ter ficado tocada por meu texto. Ao me encontrar, ela teve o cuidado de perguntar se eu estava melhor da dor, e voltou a me dizer que mesmo escrito com dor, meu texto era bonito. Fiquei muito contente. Um poeta que considero ter o estatuto de um Carlos Drummmond escreveu e dedicou um poema a mim, a propósito do meu texto de domingo passado. Isso me deu um contentamento enorme. Gosto de responder a todos que me escrevem comentando meu texto. Sinto alegria de saber que meu escrito foi lido e tocou alguém de algum modo. Evidentemente deve haver muitas pessoas que não gostam de me ler e por isso, não me escrevem dando qualquer retorno. Assim como há as que leem, mesmo que não me escrevam.

Nesses tempos em que estou muito maltratada pelo problema na coluna de difícil solução ( não quero me submeter a uma cirurgia e minha dor é refratária a medicações e tratamentos alternativos), escrever tem sido fundamental. Em geral, por causa da dor, fico indisposta para conversas muito longas. Enquanto que posso ficar mais livre quanto à hora que escolho escrever, e fazer pausas para descansar da dor. Talvez escrever seja um estratagema para burlar a morte que nos espreita. Escrever tem algo a ver com estar na vida, ainda que a falta de garantia soe um pouco a um salto mortal. Quem sabe um salto mortal circense com rede de proteção? Quem sabe a rede de proteção não é esse outro que inventamos como interlocutor? E por que, no ato da escrita, a um outro encarnado com rosto e corpo, preferimos o outro inventado? Não será este outro inventado mais alentador, por sabermos que na confrontação com a morte estamos absolutamente sós?

Por coincidência, depois da conversa com minha colega sobre Valter Hugo Mãe, pude compartilhar no Facebook uma entrevista desse escritor tão interessante, falando justamente do seu livro "A desumanização". Na entrevista (WWW.FRONTEIRAS.COM)  ele cita um escritor tcheco que vive em Portugal chamado Jorge Listopad que disse : "quem não morreu está a morrer". Pude ler esta frase como estamos todos fadados à morte. Se alguém não morreu ainda, está a morrer pela inexorável passagem do tempo. Mas, de certa forma, o ato de escrever não suspende a passagem do tempo? Escrever é eternizante?
                                                                                                                       Marcia Gomes.                       


segunda-feira, 27 de julho de 2015

26/07/2015                                           FIAPOS

Fiapos esparsos desajuntados na tessitura do não pode ser. Fiapos dispersos, tecido abortado porque a dor concebe, mas precocemente torna-se sangue hemorrágico, filho perdido, escritura frustrada do parto bem sucedido. Fiapos de sangue do paulatino estancar da hemorragia resultada em filho nenhum. Filho nenhum porque não posso escrever. A dor devasta o corpo e o transforma num disforme esgar de nada. Corpo esgarçado de dores lancinantes, é somente uma narcísica escritura do impossível de se escrever. O investimento no mundo externo é uma inviável e congestionada rua de mão única que redundante, retorna sobre si mesma. A dor se esparrama por todo o corpo que sobre ela se debruça sem mais nenhum investimento. Sobre ela se debruça o corpo como sobre a própria imagem se debruçou Narciso, prisioneiro suicida da própria imagem. A dor só vê a si mesma e de tudo o mais faz espelho.

Logo hoje, que tentando driblar a dor do corpo tentei me entreter com poemas de nome "Colheita" que me foram presenteados pelo estimado Professor José Newton de Sousa, seu autor, num momento em que mais me doía a alma. O querido Professor José Newton, pai de alguns poetas, escreve dizendo coisas tais como "A beleza vale mais que a exatidão". Ele é um inexato radar do mundo sensível, captando como um requintado e inocente esteta, tudo o que escaparia ao olhar comum do passante desavisado. Assim ele fala nos seus versos da paisagem do Cariri, de peculiares tipos humanos que passaram por sua vida, de saudades e nostalgias do exilado, da alegria pela primeira e segunda filha e pela chegada do Natal, e muito apaixonadamente do seu amor à sua amada e a Deus. O Professor é um cristão de primeira ordem. Mas os seus singelos versos conseguem me entreter sem de mim se apoderarem, porque de mim só se apodera a dor na coluna. Hoje mais aguda. Talvez porque a Sul América não autorizou o procedimento de bloqueio da dor ao qual me submeteria. Talvez porque hoje me veja confrontada com a possivelmente imperiosa necessidade de mudar de casa. O comércio imobiliário pode às vezes ser impiedoso, pouco ligando para o amor à sua casa de uma senhora que mal se locomove, de tanta dor.

Logo hoje, que tenho na mão esquerda uma tesoura de corte incerto. Uma tesoura cega. Vejo que às apalpadelas, na penumbra que acomete os cegos, ela vai, certeira, passando de través pelas palavras e cortando aqui e ali, como uma mão decepada de artesão que embora amputada, preserva intactas as terminações nervosas e monstruosa, concebe a obra ímpar, de beleza assombrosa, um Narciso que, ao invés de suicida, debruçar-se sobre a própria imagem, belo, devolve ao outro a si mesmo, perpassado das perplexidades que lhe dá o tempo que passa e não passa, das cândidas alegrias do cotidiano contidas em um assovio, e, do peso do amor, pesando sete grãos de chumbo. Em breve vocês saberão o que é essa tesoura cega e compreenderão. Compreenderão como a dor do corpo pode ser desapontadora sabotagem poética que nos impede a fruição da beleza tão bem cortada às cegas, dessa tesoura guiada por um cão com faro de gênio.

Logo hoje, que mal conseguindo levantar da cama, ao acordar me dei a pensar no escritor valter hugo mãe que escreveu "a máquina de fazer espanhóis". Ele não abre mão das minúsculas porque diz lamentar estar a escrita investida de uma certa enfatuação de disputa pelo poder. Também diz que fez questão de colocar "mãe" no seu pseudônimo, porque só as mulheres têm o privilégio de dar à luz, coisa que inveja. Sabendo que o escritor foi criado no meio de mulheres e que pouco conheceu de sua ascendência paterna, enquanto fazia malabarismos para levantar da cama, me pus a pensar com meus botões no que têm meus botões de encaixes em casas de Freud e Lacan. Já levantada da cama aos trancos e barrancos, pensei: que vão Freud e Lacan ver se eu estou na esquina. Porque valter hugo mãe de há muito passou pela esquina sem deixar rastros. E, como bem disse Freud, a poesia antecede a psicanálise. Então, de nada vale querer psicanalisar um pseudônimo. Quanto mais um escritor. Isso só pode nos render a perda de caras amizades.

Logo hoje, que não fosse essa dor insuportável que não me dá trégua ( o remédio que eu tomo para mitigá-la se chama Lyrica. Às vezes me ponho a cismar com esse nome poético. Pois é. Me ponho a cismar com o nome, para não jogar o remédio fora. Além de ser muito caro, não diminui a dor em nada), eu tentaria assistir de novo uma aula sobre topologia na clínica de Lacan para ver se apreendo mais um pouco do que o palestrante quer dizer quando afirma que Freud ficou circunscrito à física newtoniana, enquanto Lacan avançou para a física quântica, daí a necessidade de conceitos topológicos. Um grupo de colegas no qual eu estou incluída, através de mim convidou um físico que publicou recentemente um livro sobre Física Quântica, para falar para nós. Já pensaram se o dia for um "logo hoje"?

Logo hoje, que tomar um banho é um sacrifício e que embora goste muito, eu até fique pensando nas desvantagens de morar sozinha, logo hoje, que nem de longe posso pensar em sair de casa, assistir televisão, ler para preparar um trabalho que vou apresentar sobre o "Estado Amoroso" nas suas articulações com o narcisismo, logo hoje que sinto dor de artrose degenerativa com total obstrução dos nervos, eu escrevi um texto intitulado "Fiapos". Fiapos de dor num emaranhado que não me  permite tecer coisa alguma, ainda que fique alegre. Alegre, porque enquanto houver poesia, não há por quê deixar de lado o tear.
                                                                                                                            Marcia Gomes.  

domingo, 19 de julho de 2015

Olá, colegas e amigas (os) leitores,

Estou enviando abaixo o link do documentário "A Família de Elizabeth Teixeira" gentilmente cedido por um amigo. O documentário foi filmado também por Eduardo Coutinho, trinta anos depois de "Cabra Marcado pra Morrer", filme sobre o qual escrevi no domingo passado. Só para lembrar, "Cabra Marcado pra Morrer" é a história de João Pedro, um líder camponês paraibano que foi cruelmente assassinado pelos latifundiários em 1962. Comentei sobre esse filme e o sofrimento da viúva Elizabeth Teixeira, porque estou indignada com as investidas de setores da direita reacionária no sentido de estimular um retrocesso político de graves proporções como um golpe militar, tomando como pretexto o fato de estarmos vivendo um momento de crise política e econômica. No documentário abaixo, Eduardo Coutinho reencontra Elizabeth Teixeira com mais de 80 anos e faz contato com seus filhos e netos. O filme vem mostrar que o assassinato de João Pedro junto com a perseguição política à sua viúva a partir do golpe de 64, tiveram desdobramentos dramáticos sobre a história daquela família, que estão presentes até os nossos dias.

Se você tiver interesse em ler as minhas crônicas de domingos anteriores, é só acessar o blog: blábláblazista.blogspot.com.br    . Do blog constam escritos desde 2012. Alguns dos textos têm um cunho predominantemente autobiográfico, nos quais me exponho muito às vezes. Foram escritos para um público seleto de amigos e colegas, por uma necessidade de partilhar com vocês algo da minha subjetividade, sem pretensões literárias. Não sou escritora. Sou "escrevinhadora". Gosto de "escrevinhar". Quem sabe, em algum momento, eu possa fazer uma seleção dos textos menos ruins que estão no blog e publicá-los? Por que não?
                                                     Um abraço,
                                                                        Marcia Gomes.

19/07/2015                                                                 DESENCADEIRA

Penso sobre o quê escrever. Poucas coisas me ocorrem. Penso com muita alegria que falei com Leandro ao telefone a título de despedida. Leandro é meu sobrinho cineasta que ganhou um prêmio com seu talento, e vai morar na Alemanha. Ele gosta de ler minha crônica domingueira e eu gosto de saber o quanto ele é bem resolvido para viver suas questões pessoais do modo que prefere. Penso também que estou felicíssima porque Íris Gomes,  Iroca, minha sobrinha, esteve defendendo sua tese de doutorado na UFMG e foi aprovada com louvor. Torço por ela e sinto orgulho do quanto é capaz. Fico muito satisfeita de saber que várias sobrinhas  ( Lívia, Luciana e agora Íris) são doutoras brilhantes. Mas não precisam ser doutores para cair nas minhas predileções. Daniela, minha sobrinha mais velha, não enveredou por uma carreira acadêmica e é muito capaz. Tenho um orgulho enorme da minha "filhota", principalmente por seu caráter e coragem para lidar com adversidades. Penso também em Rafa (outro doutor brilhante), vivendo com entusiasmo a visita de Carolina, sua mulher e o filho João, neste mês de julho em Porto Seguro.

Não quero escrever sobre filho e sobrinhos. Poderia sair um texto muito narcisista. Também não quero voltar a bater na tecla das investidas golpistas da direita. Se falasse sobre isso, sairia um texto muito indignado. Hoje não quero ser narcisista nem indignada. Desconfortável com a falta de assunto, vou até meu quarto de estudos que há tempos não uso, porque está uma bagunça. Virou também depósito de coisas que estão fora de combate. Por isso tenho lido e estudado mais na sala. Olho para minhas estantes de livros com um prazer nostálgico. Penso que tenho lido pouco por conta das dores na coluna. Sem me dar conta, muito sem querer, desloco o olhar dos livros para uma cadeira comprada em São Paulo, que me acompanha desde 1980. É uma cadeira forte. Apoia-se em hastes tubulares em ferro resistente, tendo encosto e assento em couro cor de vinho. O seu modelo é de uma robusta cadeira de diretor de cinema.

 Penso em tudo que vivi sentada nesta cadeira. Nela escrevi minha dissertação de mestrado quando estudava na USP e morava no Butantã. Quando estudava na USP e morava no Butantã, eu era uma jovem de vinte e tantos anos, deslumbrada com o behaviorismo, tomada de rompante pelos arroubos do amor, e encantada com a cidade de São Paulo. Ouvia muita música de Paulo Vanzolini, frequentava assiduamente o burburinho cultural da Paulicéia Desvairada, indo a restaurantes, shows, concertos, peças de teatro, museus, exposições, cinemas, etc, num frisson voraz de quem quer se apoderar de toda a arte produzida pela alma da cidade. Sentada na cadeira escrevia num diário as minhas impressões sobre tudo que vivia com entusiasmo. Ocupava grande parte do escrito a dizer da minha rica amizade com um escritor que me apresentou o poeta Cesar Vallejo e me levou ao sítio de Hilda Hilst. Pois é. Sentada na cadeira escrevi sobre meu tímido e perplexo encontro com Hilda Hilst. Com Caio Fernando Abreu ("Tenho um dragão que mora comigo...."), com Lygia Fagundes Teles.

Sentada na cadeira escrevi sobre a devastadora dor de ter que perder meu emprego de professora da Ufba e por isso não ter podido defender minha dissertação. Escrevi sobre muitas alegrias e dores de amor. Muitas. Escrevi muita coisa sobre a campanha "Diretas Já" e sobre a transição da ditadura para a democracia. Escrevi sobre o pesar do Brasil com a morte de Tancredo e sobre a inesquecível e última experiência de ver Elis Regina ao vivo, no seu show "Trem Azul". A cadeira saiu comigo do Butantã e foi à Avenida Angélica. Lá eu escrevi no meu diário sobre os muitos judeus que viviam no bairro de Higienópolis, com todas as suas idiossincrasias culturais. Passei com a cadeira pelo Sumarézinho onde lia cartas de amor escritas em papel azul, vindas da Alemanha, e escrevia sobre a emoção de receber de lá, doces dietéticos de marzipã trazidos por um eminente portador.

 Finalmente, forte como eu, a cadeira me acompanhou à Vila Madalena. Ficava no meu quarto na escrivaninha. Era uma casinha muito modesta, onde um enorme girassol brotava na calçada . A cadeira, companheira imbatível, me acomodou numa certa cumplicidade, ao escrever sobre a ternura cândida dos artistas e velhinhos aposentados que povoavam a Vila Madalena com suas ruas de nomes poéticos, como Fidalga, Harmonia e Purpurina. Quando soube que a Vila Madalena seria a minha última, derradeira morada em São Paulo, não sei como a cadeira suportou sem se quebrar, o peso devastador do meu choro convulso.

Aqui em Salvador, para onde me mudei, a cadeira, fazendo coro ao meu recolhimento enlutado, ficou por muito tempo também recolhida num guarda móveis. Lá, talvez maltratada e também pelo efeito da maresia, ficou com suas hastes enferrujadas. Refeita do luto, mas ainda sob o impacto das radicais diferenças culturais entre Salvador e São Paulo, em desabafo, muito escrevi sobre o padrão baiano dos atendentes em lojas e estabelecimentos comerciais. Estranhando e às vezes rejeitando os padrões culturais de Salvador, passei muito tempo sentada na cadeira refugiada na literatura. Quando já compreendia e aceitava melhor o padrão "preguiçoso" do baiano como um reflexo da resistência às rotinas oprimidas das senzalas, levei a cadeira comigo para a Federação, o Jardim Apipema e o Morro do Gato. No Jardim Apipema me acolhi no seu assento para escrever sobre novas descobertas e dores de amor e sobre o meu feliz encontro com a psicanálise. Não sei a razão ao certo, mas jamais mandei reparar a ferrugem de suas hastes. Ainda hoje, continua enferrujada. Deve ser por razões metafóricas. Na verdade, essa cadeira é minha testemunha.

Tanto quanto sua dona, a cadeira mudou muitas vezes de casa. Eu tenho um coração itinerante pouco afeito ao pouso? Não sei. Mas parece que finalmente estou pousada no Morro do Gato. Mas quem vai entender a alma defeituosa desses seres de linguagem que somos? Assim que pousei, não sentei mais na cadeira. Não a dou a ninguém. Não reparo sua ferrugem. Agora me lembrei do nome de um livro que gosto muito: ""As veias abertas da América Latina". A cadeira está aposentada no quarto de estudos e quase não olho para ela. Fica ali, depositária enferrujada de muitas lembranças que prefiro deixar quietas.  Uma cadeira, pode dizer bem mais do que suportaríamos. Envelheço e não recorro mais a ela. Já ressignifiquei muitas coisas.Parece que estou pacificada com a cidade de Salvador apesar do seu inverno sem céu azul claro, sem um friozinho seco que convide um fondue com um bom vinho, seu inverno pluvioso e destruidor de encostas. Estou pacificada com a cidade de Salvador, com o pulsar ritmado da sua corajosa negritude. Então prefiro sentar para trabalhar na sala. E a cadeira aposentada no quarto de estudos. Também dela não me desfaço. Melancolia? Talvez a ignore tentando silenciar as lembranças que em mim desencadeia. "Desencadeira". Muda testemunha de uma longa história. Para que sentar nela? Para que fazê-la falar?
                                                                                                                Marcia Gomes.

P.S. Abaixo o link do filme documentário.  




 A Família de Elizabeth Teixeira 
https://www.youtube.com/watch?v=TondnexDVUk









domingo, 12 de julho de 2015

12/07/2015                                    LUTO,  LUTA.

Hoje acordei sem vontade de escrever crônica. Apenas conto em poucas palavras uma experiência que tive ontem, dedicando esse relato a todos aqueles que foram vítimas diretas das atrocidades do golpe militar de 64, ou que tiveram familiares, amigos, companheiros, violentamente perseguidos, presos, torturados, assassinados e desaparecidos por defenderem um Brasil onde os direitos humanos fossem respeitados, onde respeitando-se a diversidade subjetiva de cada um, tivéssemos igualdade de direitos sócio-econômicos para todos. Dedico esse pequeno relato a todos aqueles que viveram ou ainda vivem o luto por seus entes queridos que nas condições mais adversas, jamais abandonaram a luta por um país mais digno. Se hoje tenho a liberdade de falar sobre essas questões, tenho uma enorme dívida de gratidão aos brasileiros que construíram a derrubada do golpe de direita que aconteceu em 64. Só de pensar que há pessoas falando em retrocedermos à época da intervenção fascista das forças armadas, tremo de nojo, tremo de horror.

Não vou escrever sobre política. Cada vez menos, gosto de tratar de política. Apenas exponho minhas opiniões para aqueles que compartilham comigo a simpatia companheira pelos inúmeros brasileiros que são ainda socialmente desprivilegiados, e sofrem a dor de serem discriminados, estigmatizados, por serem pobres, negros, mulheres, deficientes física ou psiquicamente ou até por serem idosos. Não entro em embates políticos. Talvez devesse até entrar, mas me sinto cansada. Acho que por trás dos argumentos que se colocam nas discussões, o que está em jogo são os interesses da classe social à qual pertence ou aspira pertencer aquele que está argumentando. Na minha modesta opinião, a defesa dessa ou aquela ideia nas conversas sobre política passa por uma questão ideológica de origem social que transcende argumentos. Vou escrever sobre a dor que por anos a fio atravessou uma família inteira.

Pois é. Ontem voltei a assistir no canal Arte 1, o filme documentário intitulado "Cabra Marcado para Morrer". O filme conta a história de João Pedro e sua família. João Pedro era um cabra paraibano casado com Elizabete, com quem teve vários filhos, num casamento harmonioso e de muito companheirismo. João Pedro, cabra de poucas letras, "malmente" sabia ler e escrever, era um camponês que trabalhava numa pedreira em um latifúndio. Muito religioso, temente a Deus, vivendo na pele as injustiças e atrocidades exercidas sobre os empregados pelos donos da terra, tornou-se líder numa associação de camponeses na luta por direitos sociais. Organizava seus companheiros para reivindicar melhores condições de vida. Em 1962 João Pedro foi violentamente assassinado com tiros num crime cujo mandante foi um latifundiário. Alguns meses depois, sua filha mais velha não suportando a dor cruel do luto, suicidou-se tomando arsênico.

Ainda antes do golpe de 64, a história da morte de João Pedro foi publicada nos jornais e pessoas se interessaram por documentar sua vida no filme "Cabra Marcado para Morrer", cuja rodagem foi iniciada. Elizabete, viúva de João Pedro, continuou na militância camponesa e chegou a ser filmada. Era uma mulher com a fisionomia tipicamente nordestina, com dentes faltando na boca e com um discurso ingênuo comovente, de quem, com poucos estudos, sabe lutar por seus direitos e não se deixa abater. Na falta de João Pedro, vivendo a dor da trágica perda de sua filha mais velha, criava seus muitos filhos com dificuldades enormes.

Com o golpe de 64 o assassino de João Pedro foi absolvido, a repressão apreendeu quase todo o material da filmagem dizendo ser subversivo, e Elizabete teve que ir para a clandestinidade, afastando-se dolorosamente por muitos anos de todos os seus filhos. Ficou refugiada com nome falso, tendo que viver a vida de uma outra pessoa, destituída do direito à sua identidade e à sua história.

Quando veio a abertura política muitos anos depois, visivelmente envelhecida pelo sofrimento que passou, Elizabete pode retornar às suas origens e o projeto do filme "Cabra Marcado para Morrer" foi retomado e levado adiante. Elizabete não conseguiu retomar contato com todos os seus filhos. Seus depoimentos no filme causam uma comoção profunda àqueles que assistem. Comoção profunda provavelmente somente àqueles que sabem na própria pele da dor de Elizabete, e que, independentemente das crises que nosso estado democrático atravesse, estão dispostos a lutar por anos de chumbo nunca mais.
                                                                                                   Marcia Gomes. 

domingo, 5 de julho de 2015

05/07/2015                                   DIVAGAÇÕES.

Divagações. De vaga sons. Sons de vagas. Sons de ondas às vezes tormentosas, às vezes amenas. De ondas tormentosas, o lamentável desfecho por enquanto da questão da votação da emenda de redução da maioridade penal. Unanimidade contra essa medida em todas as cabeças esclarecidas e pensantes deste país, incluindo Caetano Veloso e Gilberto Gil, tivemos que passar pelo constrangedor desconforto de, na mesma semana, vivermos primeiro a alegria de ver a tal emenda recusada, para apenas algumas horas depois, ficarmos sabendo que por manobras manipulativas e perversas do Senhor Eduardo Cunha e seus comparsas brancos e ricos, a emenda voltou a ser aprovada. 

Num primeiro momento, eu, muito feliz por ver que a emenda não passou, fiquei perplexa de ver na televisão o Ministro da Justiça argumentando ser contra a redução da maioridade penal por não haver vagas nos presídios. Fiquei pasma! Ainda que vagas houvessem, a questão é que reduzir a maioridade penal jamais seria solução para a necessidade da sociedade oferecer aos nossos jovens condições sócio educativas e culturais para que se tornem cidadãos de bem, ao invés de trancafiá-los em presídios. Quem de nós não sabe que com a aprovação dessa emenda sofrerão represálias repressoras os jovens desfavorecidos negros e pobres enquanto os branquinhos riquinhos e perversos se beneficiarão dos estratagemas desonestos para se manterem em liberdade usufruindo dos privilégios que o dinheiro compra? Quem de nós não sabe que a aprovação dessa emenda daqui a 10 anos só terá agravado o panorama de desamparo estigmatizante que vivem hoje os nossos jovens menores de 18 anos? Quem de nós não sabe que o que os nossos jovens e crianças precisam é de garantia de saúde física e emocional, de educação, de condições sócio econômicas dignas?

A desonesta aprovação desta emenda, fere mortalmente a dignidade de todos os cidadãos que trabalham e lutam para que nossas crianças e jovens vivam sob condições sócio emocionais mais justas e humanas. Mas nem tudo está perdido. Amanhã parlamentares que se respeitam vão entrar com mandato de segurança para anular esse vergonhoso resultado. Mas nem tudo está perdido. Pude ver pelo Facebook inúmeras pessoas se manifestando veementemente contra a redução da maioridade penal. Em resposta à arbitrariedade de Eduardo Cunha e seus seguidores, consciências se formam, pessoas se posicionam num movimento social que vai crescendo.

Mas a direita reacionária não nos dá trégua. "É preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte." Desde que abandonei a militância na minha adolescência, política não é mais o meu forte. Não dou conta de acompanhar o noticiário, fico às vezes confusa quanto a que posições adotar, e me tornei muito mais flexível quanto a acolher opiniões diferentes das minhas. Mas fiquei estarrecida ao saber que estavam à venda e sendo propagados adesivos pornográficos misóginos de agressão à presidente Dilma, numa postura de violência sexual raramente vista. Um violento desrespeito a todas as mulheres brasileiras. Não vou aqui entrar no mérito se simpatizo ou não simpatizo com a presidente Dilma. Não é disso que se trata. Numa sociedade que se preza, discordâncias políticas se expressam com argumentos políticos. Não com adesivos pornográficos e sexistas. Isso deveria ser punido como crime. Isso é crime.Eu não simpatizo nem um pouco com a Rede Globo com seu noticiário tendencioso e sensacionalista e fiquei indignada ao saber que Maria Júlia Coutinho, que atua na Globo, foi vítima de discriminação racial. Quando se trata da dignidade humana é preciso que um valor mais alto se levante. Do contrário, é a barbárie.

E pensar que esses tristes episódios aconteceram na semana em que se celebra a Independência da Bahia. Temos muito o que fazer, temos que arregaçar as mangas para falarmos com propriedade em independência. A propósito, estou triste com os acontecimentos na Grécia, antes de tudo, para mim, berço de nossa tradição filosófica. Comecei a ensaiar preparar um trabalho sobre o estado amoroso e para isso estou lendo o Seminário 8 onde Lacan, de certa forma, faz uma homenagem a Sócrates. Uma bela homenagem, diga-se de passagem.

Divagações. De vaga sons. De ondas amenas a alegre notícia do lançamento em São Paulo, no dia 17 de junho, do livro do amigo e grande poeta Carlos Machado, que edita e envia para vocês o boletim poesia.net. O livro de poemas de Machado chama-se "Tesoura Cega". Título no mínimo instigante para os psicanalistas que são chegados a um corte. Não vejo a hora de poder ler "Tesoura Cega". Com certeza, uma excelente contribuição para a literatura do Brasil e do mundo. Na onda das amenidades, saber que a Flip está acontecendo em Paraty, desta vez em homenagem a Mário de Andrade. Ai que vontade de ter ido à Flip!!! Bom também saber que a peça de teatro "A Alma Imoral" voltou a estar em cartaz em Salvador. Assisti no ano passado. É um monólogo de grande qualidade. Recomendo. Tenho um amigo querido que trabalha com teatro que está indo hoje ao espetáculo pela quinta vez.

Nas amenidades da onda, pensar em meus sobrinhos e sentir alegria por eles. Quase todo dia, me comunicar pelo Facebook com a doce Daniela. Dani é o meu xodó. Minha sobrinha mais velha, desde que nasceu, faz as vezes de filha. É a minha filhota por quem sinto grande orgulho. Um contentamento grande de saber que meu sobrinho Leandro Goddinho que vive em São Paulo trabalhando como cineasta, ganhou um prêmio de cinema e está indo morar na Alemanha. Meu reencontro com Íris (Iroca), outra sobrinha querida, aqueceu meu coração e me deixa muito grata. Iroca, que não abre mão de correr atrás de seus sonhos, estará provavelmente defendendo sua tese de doutorado agora em julho. Já ouvi dizer que quando o diabo nos tira os filhos, Deus nos manda os sobrinhos. Que Deus não é de deixar ninguém desamparado. A mim, menos ainda. Que além dos sobrinhos me deu um filho. Hoje está chegando Rafael, meu filho adotivo. Vem para compor uma banca de doutorado. Deve chegar todo feliz da vida com a visita da sua mulher em Porto Seguro.

Pois é. Leitores, amigos e colegas. Ondas tormentosas, graças à truculência arbitrária de um Eduardo Cunha. Mas há os sobrinhos e os filhos, e há, sobretudo, a esperança de com divagações dar uma trégua, para ainda que devagar, mergulhar em ondas mais amenas, e, acreditar num futuro digno e promissor para  nossas crianças e jovens, e para todos aqueles que de alguma forma, trabalham para construir uma sociedade mais justa.
                                                                                                              Marcia Gomes.