domingo, 26 de junho de 2016

05/06/16                                A  CLAREZA  DE  CLARA.

TEXTO DEDICADO À QUERIDA PRESIDENTE DILMA, POR SER MULHER COMO EU SOU, POR TER PASSADO COMO EU, MAS EM PROPORÇÃO BEM MAIOR, PELA DOR NA PRÓPRIA PELE DE VER A SI E/OU QUERIDOS COMPANHEIROS, ULTRAJADOS FÍSICA E/OU PSICOLOGICAMENTE PELA SÁDICA, PERVERSA E IMPUNE VIOLÊNCIA DA REPRESSÃO DA DITADURA MILITAR NO BRASIL.. POR SER AGORA, SEM NUNCA SE FAZER DE VÍTIMA, POR ENLOUQUECEDOR QUE PAREÇA, ALVO DAS MAIS ATROZES VINGANÇAS, RETALIAÇÕES E INJUSTAS ACUSAÇÕES, POR TER LUTADO E CONTINUAR LUTANDO POR UM BRASIL MELHOR PARA CLARA, E PARA TODOS NÓS, AO INVÉS DE DAR UMA PRIORIDADE NARCÍSICA À SUA PRÓPRIA DOR. POR, MOVIDA PELA SUA CAUSA, CONSEGUIR TER UM  INVEJÁVEL EQUILÍBRIO  EMOCIONAL, SEM PRECISAR ESCONDER QUE ESTÁ TRISTE, COISA QUE POR MUITO MENOS, MUITAS DE NÓS NÃO TEMOS. A DILMA, COMPANHEIRA, MINHA HOMENAGEM SENTIDA.

Coisa que não é frequente, escrevo com dificuldade. Depois de um longo tempo, retomo a crônica domingueira. Com medo. Sim, medo. Escrevi no domingo passado a uma corajosa amiga, dizendo que desde o dia 12 de maio, venho querendo voltar a escrever a crônica, contando a minha bonita experiência com Clara (menina de 6 anos, muito querida e sagaz, filha de Jovita, minha empregada doméstica, de inteligência invejável, a quem agradeço por me ajudar a mexer no celular, no controle da Sky, ligar o DVD, etc) em homenagem a Dilma, mas que me sentia severamente inibida, sofrendo mesmo um impedimento pelo medo.

 Sendo eu uma pessoa um tanto contrafóbica quanto a me expor e explicitar publicamente, na maioria das vezes, por escrito, minhas posições, opiniões, sentimentos e principalmente o que chamo minhas convicções inegociáveis, acabo por ter que lidar, muitas vezes, com penosas consequências. Não nego que sinto dor. Sinto tristeza por me deixar funcionar assim, abrindo espaço para um certo volume de críticas, tratamento descortês, exclusão, ironias perversas, investidas que considero covardes de amigos queridos, e, principalmente, por acabar magoando pessoas de quem gosto.

 Por outro lado, sinto muito orgulho por ser assim. Coisa que penso ter adquirido nos meus preciosos anos de militância política clandestina, na organização de Lamarca. Ao tempo em que éramos super reservados e discretos por questões de segurança, entre nós, companheiros, exercíamos uma honestidade e fidelidade rigorosas quanto ao que pensávamos e sentíamos uns dos outros. Embora não pudéssemos dispor de analistas, o obstinado apego à verdade, não nos autorizava a sermos dissimulados, complacentes ou mesmo cegos quanto às questões subjetivas, que perpassavam nosso relacionamento.Todos vocês sabem que na militância, se exercia de forma até muito rígida, a crítica e a auto-crítica e até por razões de sobrevivência, acabávamos por cultivar um afinado senso de observação do outro.

 Dizem que quem muito fala, muito erra. Pra mim, é difícil às vezes deixar de dizer, mesmo correndo o risco de errar muito. E creio que não quero ser diferente. Tenho enorme dificuldade de lidar, com aqueles que a título de se proteger, se calam em momentos graves ou encontram "argumentos nobres de bons samaritanos" para sair pela tangente, às vezes até justificando atitudes pusilâmines. Mas compreendo que cada um é do modo que pode."Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é".

 E afinal, todos nós sabemos que é em momentos de crise como este pelo qual passa o nosso país, que as pessoas se revelam. Provavelmente, terá sido mais fácil, cômodo e oportuno se revelar de esquerda quando, sem maiores contradições, conflitos e enfrentamentos, ocupava o governo um partido de certa forma com essa tendência. Agora é a hora do "vamo" ver. Minha mãe costuma dizer sabiamente : "Um cão danado, todos a ele".Isto é, é na hora que se parece estar fragilizado, que os covardes atacam.

Estou com medo de, com o jeito intenso, passional mesmo, com que abraço minhas causas (vários de vocês são testemunhas da forma apaixonada com que abracei e abraço a causa psicanalítica), carregar nas tintas nas minhas leituras, cometer equívocos de interpretação que ofendam pessoas queridas,( se o faço, a elas peço que me perdoem) ou mesmo, mergulhando com as minhas convicções inegociáveis das quais não abro mão haja o que houver, nas coisas que acredito incondicionalmente defensáveis, ser vista por amigos e, principalmente por algumas colegas psicanalistas, como uma "comunista" perigosa daquelas que comem criancinhas.

Já disse o meu querido Guimarães Rosa: "Viver é perigoso". E eu digo: "Viver sem respeitar o direito em cada um, de ter iguais oportunidades que outros, de se exercer como sujeito desejante, é desastroso." Entre o perigo e o desastre, escolho o perigo. Se isso é ser comunista, eu sou comunista. E, embora sinta desapontar a muitos com isso, não posso lhes pedir desculpas.

Mas nem tudo é medo. Há vários amigos e colegas psicólogos e/ou psicanalistas, companheiros fiéis à luta por um Brasil mais justo e democrático. Deles recebo apoio, textos esclarecedores, mensagens afetuosas e gratas por eu estar junto com eles, na luta. Fico muito feliz por Freud e Lacan, por aqueles companheiros psicanalistas tão legitimamente causados, que compreendem, que lutar por igualdade de oportunidades e justiça social, ao invés de anacrônica extravagância de comunista que come criancinha, é INTRÍNSECO a ocupar o lugar de analista. Condição necessária. Será "analista" aquele que não apreende isso e pensa, que fazer política caminha para um lado, e o fazer analítico, caminha para outro, inconciliáveis?

Mas nem tudo é medo. Felizmente o povo brasileiro se manifesta veementemente dizendo "Fora Temer" e em defesa da democracia. A mídia vendida ao "governo" Temer, quase ou nada noticia. Mas o povo está lutando bravamente. Nossa, isso é tão bonito!! Tão esperançoso, tão alentador!!! Vejo que já escrevi  um tanto e por enquanto, nada contei da história de Clara com Dilma. Das duas, uma. Ou escrevo muito, abusando da paciente leitura de vocês, até chegar ao caso de Clara, ou resolvo deixar para contá-lo no próximo domingo. Vamos ver o que escolho. É que as coisas, nos últimos meses, têm acontecido numa velocidade impressionante e a gente acaba por precisar dizer muitas coisas, sem saber ao certo o que privilegiar.

Estou impregnada por assim dizer, pelo que me aconteceu na sexta-feira passada. Divulguei para todos vocês que nesse dia, haveria às 14:00 h no IML (Instituto Médico Legal) a exibição do documentário "Em Busca de Iara", sobre a vida, o amor por Lamarca, e a morte de Iara Iavelberg, musa da resistência contra a ditadura. Por ignorância, achei o lugar da exibição um tanto macabro. Mas lá fui eu, acompanhada por uma amiga, que tem se revelado uma corajosa companheira. Esse filme, certamente, diria muito da minha própria vida como militante da organização e, por isso, fui pra lá um tanto mexida. Mal sabia o quanto choraria.

Pra começar, fiquei muito feliz de saber que o filme seria exibido lá, por iniciativa de um jovenzinho colega, para minha alegria, psicanalista. Ele, consciente e esclarecido politicamente faz parte do atuante Coletivo de Psicólogos pela Democracia Iara Iavelberg (ver a página do coletivo no Facebook. Tem muita coisa interessante). O jovenzinho psicanalista, que trabalha no Projeto "Viver em Cena" funcionando (pasmem) no IML, ficou curioso de saber por que o Coletivo tinha aquele nome e sobre quem foi Iara.

 Descobriu várias coisas sobre Iara, inclusive da monstruosa (já comecei a chorar) notícia que o corpo daquela linda jovem psicóloga, que estudou e participou das movimentações na Maria Antônia da USP, ficou escondido por quatro meses no IML aqui em Salvador, servindo de isca para atrair Lamarca que, sem notícias da sua amada, provavelmente viria à sua procura, podendo assim, ser assassinado pela patológica perversa repressão fascista, como de fato, aconteceu. Shakespeare, como muitos que escrevem, um visionário com a sua linda e política história "Romeu e Julieta". Como bem diz Roland Barthes, nada mais revolucionário do que o discurso amoroso, cada vez mais banalizado e excluído na feroz sociedade capitalista.

Como já disse, o sensível jovenzinho psicanalista, trabalha no IML no muito interessante Projeto "Viver em Cena", que entre muitas coisas legais (vão até lá, conferir) presta atendimento multidisciplinar a mulheres vítimas de violência sexual. Psicanalista sensível, mexido por assim dizer, pela trágica coincidência (?) "IML", resolveu lá exibir o documentário. Convidou para o debate ao final, a uma senhora do PCdoB de nome, se não me engano, Diva, que tem (sinto, tanto, Diva!!! Você é uma mulher corajosa!! Parabéns!!! Se existisse céu, você iria para o céu) dois irmãos dados por desaparecidos na guerrilha do Araguaia, e, entre outras coisas, participa da comissão "Tortura Nunca Mais".

Graças a mim, graças à vida, é com esse povo, que tenho andado ultimamente (lembram do outro filme que fui ver na ufba e dei meu depoimento de ex-militante?), ao invés de andar me deixando machucar por gente que não pode se responsabilizar por suas próprias escolhas e faz do outro, maltratado perversamente, "bode expiatório" das mesmas. Esse povo com quem volto a andar, felizmente, sabe o que é dor. Sabe como é imprescindível, ter convicções inegociáveis, mesmo tendo que pagar um preço que acaba, sintomaticamente, impagável.

Eu e a minha amiga, sentamos à frente no pequeno auditório. O filme ia passando, e em meu rosto, as lágrimas escorrendo. O rosto lindo daquela jovem psicóloga, me lembrava o rosto lindo da minha companheira Virgínia, também assassinada pela ditadura, e como doía!! A atrocidade da repressão, em vários momentos encarnada pelo sacana Luiz Artur, me fazia pensar, literalmente "eu já vi esse filme." Minha amiga e companheira, firme, do meu lado.

O jargão, com o qual, se eu fosse poeta, escreveria um poema, mais do que uma viagem no tempo, me fazia sentir como se estivesse, de novo, ali dentro: "aparelho", "ponto",  a triste notícia "fulano(nome de guerra) caiu", "desapropriar". O tão familiar hábito de estando com os companheiros batalhando, passar a muito cafezinho e cigarro. A perigosa característica inescapável do discurso amoroso: ser bandeiroso. Sob as mais severas normas de segurança, Lamarca escrevia um diário para Iara, com as mais lindas confissões. Lembro de Neruda, "Vinte poemas de amor e uma canção desesperada". O atroz desespero dos amantes, de não terem como saber quando se veriam de novo.

 Várias pessoas que foram da organização dando depoimento no filme. De repente, sem que eu jamais esperasse por aquilo, aparece no filme o companheiro que era meu "ponto" e fico sem qualquer preparação para aquilo, sabendo (na época não podia saber) que ele era um dos articuladores dos encontros de Iara e Lamarca. Dou-me conta, gravemente emocionada, que estive a poucos metros de Iara, e por ela, nada pude fazer. E a ela, (imerecidamente?) sobrevivi. Que dor insuportável!! Caio num pranto convulso. Iara e Virgínia se misturam. O pessoal, no auditório, sem que eu me surpreenda  com a solidariedade, vem com carinho me oferecer água e trazer lenço de papel.

A criminosa, inqualificável, monstruosa maldade de dar como "suicidada" aquela linda jovem judia, que sendo "suicida" não podia ser sepultada como os demais. Por pouco, também meu pai, não poderia ser sepultado como os demais. Cumpridos alguns anos de sepultura provisória, seria jogado na vala dos indigentes. Confesso, talvez ressentida, sinto um ódio repugnado dessas pessoas que não sabem o que é sofrimento e que vivem se queixando "minha meia rasgou na festa. Meu Deus, como faço com esse mico?"

 A linda, obstinada, incansável investigação de familiares e companheiros do que de fato aconteceu na morte de Iara. "Em busca de Iara". Iara, companheira, você está aqui comigo.  E daqui, nunca saia.  Que me importa, que alguns "psicanalistas" digam que estou fazendo uma identificação masoquista e melancólica com você? Por favor, Iara, nunca deixe de me fazer companhia na minha coragem, e inteireza de caráter. Como você, que foi desqualificada como suicida, também, nunca jamais nas mesmas proporções, sou dada como aquela que abandonou seu emprego, irregularmente, aquela que levantou calúnias sobre amigos. Quem, entre amigos e familiares, se daria ao trabalho de investigar o que de fato aconteceu? Ninguém. Os tempos são outros. Onde, os fiéis companheiros de organização?

Quando, durante o filme, aparece o médico simpatizante da causa, já bastante idoso, aos prantos, contando que foi procurado por Iara, porque ela estava com dificuldade para engravidar, o que queria muito, tenho outro momento de choro convulso. Que coisa linda!! Que coisa nobre!!! Que irresponsável pulsão de vida vibrando naquela mulher, naquela heroína!!! Sou uma privilegiada de ter vivido tão perto de você, ainda que não soubesse, Iara !! Ai, o filho que não tive, ainda que tenha Rafa. Como dói, o filho que não tivemos, Iara!!

Ao final do filme, começa o debate. Diva (será mesmo esse o nome daquela senhora do "Tortura Nunca Mais"?) se emociona e fala um bocado. A interrompo, pedindo para dar meu depoimento, pois tinha hora marcada para sair. Com os olhos inchados, conto da minha militância. Conto da versão que recebi da morte de Virgínia. Ela estava indo com um companheiro, num jeep velho no qual muito andei, fazer um trabalho de panfletagem na região onde fica hoje a Av. Suburbana. Devíamos estar entre 68 e 70. Por aí. A polícia passou a seguir o jeep numa perseguição desenfreada. O companheiro tenta correr o mais que pode. O carro da polícia bate no jeep e Virgínia ( ai, que saudade, minha companheira!! Com que direito sobrevivi a você?) é lançada pra fora do jeep tendo um traumatismo craniano. Seu corpo foi entregue à família, sob a alegação de que houve um "acidente".

Diva me pergunta se fui perseguida, como não fui presa. Conto que meu nome passou a fazer parte de uma "lista negra" e por isso,  tive que me afastar um tempo do Manoel Devoto, onde era presidente do grêmio. Aí muito emocionada, conto, que fui escondida por uma espécie de pai substituto, que me chamava brincando de "cabeça de motim". Era um juiz de menores, patrão de minha mãe, sua escrivã. Choro muito e com muito orgulho, digo seu nome: Armando Augusto Góes de Araújo. Meu querido e saudoso Doutor Armando, pessoa inigualável, salvou muitos e muitos menores do camburão e de serem assassinados. Gostaria muito (estou aos prantos) que seu nome constasse de algum registro daqueles que lutaram contra a ditadura. Com muita coragem, peitava os delegados sacanas e os filhos da puta do DOPS. Como meu pai não podia ir, me acompanhou ao funeral de Virgínia. Meu querido Doutor Armando, não resistiu à dor da perda de um filho e logo após, morreu de um infarto fulminante. Como pensar que não existe céu? Senão, para onde terão ido Iara, Virgínia, Doutor Armando?

Finalmente, acontece talvez a coisa mais bonita da minha experiência com o filme. Estando eu de saída, Diva me convida para depor no "Tortura Nunca Mais". Digo que irei com toda a certeza e lhe dou meu cartão. Saio com minha amiga que me dará uma carona. Por conta de experiências de infância, o que mais me machuca, magoa, dói, nas minhas relações interpessoais é sentir que não há "empatia" por parte do outro. Sentir que o outro não pode, não quer, não é capaz de "intuir" o que estou sentindo, me deixa numa inapelável solidão. Isso para mim é muito mais penoso do que uma grosseria, uma observação de mal jeito, coisas que faço muito. Alguns amigos dizem que sou pessoa de muito difícil compreensão, que sentem como se não me conhecessem. Faço outra leitura disso.

Outro dia, veio um amigo à minha casa, sabendo ele que eu estava com vergonha , por ter uma casa pobre, imaginando, que muito provavelmente pelas posições que ocupa, ele deve ter uma casa rica. Ao chegar, ele elogiou muito a arrumação da casa. A uma certa altura, convidei-o para ir à cozinha pois iria assar um pão de queijo. O meu fogão é automático. Estando com ele na cozinha, acendi o forno. Aí ele me perguntou :" já acendeu?" Eu disse: "já". Aí ele comentou : "estou perguntando porque não percebi. Porque o da minha casa é de acender com fósforo." A isso eu chamo sensibilidade. Quero tê-lo como amigo para sempre. Esse é daqueles que sabe o que é dor, para além de "a minha meia rasgou na festa. Meu deus, como sobrevivo com esse mico?"

Por outro lado, quando fui ver Rafa em Porto Seguro, estando duríssima de grana, tanto que foram seus pais que custearam tudo da minha viagem, (Rafa também sintoniza muito bem comigo pela sua sensibilidade. Por isso o tenho como filho) muito carinhosamente comprei um móbili feito pelos índios muito bonito e também muito barato, para presentear a netinha de uma amiga queridíssima, por quem tenho enorme gratidão. Quando encontrei com sua filha, esta, muito socialmente, agradeceu o presente. Mera formalidade. Ao que a minha amiga acrescentou sem a menor intenção de me ofender: "mas quem gostou mesmo do móbili, foi o gato". Acho que sou sensível por demais. Ou então, tenho, como se costuma dizer, "complexo de inferioridade".

Voltando ao filme e às questões de sensibilidade, a minha amiga, que tem se revelado uma companheira pra valer, corajosa e solidária, ao sairmos do filme para pegar o carro, me fez uma pergunta. Relativamente temos poucos anos de amizade. Ela já defendeu posições mais à direita, bem mais à direita do que defende agora. Assinou o manifesto nacional dos psicanalistas, divulgou para um monte de gente o Ato dos psicanalistas ocorrido na USP, gritou entusiasticamente "Fora Temer" num evento a que fomos no TCA .

E, o que mais me comove, a pedido meu, me acompanhou a um evento ao qual receei ir sozinha, confesso, assustada que eu estava com o "virar de cara", tratamento descortês, ou mesmo o tático silêncio cortante de colegas psicanalistas em geral de elite, posicionados à direita e que se sentem ofendidos com minhas posições, não podendo falar sobre isso, claramente. 

 A pergunta: "você não fica muito mal, muito mexida, quando vem a esses eventos? Não é muito desgastante para você?". Eu respondi que não estava mal. Estava comovida e um tanto machucada por ter sobrevivido a tantas pessoas de valor. Acrescentei que considero minha obrigação, o mínimo que posso fazer, comparecer e dar meu depoimento. Ela escutou (escuta que não é dar ordem do ouvido, órgão dos sentidos. Tem gente que pensa que escuta é somente isso) e não me refutou, acreditando em mim. Isso pra mim não tem preço.

 Fomos pelo caminho conversando sobre o filme, eu dizendo do enorme impacto que teve sobre mim, reconhecer no filme o companheiro com quem fazia "ponto". Quando chegamos ao Shopping Salvador, onde ela me deixaria, ela pegou carinhosamente na minha mão e me disse: "Quando você for depor no "Tortura Nunca Mais", eu vou com você." Nesse momento pós GOLPE, ando com meu lacrimódromo a mil. Chorei tanto que não pude entrar no Shopping.

 Descobrir que em meio à luta, respeitando o tempo de cada um, sem com isso termos de deixar de nos posicionar, sabendo que o outro acolhe a diferença, sem narcisicamente tomar como ofensa,menos ainda sem fazer proselitismo de bom samaritano, sobre o que é ou não democrático, olhando com respeito  alguém que sofreu uma experiência de militância com uma dolorosa perda, em plena ditadura militar, é que se constroem companheiros. Resgatei uma amizade muito importante, com pessoa sensível e de valor de uma forma muito bonita. Se ela puder, já sei com quem quero passar meu aniversário no dia 19. É com esse tipo de gente que tenho escolhido andar.

E aí, gente, acho que para alguns, contei uma história bonita. Para outros, pouco importa. Para outros tantos, mereço desprezo. Que graça teria, se não fosse assim? O importante é a gente, teimoso, não insistir masoquisticamente, naquilo que não dá mais certo. Tomara que meu amigo do fósforo no fogão, me leia. Não quero abusar da atenção de vocês. Então, a linda lição que me foi dada por Clara,  no dia muito triste em que foi votada no Senado a saída de Dilma, fica para a próxima.
                                                                              Um abraço,
                                                                         Marcia Myriam Gomes. 

domingo, 24 de abril de 2016

03/04/2016                                                         AMOR À "COLOMBAIANA"

Olá, leitores da crônica domingueira,
Quem de vocês quiser saber melhor quem é Rafael e como ele entrou e participa da minha vida, leia a crônica intitulada MATERNAGEM datada em 04/05/14 e que pode ser encontrada no meu blog cujo endereço é blablablazista. blogspot.com.br  Aqui estou eu novamente escrevendo textos autobiográficos.

DEDICATÓRIA: Esse texto, é dedicado à querida Denise Coutinho e a Naomar Almeida Filho, porque o amor a um filho goza da propriedade transitiva.

"O Porto segura esse mar de amargura e devolve a doçura". Escrevi eu em 1993 no que viria a ser uma espécie de livro contendo diálogos que retratam uma dolorosa experiência amorosa que vivi, razão pela qual precisei retornar de São Paulo para viver definitivamente em Salvador, em 1991. Dois anos depois do meu retorno, escrevi parte da espécie de livro em Porto Seguro, para onde viajei em férias. Escrita, para tentar finalizar meu luto daquela relação tão conturbada, devastadora mesmo, que teve o seu traumático THE END com uma suposta viagem do outro a Porto Seguro, ou, melhor dizendo, para ser mais precisa, ao Arraial D'ajuda. Nossa, como podem as palavras ser tão irônicas? Irônicos somos nós no seu manejo. N'ajuda, estacionou para nunca mais o personagem bíblico invejosamente assassinado pelo irmão.Pelo menos nesta história aqui, ninguém foi assassinado. Só gosto de brincar com nomes.  

Quanto mais escuto meus pacientes, quanto mais sou escutada, mais me encanto com a Psicanálise desenredando sem de todo poder desenredar, a armadilha tecida, espécie de cama de gato dos nossos lapsos e esquecimentos bandeirosos. Acabei de ir e voltar de Porto Seguro passando também pelo Arraial D'ajuda numa viagem maravilhosa da qual voltei chorando muito, e só me dei conta que esses lugares têm relação com aquela terrível experiência amorosa e seu final, agora, neste momento em que sentei ao computador para escrever. Parece que finalmente estou curada. Sim ou não? Por que então,chorei aos prantos na despedida no aeroporto lá, e por mais algumas horas seguidas? Sim, estou curada. Já não era sem tempo, não é? É que o tempo é sem tempo e do desamor só indo à procura do amor. Procura. Pró cura. Rafa, Marina, Memo (Guilhermo) e Jéssica me devolvendo a doçura. Rafa, Marina, Memo (Guilhermo) e Jéssica, meu porto, segurando toda a amargura. Estou segura tanto quanto o porto, que todo aquele choro foi mesmo de saudade da experiência tão amorosa que vivi naqueles encantadores dias da Semana Santa, junto a Rafael, meu filho adotivo temporão e colombiano, melhor seria dizer"colombaiano", Marina, sua mãe, Memo (Guilhermo), seu pai, ambos colombianos, e Jéssica, a linda parceira amorosa de Rafa, baiana de Itororó vivendo no Arraial. 

Gosto de pensar que bem viver é deixar correr o barco da surpresa. Quem quer a tudo controlar, acaba controlado por tudo. Não é que em pleno palco da descoberta, descobri que mal conheço meu filho? Conheço. Mas seu afeto por mim e sua generosidade comigo e seus entes queridos, vão muito além do que eu pudesse ter imaginado. Foi uma bonita novidade saber que nos anos em que convivemos juntos na minha casa e nos períodos que ele vem para estadas mais curtas, não comenta certas coisas por discrição. Mas é muito atento e observador e muito sabe sobre mim. Na sua companhia sempre me senti muito à vontade, por sermos íntimos sem invasões de intimidade. Mas confesso que não imaginava que ele conhece muitas pequenas coisas sobre sua mãe brasileira.E deixa para usar esse bem saber na hora certa, para bem recebê-la como um cavalheiro respeitoso de uma senhora mais velha. Rafa e seus pais me deram essa viagem de presente. E lá estavam todos no aeroporto me esperando com sorrisos estampados nos rostos. Ser recebida no aeroporto por gente querida, particularmente quando se vem de momentos pessoais um tanto doídos, é para mim de uma beleza muito comovente. Não tem preço.

Já os conhecia a todos. Marina e Memo já estiveram em Salvador há anos atrás e Jéssica esteve mais recentemente. Além disso, Marina e eu nos comunicamos, mesmo estando distantes. O abraço caloroso de Marina desfaz qualquer esboço de cerimônia. Na verdade eu não sabia a quem primeiro abraçar. E foi uma profusão de abraços. Como era de se esperar, algumas lágrimas marejaram meu rosto. Rafa diligentemente logo pegou minha bagagem e nos dirigimos para seu carro que eu estava conhecendo naquele momento. Então veio a primeira tocante e um tanto desconcertante surpresa. Eles haviam decidido juntos  (famílias unidas e harmoniosas tomam decisões todos juntos) que durante a minha estada na casa de Rafa em Porto Seguro, eu ocuparia o lugar da frente do carro como um cuidado com a minha coluna. Não adiantou eu protestar. Afinal Marina tem minha idade e Memo é um pouco mais velho. Além disso, tinha Jéssica, com direito a assento junto do seu amado. Não adiantou eu protestar. Além disso, toda vez que eu entrava ou saía do carro, um deles vinha me auxiliar na acomodação do corpo. Muito comovida, comecei a perceber que o fato de eu ser a mãe brasileira de Rafa, me colocava numa posição de especialidade para aquelas pessoas simples, boas, sensíveis e gratas.

Marina, ao invés de ser competitiva e ter ciúmes da minha relação com Rafa, é generosamente grata. Me disse que grande parte da personalidade brasileira de  seu filho e de suas conquistas aqui, eles devem a mim. Imaginem vocês, que imensamente desprendida inversão de papéis. Sou eu quem agradece à vida ter colocado para morar comigo esse filho tão afetuoso, inteligente, sociável, de excelente caráter, aplicado a seus estudos e  profissional brilhante. Eu nada fiz por ele, a não ser recebê-lo com carinho. O  resto ele trouxe, por ser como ele é, tendo uma família tão harmoniosa. Fiquei muitíssimo bem impressionada
com o orgulho que esses pais expressam, valorizando muito a competência e as conquistas profissionais de seu filho. Todos nós sabemos o quanto isso é importante e o quanto dói, quando falta. Aliás, Marina não tem mesmo porque ter ciúmes de mim. Ela e Rafa têm uma relação estabelecida por laços amorosos muito estáveis e muito valiosos. Então conseguem bem administrar a entrada de uma mãe brasileira no meio de campo. Ela disse muitas vezes da imensa alegria que sente em "compartir" esse filho comigo. Memo, mais reservado, menos falante e extremamente observador, com impressionante orientação espacial, tem o mesmo discurso. Ele é uma pessoa adorável.

Quando chegamos do aeroporto na linda casinha de Rafa, outra surpresa pra lá de desconcertante e comovente. A casa de meu filho é bem a cara dele. Por ficar numa espécie de village e ser térrea, parece ser ao mesmo tempo um apartamento e uma casa. Local extremamente silencioso, rodeado de jardim bem cuidado, é um quarto e sala com suíte, cozinha e mais outro banheiro social. Mobiliado com bom gosto, num estilo mais artesanal. Por sermos cinco pessoas em um quarto e sala, eu fui, muito tranquila para Porto Seguro disposta a dormir num colchão na sala, de modo a deixá-los acomodados para dormir do modo que pudesse ser mais confortável, principalmente para Marina e Memo. Aí veio a surpresa muito desconcertante, uma dádiva de amor talvez jamais recebida onde quer que eu tenha me hospedado. Eles haviam decidido juntos (famílias unidas e harmoniosas tomam decisões todos juntos) que eu me instalaria no quarto de casal com banheiro de Rafa e Jéssica, Marina e Memo no sofá da sala e Rafa e Jéssica iriam dormir no Arraial. Fiquei pasma com a inesgotável reserva de amor daquelas pessoas. Por isso meu filho é tão especial. Protestei veementemente mas não teve jeito. Estava decidido, não sei o por que,que estava reservada para mim uma estada em Porto Seguro como se eu fosse uma rainha.

E assim foi. Rafa havia contado a eles sobre todas as manifestações de carinho que eu havia feito a ele, desde quando nos conhecemos, até agora. Disse o que eu gosto de comer no café da manhã, das minhas restrições alimentares e o que eu gosto de vestir quando estou em casa. Tipo de roupa que eles me presentearam, além de outros presentes. Recebi também um presente de Nelly. Adorável amiga da família que se hospedou em minha casa quando minha mãe estava para se submeter a uma mastectomia. Na ocasião Nelly, junto com Rafa, ao invés de passearem em Salvador, resolveram cuidar de mim. E um dia em que eu estava abatida e triste com a doença de minha mãe e a arrasadora dinâmica da minha família, Nelly me acompanhou ao consultório e ficou na sala de espera velando por mim enquanto eu atendia os pacientes. Estou chorando. Os "colombaianos" têm qualquer coisa que ninguém mais tem que aciona o nosso lacrimódromo e nos faz até fantasiar que pode ser que algo como Deus até exista. Fazem sobretudo eu acreditar que eu sou uma pessoa boa que tem muito valor.

A propósito de Deus, Marina e eu tivemos um divertido mal entendido linguístico. Havia alguns momentos em que Rafa não estava presente para traduzir. Eu não falo Espanhol e ela não fala Português. Mas nos entendíamos. Parece que quando há amor e paciência para falar devagar, todos se entendem seja qual for a língua, mesmo cometendo alguns escorregos  no "Portunhol". Sabendo eu que a mãe de Rafa é muito religiosa e vai à missa todo dia e que Rafa não está ligando pra isso, no sábado de Aleluia me ofereci a Marina para acompanhá-la à missa no domingo de Páscoa. Eu entendi que ela aceitou, e de fato foi mais ou menos assim. Só que ela entendeu que ao invés de eu estar me oferecendo para obsequiá-la, eu estava pedindo para ir à missa e que isso era muito importante pra mim. Na manhã do domingo eu acordei depois das oito e combinamos de tomar um táxi que nos levasse a uma igreja nas imediações onde houvesse missa. O taxista foi logo informando que as missas são mais cedo e que àquela hora não havia mais. Mas se ofereceu para nos levar á Igreja de São Sebastião para fazermos orações. Fomos. Quando voltávamos para casa, ela disse :"Marcia, que pena que nós planejamos mas você não conseguiu assistir à sua missa. Eu assisto a minha todos os dias na televisão às 6:30 h da manhã. Por isso não me importei de não encontrarmos na igreja". Eu sorri comigo mesma e não quis desapontá-la quanto a seu entendimento do Portunhol. Sorrindo, eu contei o episódio a Rafa que também sorrindo virou-se para ela e disse: "Mas minha mãe, você queria levar Marcia, logo à missa?" Foi aí que ela não entendeu nada.

Rafa e eu nos entendemos muito bem quanto às nossas afinidades gastronômicas. Consideramos um ao outro com ótimo faro para descobrir comida de boa qualidade, seja num restaurante francês ou num boteco. Não é pra menos. Marina cozinha maravilhosamente bem e eu pude experimentar. Ainda hoje sinto saudades das maravilhosas arepas com queijo no café da manhã. Os almoços em casa foram ótimos e eles me convidaram a ir a restaurantes maravilhosos. Pude comer um genuíno Pastel de Belém, feito mesmo à moda portuguesa. Toda a família sentia prazer em me proporcionar alegrias. Meu coração se enchia de júbilo cada vez que Rafa encontrava um conhecido na rua e me apresentava como sua mãe brasileira.

Porto Seguro é uma cidade linda com praias maravilhosas e felizmente, mudou muito pouco de 1993 para cá. Passeamos muito e tomamos gostosos banhos de mar. Uma outra coisa divertida, aqui no caso mais para mim e Jéssica, era quando eu tirava a saída e ficava de maiô exibindo com vergonha a minha pelancaria. Ríamos muito. É que com mais de 60 anos perdi 15 quilos em 3 meses sem fazer atividade física. Haja pelanca! Em Trancoso, aquele monumento de beleza, eu abaixei sem querer para escolher um presente e tornei a torcer a coluna traumatizando o nervo. Aí então eles se desdobraram em cuidados comigo. Quando estávamos em casa me colocavam na cadeira de estudos de Rafa e não me deixavam levantar para fazer nada. Quando saíamos, Marina me apoiava num braço e Memo me apoiava no outro para eu não perder o passeio.

Memo e Marina são pessoas muito inteligentes. Têm curiosidade pelas coisas, muito comportamento exploratório, sentem prazer em aprender. Respeitam e se orgulham do status intelectual do filho mas não se furtam a fazer uma interlocução com ele. Eles trocam. Nossa, isso é tão bom! Uma noite quando Rafa já havia saído com Jéssica, Memo, Marina e eu, quase que por acaso começamos a assistir na televisão o filme "A Menina que roubava livros". Fiquei impressionada com a facilidade com que com poucas pistas eles eram capazes de antecipar o que iria acontecer no enredo. A partir de uma certa altura estavam decodificando as legendas em Português.

Jéssica é uma moça muito especial. É linda, sem fazer ostentação por isso. Parece uma modelo. Admiro muito nela o respeito que tem por seu parceiro. Eles não disputam, sem que por isso ela seja submissa. Ela é na dela. Não é de falar muito, sabe escutar.Tem uma sábia simplicidade e é muito atenciosa comigo.Cada vez que eu entrava no mar ela me acompanhava para ajudar na caminhada na areia. Estava sempre atenta ao que eu podia estar necessitando.Foi muito respeitosa da relação de Rafa com seus pais. É uma mulher batalhadora que trabalha de dia e estuda na universidade à noite. Estou muito contente com essa escolha amorosa de meu filho. Fico muito à vontade com ela e tenho prazer em recebê-la em minha casa.

A Semana Santa acabou. Saí de Porto Seguro muito feliz por ver meu filho tão bem encontrado, profissionalmente também (ver dedicatória). Ele sabe se fazer amar onde chega. E dá sorte, o danado!! De encontrar pessoas bonitas em seu caminho. (ver dedicatória) Não é só sorte. É que sabe escolher. Saí de Porto Seguro abastecida de amor, me sentindo uma pessoa boa que faz bem ao outro. Nossa, como estava precisando disso agora. Acho que preciso aprender com meu filho a buscar o amor daqueles que têm amor pra dar. Por mais que doa não ter o leite, não se tira leite de pedra. E há pessoas pétreas........

Enfim, chegamos ao aeroporto de Porto Seguro. Hora de voltar pra casa, hora de não poder conter o lacrimódromo. Rafa não podia esperar até a hora de meu embarque. Jéssica estava no trabalho. Marina (63 anos), uma mãe colombiana que não fala Português, Memo (68 anos), um pai colombiano que não fala Português, ambos numa cidade estranha, num país estranho, já haviam decidido em casa que permaneceriam comigo no aeroporto até o avião sair. Depois pegariam um táxi para voltar para casa. Ela me compra a última coca-cola fora da dieta e coloca um pedaço de torta de frango em minha bolsa. Penso na minha mãezinha. Muita saudade da minha mãe. Como me dói a saudade da minha mãe!! Memo toma uma cerveja e faz elogios à simplicidade de Jéssica. Eu chorando como se a minha mãezinha fosse um frágil filhote de passarinho precocemente expulso do ninho. Eu chorando da mais pura gratidão. Seguro a mão de Marina, seguro a mão de Memo, nos beijamos no rosto. Entre muitas lágrimas, só consigo dizer "Muchas gracias!" e bem baixinho: "Pelo amor à Colombaiana"!
                                                                             Marcia Myriam Gomes.

 

sábado, 2 de abril de 2016

20/03/16                                             O  POVO  NÃO  É  BOBO

Os meus escritos têm se ausentado no sótão de uma alma melancólica que se aflige com a indagação conflitiva quanto a se cabe ou não me expor em relatos que muitas vezes ganham uma talvez indiscreta tonalidade autobiográfica. Cabe ou não cabe me expor contando casos que passeiam por fatos que aconteceram em minha vida, mesmo que revestidos de acréscimos ficcionais que conseguem camuflar a questão da veracidade, burlando as possíveis investidas de curiosos a cutucar o que se passa ou não se passa comigo?

 Também me pergunto: "Que importância tem isso, diante do recente veloz carrocel de acontecimentos tão relevantes socialmente como a grave crise política que atravessa nosso país? Que importância tenho eu, a minha pessoa, se me revelo para você, o outro leitor?" Não sou nenhuma personalidade. Sou uma, entre muitos outros e o que me acontece pouco repercute no que acontece no mundo. De mais a mais concordo com aqueles que defendem que qualquer escrito acaba por ser autobiográfico. De mais a mais não sou positivista para me interessar por saber se relatos são ou não fidedignos. Do ponto de vista de quem escreve, tudo é ficção. Do ponto de vista de quem lê, tudo não passa mesmo de somente leitura.

 Então por que ausentar os escritos no sótão? Somente porque trabalho exercendo uma função onde aquele que recebe o meu ofício o mínimo deve saber de mim, ainda que tudo que saiba de mim seja sempre ficção. Outro dia, uma colega psicanalista perguntou que pseudônimo uso. Por que não pensei nisto antes? Agora é tarde. Todo mundo já sabe que o "Blá,blá,blá...." é de minha autoria.Mas medito filosoficamente sobre isso.

Os meus escritos têm também e principalmente se ausentado nos confins de um corpo molestado por dores lancinantes de vísceras espasmódicas e silentes. É um gemido recusado de vísceras espasmódicas. Nos últimos vários meses contei tanto a meus leitores sobre este corpo adoecido, até não poder mais escrever e então parei de contar. Deliberadamente passei a evitar falar deste assunto até com meus amigos. Não quero entediá-los e quero menos ainda que alguns desses amigos me perguntem sobre esta questão que até hoje, quando escrevo este texto, vinha partilhando somente com os mais íntimos.Mesmo alguns desses mais íntimos, passam a nos evitar se dizemos que estamos com a saúde abalada. Às vezes até sorriem de ironia, talvez esquecidos que já são ou serão sessentões e que nenhum de nós, por melhor que se cuide, está livre de padecer sofrimento físico e/ou psíquico, quando o implacável passar do tempo começa por fazer os músculos irem se despedindo dos ossos, fazendo surgir  a "pelancaria". Para quem perde muito peso então, nem se fala....

Além do mais, reza a etiqueta, essa coisa cujas regras  muitas vezes têm origem elitizada, algumas das quais assim mesmo prezo,  quando prescrevem convivência mais respeitosa e civilizada, que lugar para se falar de doença é a sala do analista. Felizmente há ainda amigos íntimos e mesmo nem tanto, que mesmo sendo muito educados e gentis no trato social, exercem com generosidade o papel de nos perguntar pessoalmente, por e-mail ou por telefone, como estamos de saúde e até a oferecer ajuda. Há um monte deles. Mas há também aqueles que desaparecem sem dar explicação, de alguma atividade que fazíamos juntos. Vai ver que essa coisa de falar de doença ou mesmo partilhar assuntos pessoais com alguém que se supõe amigo, na opinião de alguns não passa do inoportuno cacoete de pobre. Às vezes parece, nesse capitalismo selvagem e globalizado, ser cada vez menos de bom tom se mencionar dor e sofrimento. Quem quiser que procure os recintos fechados de seus analistas. Se é que tem coragem de contar que sofre a um analista. Quem sabe não acha uma despesa supérflua?

 Ainda esta semana estive duas vezes na emergência hospitalar, sozinha. Faço questão de ir sozinha. Não quero testemunhas. Espero até que essa dor possa falar. Por certo o ouvinte será muito bem escolhido. Pois parece estarmos num tempo em que mal se tolera falar de mazelas do corpo e da alma. Nesses tempos tenho pensado muito respeitosamente numa amiga que sofre protestos do corpo e, muito contida, poupadora do outro, sobre os quais pouco fala. Tenho tentado aprender com ela. Sobre tal impedimento da escrita, não posso exercer controle.  Se acumulam os impedimentos. Só não os permito quanto ao meu principal trabalho. De resto, são textos por ler e escrever, coisas por arrumar, providências a tomar, a casa por administrar, supermercado por fazer, remédios a comprar, e-mails a responder. Procrastinar, procrastinar, procrastinar. Como se como Hamlet, eu fosse um cúmplice edipiano de um tio assassino. E o constante receio de não poder usufruir da minha próxima viagem na Semana Santa, que me foi generosamente presenteada por meu filho adotivo.

Mesmo assim, com todo esse queixume e as vísceras queimando como se estivéramos no Inferno de Dante, mesmo sem que me dessem trégua, abri exceção para as dores para comparecer há dias atrás à manifestação de homenagem a Marcus Vinícius, meu colega psicólogo militante em defesa de minorias oprimidas, cruel e covardemente assassinado provavelmente numa emboscada. A homenagem foi linda. Sem a preocupação moralista de dissimular a pessoa de difícil trato que era esse meu companheiro de Facebook no Movimento Luta Antimanicomial, vários setores progressistas da sociedade, inclusive os pacientes por ele defendidos e que frequentam serviços de saúde mental sem os grilhões aprisionadores dos manicômios, se manifestaram criativamente com performances dançantes, peça de teatro de seu ex-alunos estagiários na Ufba, vídeos, murais com falas e poemas de Marcus, etc. João Carlos, o esclarecido, sensível e brilhante filósofo reitor da ufba, fazendo muito bem em quebrar o protocolo, leu um poema em homenagem a um poema de Neruda que calou fundo em todos aqueles que lá estavam por reconhecerem o valor de Marcus Vinícius e expressarem indignação por seu selvagem assassinato.O auditório da reitoria estava lotado. Muitas pessoas comovidas que como eu choravam.

Mal sabia eu naquele dia que outro movimento social de muito maior envergadura mas de certa forma de espírito semelhante, como que por milagre, pelo menos por algumas entusiasmantes horas, me faria em nome da causa, recalcar por completo as minhas insuportáveis dores. Estou falando da manifestação aqui em Salvador ocorrida no inesquecível dia 18 passado, em defesa da preservação dos direitos democráticos conquistados nas urnas pelo povo brasileiro e, portanto, contra o golpe que vem sendo ensaiado por setores da classe dominante, inconformada e raivosa com as conquistas das camadas populares nos últimos governos.

A título de esclarecimento vou logo adiantando que não sou filiada ao PT. Tenho um passado de militância de esquerda contra a ditadura estabelecida com o golpe de 64, fui líder estudantil secundarista, quando me desencantei de filiações a organizações e partidos, sem contudo  nunca deixar de ser de esquerda, fiel à minha humilde origem de classe e homenageando a memória de meu pai, simpatizante dos comunistas. Na universidade participei do movimento estudantil sem ocupar cargos, auxiliando na luta dos companheiros que estavam mais à frente. Mais tarde, vivendo em São Paulo, tenho orgulho de dizer que acompanhei de perto a impressionante trajetória política do brilhante ( inteligência muito pouco tem a ver com carreira acadêmica) Lula, de líder sindical até presidente da república. Participei da histórica manifestação "Pelas Diretas Já".

Acompanho com tensa atenção o desenrolar dos dramáticos acontecimentos na conjuntura política nacional, através de artigos de cientistas políticos, juristas, jornalistas, etc, esclarecidos e progressistas que recebo de amigos também progressistas, alguns simpatizantes de Dilma, Lula e o PT. Repasso muitos desses artigos a colegas psicanalistas e amigos abertos a receber informação honesta, competente e bem fundamentada. A não ser com pessoas do povo como alguns motoristas de táxi, empregadas domésticas, porteiros de edifícios, etc, que infelizmente só têm acesso à informação da mídia vendida aos poderosos, não me disponho a discutir política com pessoas a favor do golpe e contra a preservação das liberdades democráticas duramente conquistadas nas urnas pelo povo brasileiro.

 Sentindo-me um tanto macaca velha em assuntos dessa ordem, me reservo o direito um tanto pessimista de acreditar que pessoas que se posicionam à direita, assim o fazem, não por ingênua falta de esclarecimento político que uma boa discussão resolveria, mas por estarem claramente na defesa dos interesses da classe dominante à qual pertencem ou almejam pertencer. Prefiro me calar, não gastar meu verbo com essas pessoas, algumas das quais respeito como amigas, colegas profissionalmente competentes, a cuja opinião têm direito, sendo a mesma de ordem ideológica. Considero que posso ter boas relações com algumas dessas pessoas em vários aspectos da vida implicados no laço social, menos a política. Diante delas prefiro silenciar a esse respeito e repudio veementemente aquelas que se comprazem numa alegria sádica com o que vem acontecendo no nosso país, torcendo pelo "Quanto pior, melhor".

Não quero aqui, como faz a Rede Globo, numa vergonhosa campanha fofoqueira de leva informação de grampo privilegiadamente recebida, de disse que disse,  não escapando aos comuns dos espectadores a observação de estar com o propósito sem ética de enredar a opinião pública numa trama perversa de interesses tendenciosamente a favor do golpe, cair na equivocada posição de dizer "esse não tem razão", "não, não é esse, é aquele que tem", "esse é corrupto porque teve dinheiro para comprar isso e aquilo" e asneiras como tais.  Não quero sequer dizer "Dilma ou Lula têm ou não razão". Como já disse, não sou filiada ao PT e, com certeza, a seus filiados não falta senso crítico para admitir que os seus governantes, além de acertos, cometeram também equívocos. O que mais importa agora a todos nós,  brasileiros, é que um valor mais alto se levanta. A democracia. Por isso, como alguém que teve uma longa trajetória de luta contra a ditadura e fez questão, de, mesmo seriamente doente, comparecer com toda a garra à manifestação do dia 18, quero contar a vocês, meus leitores, que não sei agora que posições políticas assumem, o que eu vi lá.

Eu vi, em uma das poucas vezes na minha vida, uma numerosa (no mínimo 100.000 pessoas), expressiva manifestação política alegre. Alegria. Essa é a cara de uma manifestação política, mesmo em tempos tensos, que ocorre sob a égide de um Estado Democrático. Era majoritariamente o povão que estava lá. Tinha gente com todos os matizes de cor de pele. Felizmente, muita gente negra. Alguns, desdentados. Senti-me em casa. Sou uma psicanalista de classe média-média, quase pobre. Como muitos de vocês sabem, deixei de ser uma terapeuta abastada para me iniciar na psicanálise com todas as perdas que isso às vezes implica. Sou recém-chegada no mercado, arcando com despesas a pagar nem tão barato assim, pela minha formação e minha análise. Também, faço questão de que tenham também acesso ao meu consultório pessoas economicamente menos favorecidas. Então, sem tristeza, arco com a perda de alguns dentes que não pude ainda repor. Melhor sem dente do que elitista, sem ética e competência.

Embora majoritário, não estava lá só o povão. Muita gente da classe média progressista. Encontrei colegas psicanalistas, psicólogas minhas ex-alunas da Ufba, profissionais liberais das mais variadas áreas, professores, funcionários públicos, muitos sindicalistas, gente de todo tipo cheia de esperança e entusiasmo, gritando palavras de ordem como "Não vai ter golpe, vai ter luta!" "Lula, guerreiro do povo brasileiro!" . Havia muita batucada, música, bandeiras, adesivos, camisas vermelhas, cartazes com dizeres às vezes divertidos, todos numa comovente convivência pacífica, nem o mínimo sinal de violência. Todos eram gentis uns com os outros e embora fosse uma gigantesca multidão, ninguém atropelava ninguém. Todos muito cuidadosos ao dar passagem, contrastando escandalosamente com o que vi no carnaval onde os cordeiros dos blocos, recebendo R$ 30,00 por dia empurravam violentamente o povão para separá-lo dos foliões de elite.

 Pouco a pouco fui sendo tomada por uma intensa comoção e vieram as lágrimas. Chorei copiosamente vendo Waldir Pires velhinho lá em cima de um carro chefe e a Praça Castro Alves que é e sempre será do povo, apinhada de gente. Chorei sobretudo lamentando a falta de sensibilidade dos poderosos, da classe dominante que em nome da propriedade privada e defesa do capital, não se acanha de querer retroceder a um tempo onde  não era possível haver manifestações políticas alegres. Saíamos para as passeatas sem sabermos se voltávamos pra casa. Quantos de nós não foram violentamente empurrados para dentro dos camburões da polícia fascista e não apareceram nunca mais? Lembrei da minha primeira e muito traumática experiência com a morte. O assassinato pela ditadura de minha companheira política contando apenas 16 anos. Como um filme, uma sequencia de imagens me foi tomando a cabeça.

 Pensei, muito preocupada, que não é por falta de memória que os poderosos acobertados por falsos legalistas querem decretar o impedimento de uma presidente legitimamente eleita pelo povo, como álibi para voltarmos aos negros tempos de 64. Pensei que o que os tais falsos legalistas simplesmente insistem em denominar "Operação Lava Jato", mesmo que crimes de corrupção tenham ocorrido e precisem ser averiguados e punidos, nada mais é do que a luta de classes da qual falava o sábio velho Marx. Muitos outros pensamentos me foram tomando a cabeça. Avisei ao amigo carinhoso que cuidava de mim:
"Sinto muita dor e contrações no abdomem e  preciso voltar para casa".Pedi a ele para me dar o seu braço. Consegui ainda caminhar da Praça Castro Alves até o Campo Grande. Eu saía da manifestação, mas atrás de nós, como pano de fundo, a entusiasmada esperançosa e alegre palavra de ordem : "O POVO NÃO É BOBO. ABAIXO A REDE GLOBO!!!!!!"
                                                                              Marcia Myriam Gomes.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Caras (os) amigas (os)  e colegas,

Aqui estou eu de volta com algumas inovações. Afinal, parei de enviar o "Blá, blá, blá domingueiro..." para vocês em 23/08/2015. Vocês são uma longa lista de pessoas cujo endereço virtual possuo. A grande maioria de amigas(os) e colegas queridas (os) que gostam de receber a crônica domingueira e dão retornos pessoalmente, por escrito ou por telefone. Também bem recebem avisos de eventos, informes vários que gosto de enviar. Além dessa maioria que conheço e que me conhece, possuo uma lista de endereços  virtuais de algumas pessoas os quais adquiri quando coordenei uma atividade de psicanálise e tomei a liberdade de usar para envio da crônica domingueira. Dessas pessoas, várias se tornaram minhas interlocutoras ou mesmo amigas, por conta do "Blá, blá,blá...", outras eu apenas conheço de nome e/ou por encontrá-las em eventos de psicanálise, e  recebem meus escritos em silêncio sem quaisquer comentários a mim dirigidos,  e há ainda desta lista um pequeno grupo de pessoas que desconheço totalmente. Pequeno grupo também silencioso.

Hoje estou enviando para a maioria, em repetição, a crônica "Só Matizes" escrita em 23/08/2015. Tento recomeçar a partir de onde parei. Interrompi o envio da crônica no final de agosto do ano passado, por questões de ordem pessoal, mas sobretudo por estar todo esse tempo me interrogando seriamente se cabe dar continuidade a essa atividade de escrita, não sendo escritora e, tendo muito bom gosto literário, considerando o meu texto de qualidade sofrível. Tem também a questão de a maioria dos textos ter uma forte tonalidade autobiográfica, quando neste momento me interpelo quanto aos ganhos e perdas de me expor tanto, até para leitores totalmente desconhecidos. Enfim, estou revendo se escrever, como escrever, se enviar, para quem enviar. Hoje não sei ainda se escreverei uma crônica para o próximo domingo. Se vocês não receberem ficam sabendo ser por conta dessas minhas meditações.

Se alguém que receber hoje preferir não continuar recebendo, por favor, numa boa, me avise. Se por acaso alguém estiver recebendo somente hoje e tiver curiosidade de conhecer algumas outras crônicas, datadas desde 2012, pode recorrer ao endereço do meu blog:  blablablazista.blogspot.com.br  .

Quanto à crônica que para a maioria estou reenviando, se escrita hoje, teria mudado de tonalidade. O meu querido amigo e grande poeta Carlos Machado me disse que quando escrevi  "Somatizar, só matizar, só matizes...." fiz um poema. Obrigada Carlos!! Fico feliz por de vez em quando, poder subverter e bagunçar o sentido convencional das palavras. Cada vez que alguém faz isso, e você vive de fazer isso, acontece uma parceria entre psicanálise e poesia. Costumo dizer a meus amigos escritores: "Faço psicanálise porque não tenho talento para fazer poesia". A propósito de fazer poesia, perdi em dezembro passado meu amigo e poeta Boaventura Francisco Maia Neto. Ainda está doendo. Ele deixou a mim e mais duas amigas como curadoras de sua obra. Não sei se dou conta. Para começar dei a Carlos Machado (poesia.net) os três livros publicados de Boinha.

Quanto a minhas fortes dores na coluna que ocasionaram o título da crônica, foram embora por vários meses. Vai-se o sentido, fica a palavra. Também vai-se a palavra, e fica o que dela pode ser fraturado. A poesia. Agora já passou a validade do procedimento hospitalar ao qual me submeti e as dores estão voltando. A não ser o que há de insuportavelmente burocrático a fazer junto ao plano de saúde, não tem problema. Me submeto de novo.E me acompanha ao hospital a minha querida auxiliar doméstica cuja inteligência me impressiona muito e me deixa a cismar.

Quanto à minha mãezinha, sobre quem escrevi várias crônicas a partir do momento em que sofreu uma mastectomia e todos vocês acompanharam, não sei que tipo de notícia tenho a dar. Acho que tanto quanto pode, está dando a volta por cima, tentando saber fazer com seu sintoma. Diagnosticada como portadora do mal de Alzheimer e por isso sendo contra-indicado para ela mudanças de ambiente físico, quanto mais de cidade, D. Myriam foi compulsoriamente convidada por meu irmão e minha cunhada a mudar-se da casa deles em Maceió para a casa de minha irmã em Aracaju. Eu não fui consultada a respeito e fui a última a saber. Não sei o que disso dizer a vocês, meus leitores. Pensem por vocês próprios.Piorou drasticamente da sua desorientação cognitiva. Sobre o impacto psicológico disso sobre ela, prefiro guardar comigo. Assim ela me pediu. Mas o bonito disso é que ela tornou-se uma pintora.Ganhou cadernos para pintar ilustrados com pássaros e outros animais, também paisagens, e usando canetas hidrocor tem produzido belas obras. Por enquanto o que posso fazer por ela é escutar e escutar e dizer que a amo muito e contar a lorota de que vou à missa todo domingo e repetir mil vezes para ela que meu irmão tem por ela enorme afeto e sempre foi muito cuidadoso com ela. Mas o Estatuto do Idoso não me sai da cabeça.

Por enquanto, deixa o Estatuto do Idoso pra lá. Os "Escritos Extraídos do Silêncio" sobre os quais falei na crônica, foram lançados em dezembro, junto com o livro do pai da poeta. Esse pai, ah como é bom viver um pai !! Esse pai, tem 93 anos e escreve e publica livro de poemas. Enviei o livro para minha mãe ler. Pra que Estatuto do Idoso? Finalizando, quero contar para vocês que a grande novidade se a crônica fosse escrita hoje é que a partir de agora não me identifico mais somente como Marcia Gomes. Para homenagear a minha mãe pintora, a minha mãe coragem, passo a assinar meu nome completo. Pra que Estatuto do Idoso? Até o próximo domingo. Será?
                                                   Marcia Myriam Gomes                                               
  
23/08/2015                                        SÓ  MATIZES

Somatizar, só matizar, só matizes dessa dor que não me dá trégua. Como um degradé cromático do mais claro ao mais escuro, vai passando por escalas de intensidade de um pequeno sinal ao tom mais agudo. Mas hoje não quero falar de dor. Dor na coluna, não. Da coluna que sustenta o corpo, não. Sinto como se tivesse um corpo insustentável e um atrito de ossos inconciliáveis. Ainda outro dia disse e falei fartamente de sentir ter a bunda fora do lugar. Costumo sentir a bunda fora do lugar por falta de sustentação na coluna. Costumo sentir a bunda fora do lugar. E eis que sinto como se  o outro me espreitasse com o dedo em riste apontando a inadequação, a impropriedade. Sou imprópria a ponto de não caber na demanda do outro. Estou sempre a dever o que de mim se espera. Sou afeita a silêncios, a recolhimentos. Não sei o que dizer em conversas de elevador. Eleva dor. No encontro efêmero com o outro, antes de poder dizer a que vim, o esboço de conversa finda e de mim resta uma bunda atópica. Atípica.

Mal comecei a escrever e sou interrompida por uma chamada telefônica de minha mãe. De memória curta, pergunta se hoje já falou comigo. Falou há alguns minutos atrás. Sinto um transbordamento de ternura por essa mãe que apenas com 82 anos, já se perde no tempo e no que nele fez. Ainda outro dia fiquei a cismar um pouco tristonha ao ver uma mãe mais velha que a minha, ainda senhora de seu tempo, desenhando, pintando e confeccionando belas caixas com fotos de Freud e Lacan, para vender. Minha mãe, além das tarefas de rotina que já faz com uma certa dificuldade, consegue apenas se entreter assistindo à missa na televisão, à novela sobre a história da vida de Moisés e telefonando às filhas distantes. Mas embora com lapsos, sua memória não a deixa esquecer de sempre me perguntar se a minha auxiliar doméstica veio trabalhar, se deixou comida pronta para mim, se me tem feito companhia. A memória não a trai no seu sempre presente anseio de cuidar da filha. Como se isso estivesse registrado nos ternos redutos do afeto, desafiando nosologias e diagnósticos. Ainda assim, sinto-a volatizando-se, evanescente. E penso que urge ir até lá onde ela está, antes que o tempo implacável nos atraiçoe. Digo a ela que a amo muito, que Deus a abençoe, e de repente sinto como se essas palavras cavassem um fosso de ausência por eu não poder partilhar o seu cotidiano.

Feita esta digressão com o meu saudoso amor filial, volto para meu texto. E me pergunto, como me atrevo aos domingos a escrever essas garatujas literárias, que nem literárias são, porque da escrita nada sei. Apenas faço dela um exercício de fazer contato com leitores e amigos para dizer de algo que me escapa à fala. Quanto mais velha fico, mais sou afeita a silêncios, a recolhimentos.Não me ocorre falar num bate-papo polêmico a defender posições pró ou contra alguma coisa. Não me anima o desejo de convencer alguém de nada. Cada um tem as suas posições sobre política, religião e até sobre se a psicanálise resiste aos apelos imediatistas do mundo contemporâneo globalizado. Quando assisto a debates calorosos, às vezes penso que os debatedores estão numa corrida narcísica querendo que seja a sua a opinião que prevalece. Parece que cada um quer  se revelar mais informado, tendo acesso às novidades que circulam nas redes sociais. Não me dá gosto falar sobre a notícia que foi veiculada pela rede Globo, falar sobre a vida privada do outro, sobre quem está namorando ou não está, sobre um vestido da moda que foi adquirido. Alguns parecem ter urgência em falar sobre a última mercadoria que compraram não importa se há quem ouça. Tenho os meus pensares, as minhas convicções e cada vez mais me reservo o direito de falar sobre isso com aqueles que sinto semelhantes. Deixo-me mais a escutar e então escrevo. Escrever sem nada saber de escrita não será banalizar o trabalho sério dos que são escritores?

Feita essa pergunta que não cabe a mim responder, me ponho a desconfiar que entre mim e os escritores há de comum, mesmo que eu não saiba fazê-lo, o impulso imperioso de esvaziar a palavra do sentido trivial. Deixar-se submeter à palavra sem quaisquer garantias. Entregar-se à imposição da palavra aceitando ser por ela subornado sob pena de ficar esvaziado de toda consistência ontológica. Para escrever, coisa que não sei fazer, é preciso ser palavra. Felizmente nesses últimos dias estou sob o impacto do sério fazer poético. Compareci ontem ao lançamento do livro de poemas do amigo Carlos Machado, pessoa de genialidade assombrosa, que ainda que tente, não consegue esconder com a sua modéstia. Machado é daquelas pessoas que falam com propriedade sobre quaisquer assuntos relevantes, sabendo relatar experiências sem cair na trivialidade. Em "Tesoura Cega", seu livro, Machado diz coisas como essas : "Como dizer? Menino, os mapas não são roteiros de achamento, mas tênues direções de vento para quem só busca o buscar." Talvez de uma certa tonalidade niilista, este poema de irrepreensível drummondiana parcimônia de palavras, me lembra o que diz a psicanálise sobre a inalcançável busca do objeto perdido. E mais ainda, pra mim que tenho fixada na memória a recordação dos pombos compondo a paisagem urbana de São Paulo, o registro de um momento de observação da cena onde se entrevê o marco da resistência: "O pombo coxo resiste. Para, bica, olha em frente, apoiado sobre o coto de uma perna sem pata." Na minha leitura, nesse poema a condensação de palavras imprime uma absurda dramaticidade à cena observada. E ainda sobre o amor, Machado diz: "O amor inventa todos os fogos/desanda todos os pêndulos."

Junto a "Tesoura Cega" me chega por esses dias o "Escritos extraídos do silêncio", manuscrito do livro de poemas de uma amiga querida. E aqui volto à coluna. Não a que sustenta o corpo, mas a coluna cheia de volteios barrocos da igreja de São Francisco. "Escritos extraídos do silêncio" me faz pensar na coluna cheia de volteios barrocos. Como um exercício sonoro de ruptura de entranhas, esse livro tem palavras curvas desenhando um dizer feminino como nesse verso: "...enredada sem esperança em sutilezas...." ou então: "A poesia envia-me sinais, raio de luz em sótão empoeirado." "Moro na poesia, sem escolha."A inexorável melancolia de sentir-se habitada pela palavra poética. Dois poetas, cada qual com seu estilo, iluminando meus dias com palavras esvaziadas do sentido trivial. Tensas, intensas, tonalidades em gradação do estar no mundo subvertendo a ordem natural das coisas. Matizes. Só matizes.
                                                                                                                                     Marcia Gomes.

domingo, 9 de agosto de 2015

09/08/2015                                                      DESIDENTIFICAÇÃO

Dia dos pais me é quase indiferente. A não ser por ter visto no Facebook a comovente fotografia de um pai com óculos enormes. Tão grandes quanto a dor da saudade de quem postou a fotografia. A não ser por ter visto no Facebook um pequeno texto poético sobre um pai que à noite, enquanto dirigia, costumava deixar a luz interna do carro acesa. A gente é indiferente, é uma data comercial, mas talvez por sermos seres de linguagem, imersos no simbólico, alguma coisa nos fisga e cutuca a memória com vara curta. Então lembro que meu pai que morreu aos 45 anos, era defensor da ideologia comunista e que isso deixou em mim marcas identificatórias pelas quais sou grata. Doutor Joaquim, era esse o nome dele, era avesso a celebrações inventadas pela sociedade de consumo. Neste dia, aceitava de bom grado um presente que fosse um desenho, uma redação, um poema, uma pintura, um trabalho com as artes. Nem pensar mercadoria comprada em loja, invenção perversa do capitalismo.

Me ponho a pensar sobre as marcas identificatórias pelas quais sou grata, imaginando o que estaria Doutor Joaquim a dizer sobre o grave momento político que vivemos. Se eu acreditasse que existe céu e se por lá ele estivesse, teria ficado muito feliz ao ver há poucos meses atrás, os socialmente desprivilegiados como ele fazia questão de ser (assumindo suas origens na negritude e, sectário, recusando-se a ter consultório particular ao qual só tem acesso a elite ), podendo circular livremente nos aeroportos desfrutando das viagens de avião. Meu pai ficaria muito feliz com o sistema de cotas nas universidades, com o povão tendo acesso a moradia, a bens e serviços como qualquer cidadão tem direito a ter. Outra vez, sectário, torceria um pouco o nariz para o governo do PT por achá-lo reformista e populista, fazendo alianças amplas demais com setores progressistas da sociedade que defendem as liberdades democráticas mas não se interessam em empreender a revolução socialista. Provavelmente diria que o momento crítico em que está mergulhado o governo seria o resultado desse equívoco do PT.

Penso que as marcas identificatórias produziram em mim vieses que comprometeram ou pelo menos retardaram que eu chegasse à compreensão que tenho hoje do momento político que atravessamos. Na adolescência, fui militante de uma radical organização clandestina de esquerda. Na juventude, preferi não estar à frente do movimento político e não assumi cargos de direção. Participava do movimento estudantil na luta contra a ditadura, simpatizando com as posições do PCdoB. Na maturidade, ("ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais") talvez por as marcas identificatórias terem se tornado mais incisivas e também por falta de informações fundamentadas e consequentes,  por um longo tempo, torci o nariz para o PT a partir do momento em que assumiu o poder.

Achava que o presidente Lula não estava tão à esquerda quanto eu gostaria. Algumas vezes preferi votar nulo do que votar num partido que na minha opinião fazia alianças muito amplas, defendendo propostas reformistas e populistas que não lidavam com as raízes das contradições da classe trabalhadora, contentando-se com lhe oferecer melhores condições de vida, retardando a marcha para a revolução comunista. Pelo que eu via, o governo do PT não lutava radicalmente contra os interesses das elites privilegiadas. Na verdade, eu estava repetindo o discurso que supunha que meu pai teria, se aqui estivesse. Um discurso anacrônico. Isso eu não percebia.

Foi o meu contato com setores das classes dominantes que me fez mudar de opinião. Desde que o PT assumiu a presidência da república, eu fui vendo um tamanho rancor pelo governo por parte da classe dominante e de setores da classe média alta que só aspiram ascender socialmente, que pouco a pouco foi caindo a ficha. As contradições entre a classe dominante e os oprimidos são tão agudas, que o mero fato de os desprivilegiados terem tido acesso a melhores condições de vida, enfurece os poderosos gerando neles e naqueles que neles se espelham uma ira descomunal. Ouvi de uma psicanalista respeitável, a quem muito considero, que depois do bolsa família "esse povo" não quer mais saber de trabalhar. São uns desocupados. Nas palavras dela.

 Escutei no consultório alguém dizer que agora já não dá nem gosto viajar de avião. Qualquer hora na sua poltrona ao lado tem um preto.De outra psicanalista que confunde igualdade de direitos defendida por Marx com a natural diversidade subjetiva defendida por Freud e Lacan e que eu defendo também, escutei que não cabe defender igualdade de direitos porque os sujeitos são diferentes por estrutura. Em outras palavras, quem nasceu pobre tem que se conformar em ser pobre e que não se atreva a reivindicar direitos. Ouvi muitas coisas como essas até compreender que numa sociedade em que a luta de classes é tão acirrada, não dá para se pensar em de uma hora para outra se fazer a revolução. Mesmo porque os tempos agora são outros e é preciso se pensar qual transformação na estrutura da sociedade é necessária e cabível fazer. Finalmente compreendi que alcançar melhorias significativas na educação, na saúde, na moradia, nas condições de trabalho aliadas à preservação das liberdades democráticas, num país como o nosso já é um avanço enorme.

O divisor de águas entre a Marcia revolucionária incendiária  e a Marcia progressista que apoia o projeto do governo de preservar as liberdades democráticas promovendo melhores condições de vida para os desprivilegiados, foi a Copa do Mundo. Entendi que o governo ainda que a passos lentos, estava mexendo nas contradições sociais, ao ver que a elite conservadora chegou ao cúmulo de abrir mão de seu gosto apaixonado pelo futebol para sabotar o trabalho da presidente da república e de seus aliados. De lá para cá não me tornei petista, (por enquanto me reservo o direito de me manter à parte de filiação partidária) mas apoio o projeto de governo da presidente Dilma assim como apoiarei Lula se vier a se candidatar.Um Brasil livre com pleno respeito aos direitos humanos e com garantia de igualdade sócio- econômica-cultural vai sendo aos poucos construído. Se a direita rancorosa vocifera enfurecida contra o pouco que já foi conquistado, imaginem o que não seria se quiséssemos dar um passo para além do que as condições propiciam.

Assisti ontem na casa de uma amiga (muito generosa e excelente anfitriã) uma palestra do historiador Leandro Karnal sobre Hamlet no Café Filosófico. Com um jeito de sábio cínico um tanto niilista, entre muitas coisas interessantes que disse, quando falava sobre o que diria Hamlet na contemporaneidade, Karnal falou com um certo escárnio que só os que querem se sentir felizes podem sustentar o engano de que a corrupção está circunscrita a apenas um partido. Esses mesmos que se querem felizes propagam que é preciso exterminar um partido para exterminar a corrupção. Segundo ele, a corrupção começa quando o seu carro anda no acostamento, quando numa aula de ética alguém assina a lista de presença pelo colega faltoso. Começa muito antes de qualquer partido ser acusado de corrupto.

Acho lamentável que haja pessoas do PT envolvidas em processos de corrupção e acho que tendo primeiro assegurado o seu direito de defesa, os considerados culpados devem ser punidos. Diga-se de passagem, considerados culpados por um judiciário imune a pressões ideológicas da mídia vendida aos interesses dos poderosos. Não quero ser ingênua e me deixar contaminar pela campanha caluniosa e sensacionalista da rede Globo e outros órgãos de propaganda  contra o governo, cujo visível propósito é desestabilizar o estado democrático com vistas a tornar viável um golpe de direita. O PSDB nada tem a oferecer de bom ao nosso país. Não estamos numa conjuntura política semelhante a 1964. Os tempos são outros. A ditadura foi derrubada e não voltará, graças ao preço pago por inúmeros brasileiros patriotas. Brasileiros patriotas como eu, como você, cujas memórias estão prontas a testemunhar o horror que foi a ditadura militar. As manifestações propostas pelas forças reacionárias para acontecerem no próximo dia 16, não contarão com a minha participação nem a de milhões de brasileiros que querem contribuir para um Brasil livre e democrático.
                                                                                                                                Marcia Gomes. 

domingo, 2 de agosto de 2015

02/08/2015                                                             ESCREVER                                  

Agosto é chamado de "mês do cachorro louco". Acho que é em São Paulo, nas suas idiossincrasias climáticas, que o vento uiva, vocifera como um cachorro acometido de hidrofobia, no mês de agosto. Agosto, mês que anuncia, inclemente, que mais da metade do ano já se passou e que estamos mais velhos, sem que necessariamente nossos projetos estejam se cumprindo. Meu projeto de publicar algumas crônicas domingueiras. Bem poucas. Aquelas que repercutiram melhor no cotidiano dos leitores. Aquelas sobre as quais mais leitores me escreveram comentando, ou disseram que me ler fez alguma pequena diferença nas suas vidas. É muito gratificante saber que alguns mais generosos me leem. Alguns mais sensíveis, talvez, adivinhos de que em mim uma subjetividade clama por se fazer presente numa interlocução com o outro, mesmo sabendo que interlocução não há e que o outro é mera suposição.

Acho que àqueles que apraz escrever, mesmo que como eu, não tenham exatamente talento literário, não sejam escritores, há o gosto por inventar uma interlocução possível com um outro suposto, que se deixa entrever por detrás do traçado percorrido pela pena. Cada vez que se toma a pena, sem saber a quem se dirige, sem saber a quem vai tocar, quem escreve sabe que constrói um interlocutor sem substância palpável, que serve para mitigar a dor de existir. A não ser aqueles autores de obras comerciais como a literatura de auto-ajuda, quem escreve não sabe para quem escreve. Não sabe a quem vai agradar, não pode escolher a quem endereçar o seu texto, oscila na corda bamba sem qualquer garantia. Escrever talvez seja o ato que melhor represente a angústia de ser montado, tomado pela linguagem, açoitado por ela, mergulhado no buraco negro de se arriscar sem eira nem beira, tendo como alento, como anteparo para a angústia, somente um leitor criado pela invencionice do faz de conta. Quem escreve o faz para um leitor que não tem rosto, um leitor criado para dar conta da solidão que é não saber nunca o que o outro quer.

Quem poderia dar conta de responder por quê numa tarde de sábado, ao invés de ir ao cinema, ir ao shopping, ir encontrar com amigos ou mesmo estudar, preparar um trabalho, arrumar a casa, eu escolho, por um certo tempo, escrever e enviar o meu texto para um número razoável de leitores que são meus amigos e/ou meus colegas, nos quais não penso quando componho meu escrito? Não penso em ninguém em particular no sentido de ser destinatário do meu texto, enquanto escrevo. No entanto, depois de enviado, o escrito passa a pertencer a quem o recebe, cuja leitura me importa muito. Gosto de saber que a leitura do meu texto tocou alguém, fez alguém ter alguma experiência estética, aprender sobre a vida, repensar algumas questões, concordar, discordar, ou que alguém simplesmente ficou sabendo de mim.

 Gosto de contar sobre mim por escrito. Por que? Para que? Não tenho resposta. É mistério. Só sei que desde que me entendo por gente gosto de escrever e levo isso a sério. Estou me lembrando agora que na quarta-feira passada, encontrei uma colega que raramente vejo, no Centro Médico Itamaraty. Ela me disse que lê minha crônica domingueira e falou : "você anda lendo Valter Hugo Mãe, não é?" Fui tomada de um contentamento muito singular ao ouvir aquela pergunta. A pergunta dava conta que a colega me leu. Fui tomada também por uma vergonha, um pudor, quase uma culpa, porque entabulamos uma conversação muito tímida sobre Valter Hugo Mãe, já que no momento da conversa eu sentia forte dor no corpo, não podendo ficar muito tempo de pé, razão pela qual tive que abreviar o nosso promissor bate papo. Mas registrei que ela me disse que aquele autor escreveu um livro intitulado "A desumanização".

Na quinta-feira encontrei no shopping com outra colega que havia me escrito no domingo dizendo ter ficado tocada por meu texto. Ao me encontrar, ela teve o cuidado de perguntar se eu estava melhor da dor, e voltou a me dizer que mesmo escrito com dor, meu texto era bonito. Fiquei muito contente. Um poeta que considero ter o estatuto de um Carlos Drummmond escreveu e dedicou um poema a mim, a propósito do meu texto de domingo passado. Isso me deu um contentamento enorme. Gosto de responder a todos que me escrevem comentando meu texto. Sinto alegria de saber que meu escrito foi lido e tocou alguém de algum modo. Evidentemente deve haver muitas pessoas que não gostam de me ler e por isso, não me escrevem dando qualquer retorno. Assim como há as que leem, mesmo que não me escrevam.

Nesses tempos em que estou muito maltratada pelo problema na coluna de difícil solução ( não quero me submeter a uma cirurgia e minha dor é refratária a medicações e tratamentos alternativos), escrever tem sido fundamental. Em geral, por causa da dor, fico indisposta para conversas muito longas. Enquanto que posso ficar mais livre quanto à hora que escolho escrever, e fazer pausas para descansar da dor. Talvez escrever seja um estratagema para burlar a morte que nos espreita. Escrever tem algo a ver com estar na vida, ainda que a falta de garantia soe um pouco a um salto mortal. Quem sabe um salto mortal circense com rede de proteção? Quem sabe a rede de proteção não é esse outro que inventamos como interlocutor? E por que, no ato da escrita, a um outro encarnado com rosto e corpo, preferimos o outro inventado? Não será este outro inventado mais alentador, por sabermos que na confrontação com a morte estamos absolutamente sós?

Por coincidência, depois da conversa com minha colega sobre Valter Hugo Mãe, pude compartilhar no Facebook uma entrevista desse escritor tão interessante, falando justamente do seu livro "A desumanização". Na entrevista (WWW.FRONTEIRAS.COM)  ele cita um escritor tcheco que vive em Portugal chamado Jorge Listopad que disse : "quem não morreu está a morrer". Pude ler esta frase como estamos todos fadados à morte. Se alguém não morreu ainda, está a morrer pela inexorável passagem do tempo. Mas, de certa forma, o ato de escrever não suspende a passagem do tempo? Escrever é eternizante?
                                                                                                                       Marcia Gomes.