domingo, 7 de agosto de 2016


From: marciamyriamgomes@hotmail.com
Subject: ASSINANTES DO MANIFESTO DE PSICANALISTAS, em prosa e números.
Date: Wed, 27 Apr 2016 14:33:30 +0000

Olá, amigas (os) e colegas psicólogas (os) implicadas (os) na defesa da DEMOCRACIA , contra o GOLPE e colegas psicanalistas da Bahia,

Ao que parece, me atacou alguma nostalgia do meu recente, mas nada saudoso passado de psicóloga cognitivista, que mesmo atuando na clínica ( em torno de 30 anos de trabalho), me via no apuro de fazer quantificações. Não sou boa nisso, mas às vezes vale a pena. Como disse o nosso querido Pessoa, "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena." Parafraseando, eu digo para brincar um pouco com vocês: "Tudo vale a pena quando a causa não é pequena". E a nossa causa é vasta, tanto quanto o mundo de Drummond. Apostemos!! Estou inspirada. Parece até que estou apaixonada. Pela causa, com certeza estou. Será que só pela causa?

 São 5:30 h da manhã. Um tom róseo plúmbeo vai se esgarçando no céu. O que prevalecerá? O rosa ou o chumbo? Sobre isso dirão as camadas populares. Não importa quando. Com certeza, dirão. Com esperança, sem anos de chumbo. Que o chumbo, com luta, se desvanece do céu, desaparece dos anos. Dirão as camadas populares. Ainda que para dizer, tenhamos que de novo nos submeter à prisão, à tortura e à morte. Mas sejamos prisioneiros da fé na humanidade, torturados pelo desejo de justiça, e mortos do amor que pulsa nos corações valentes.

 Os valentes que enfrentaram o desprezível Coronel Luís Artur. De novo Drummond, de quem, com a aurora me lembro, da "Morte do Leiteiro". Sangue e leite compondo os tons do amanhecer. De novo Drummond, meu preferido poeta e revolucionário, que disse com certeza que a rosa é do povo. Parafraseando, eu digo: "O rosa é do povo" tanto quanto o céu é do condor. Lembram como lotada estava a Praça Castro Alves, com 110.000 pessoas naquela mani (de mandioca, para lembrar as nossas raízes indigenistas) festa (da alegria da Bahia, só pra rimar) ação (de "Ato", como no Seminário XV, porque todos nós sabemos o que diz J. Lacan) ? Eu não me esqueço. E quem são eles os de(puta)dos, para Castrar Alves? Como diria meu saudoso poeta Boaventura, nem com o Machado de Assis. Mas se for pra invocar Machado, que seja de novo, o poeta. Porque de armas não somos nós que entendemos.

Não pensem vocês que trabalhei varando a noite, pra fazer poesia. Sou mais da prosa. A poesia deixo com a minha amiga Ana Cecília, com seus silenciosos cismares. Trabalhei na causa a ponto de assistir a aurora, porque descobri que o meu computador é noctívago e à noite trabalha como um vampiro ávido por sangue. Na verdade, computador de pobre está mais para  morcego ávido pelas minhas bananas, do que para vampiro. Né, não? Então vamos à prosa. 

Recebi da coordenação do manifesto nacional dos psicanalistas, esta lista de assinantes atualizada depois do nefasto, quem dera fosse o "Né, Fausto?" Mas qual é o de (puta) filho, êpa, quero dizer, o de(puta)do imbecil que votou no impeachment, que sabe quem foi Goethe? Ele sabe do foguete que soltou naquela noite da vitória psicopática. Então continuemos a prosa. A lista de assinantes atualizada depois do nefasto passado..... tem passado mais nefasto do que anos a fio de ditadura? Fio do eletrochoque da tortura. Será por acaso que ditadura e tortura rimam? Continuando, depois do nefasto passado dia 17.

E esta lista de assinantes psicanalistas nos conta que depois do dia 17, nós, psicanalistas da Bahia que éramos em torno de 30, subimos para 44. Afinal, todos nós sabemos quem foi Goethe. Estou encaminhando a lista para todos vocês verem e me ajudarem, porque, já disse, não sou boa de conta. Também porque a lista atualizada veio com algumas melhoras que nos atrapalham as contas, mas muito provavelmente nos melhorando os prognósticos. Afinal, todos nós sabemos quem foi Goethe. Né, Fausto? A lista veio agora com um total de 1039 assinaturas. E está sendo enviada a tudo quanto é de deputado e senador. Se não mudarem de opinião, vão tremer nas bases. Porque nós sabemos que o que os faz tremerem é a base. Que viva a base!!!

Então agora, para facilitar, a lista veio em ordem alfabética com a numeração seguindo essa ordem. Deem uma olhada para me ajudar. Pode ser que na verdade sejamos mais do que 44. Fui tateando a numeração pelo reconhecimento dos nomes, porque nesta lista falta a vários deles, a designação do Estado de origem. Se vocês  virem alguém da Bahia, cujo nome eu não reconheci, por favor, me avisem para incluir na nossa lista. Também posso, sem querer, ter pulado algum nome. Trabalhar das 10:00 h da manhã de terça (fui ao consultório) até 8:00 h da manhã de quarta (só vocês, meus companheiros, podem imaginar, quantos abaixo-assinados assinei, quantos textos encaminhei ou publiquei no Facebook, etc e tal. E ainda fui à reunião do Coletivo de Psicologia no CRP, que não houve. A propósito, o pessoal do Coletivo, como eu e alguns colegas pedimos, divulgou na página deles o site do manifesto. Então pode ser que psicólogos não psicanalistas, também tenham assinado a lista. Mas se o fizeram sem a designação do Estado de origem, não pude computar. Psicólogos não psicanalistas só lembro o nome de meus colegas  de turma (1976) e alguns contemporâneos de faculdade. Não seria bacana descobrirmos que psicólogos não psicanalistas resolveram e começaram a assinar o manifesto?) induz a possíveis lapsos. Por mais que o lapso seja da ordem do impossível. Sei que dificultei a compreensão da prosa, fazendo um parêntesis enorme. Peço desculpas. Noite perdida, estou fraca como a gente fica só depois de umas boas trepadas. E não dei nem uma.

Nossa, como trabalhei esta noite!!!  Trabalhadores, do mundo, uni-vos!!!!!!!   A LUTA  CONTINUA!!!! Sem Machado, a não ser, o poeta. Sem armas. Com palavras e atos.
                                                                                   Marcia Myriam Gomes
                                                                              ( Psicóloga, psicanalista)

CARTA  A  MEU  IRMÃO  LUIZ  GERMANO  GOMES, em 03/03/2016 , quando eu me encontrava muito magoada com ele e Lindaura sua mulher, que talvez sem terem noção das consequências, "despacharam" em dezembro passado, nossa mãe, Myriam Urpia, que já há muitos anos vivia com eles, em Maceió, para viver em Aracaju com Sandra, nossa irmã mais velha. Sandra, muito amorosa e generosa, é um pessoa de temperamento um pouco agressivo, coisa com que minha mãe, sendo também muito autoritária, tem muita dificuldade de lidar. Lula sempre foi o filho preferido de minha mãe. Ele e Lindaura, pouco instruídos a esse respeito, não fizeram com minha mãe nenhum preparo emocional para mudança tão traumática. Além disso, na falta de uma certa sensibilidade, disseram a D. Myriam que ela estava sendo transferida para Aracaju porque lá devia morrer. Não contentes com isso, comentaram com ela sobre detalhes mórbidos do seu funeral, a exemplo de que seria vestida por suas colegas de noviciado Carmelita, que seu corpo seria embalsamado para transporte para o Jardim da Saudade em Salvador, lhe entregando para levar a Aracaju o endereço de sua sepultura. Tudo isso foi planejado e efetivado sem que sequer um telefonema tenha sido feito para me consultar a respeito de tão grave decisão. Soube da mesma, por minha própria mãe, que aos prantos me relatou tudo, quando eu fui a Aracaju passar o Natal, julgando que ela estaria lá, somente para as festividades de fim de ano. Estarrecida e preocupada com o fato de minha poder não resistir ao sofrimento a ela infligido, apenas um ano depois de ter sido submetida a uma arriscada mastectomia, tendo sua saúde debilitada por problemas respiratórios graves, resolvi escrever essa carta a Lula, com cópia oculta para amigos e familiares de minha mãe. Queria deixar mais do que claro para todos que eu não fui cúmplice e tampouco comunicada de tão grave e insensível providência.

 Dona Myriam, teve muita dificuldade de se adaptar à rotina de vida na casa de Sandra, onde funciona na sala um salão de beleza com muito barulho de secador e transtorno com o vai e vem de clientes por todo o espaço, sem privacidade e condições materiais de conforto. Além disso, apesar da imensa disponibilidade de Sandra, houve sérios conflitos entre as duas. Desde que se separou de meu pai, minha mãe sempre foi muito independente, senhora de suas decisões. Por sua vez, Sandra sempre foi muito mandona, inclusive às vezes, extrapolando os limites regidos pela sociabilidade. Enfim, não podendo deixar de tomar conhecimento desta dramática situação, finalmente por volta se não me engano de maio de 2016, Lula se compadeceu da situação de minha mãe e atendeu a seu pedido de voltar para Maceió, o que me comunicou por E-mail. Eu, obviamente, agradeci muito. Creio que como sequela do sofrimento pelo qual passou, embora esteja bem melhor emocionalmente de volta a Maceió, minha mãe teve um agravamento irreversível do Mal de Alzheimer com sério prejuízo cognitivo.

Meu muito amado irmão Lula (Luiz Germano),

Como lhe disse recentemente em um desabafo por telefone, de há muitos anos venho bastante magoada com você pelo modo que vem conduzindo o processo de tomada de decisões quanto ao encaminhamento da vida e aos cuidados dispensados à nossa mãezinha Myriam Urpia. Como lhe disse ao telefone, talvez naquele momento sem que eu tenha sabido escolher as melhores palavras, a meu ver, um modo autoritário. Como se sozinho, sem ouvir a opinião de seus irmãos que são filhos do mesmo modo como você, você tivesse o poder de um mandatário de decidir o que é melhor para ela. Um modo exclusivista, deixando excluídos dos processos decisórios da família a mim e a outros irmãos, como se não merecêssemos opinar, devendo ficar à margem como meros conhecidos distantes de D. Myriam. E, o que é pior, um modo discriminatório. Não sei se por sermos desabonadas financeiramente (eu, Sandra e Lilyana) , ao contrário de você, ou por termos, nós, irmãs mulheres, todas três, um histórico de termos vivido no passado episódios de agudo sofrimento psíquico pelo modo como nos foi possível elaborar as enormes dores das nossas histórias de vida das quais não fomos poupadas, pelo menos eu (não posso responder pelas outras), que graças à minha competência e sanidade mental, sou uma psicóloga psicanalista atuante e respeitada pelos meus colegas e pacientes, me sinto discriminada por você que parece desinformadamente, desqualificar os meus méritos para opinar de modo sábio e consequente sobre as decisões tomadas  e a serem tomadas em relação ao destino de nossa mãe Myriam Urpia. Parece que você me coloca numa categoria inferior. Querendo resumir, o fato é que NOSSA mãe mudou-se de Salvador para Aracaju, depois de Aracaju para Maceió, e, agora de Maceió para Aracaju novamente, sem que uma palavra minha sequer tenha sido buscada ou ouvida a respeito.Jamais ouvi de você, um "Marcia, o que você acha?"

Mas, meu querido irmão, tentemos superar as mágoas. Ninguém muda ninguém. Cada um é o que é. Infelizmente, estou certa que você nada refletiu sobre a nossa conversa telefônica, nem vai refletir. No mínimo deve ter pensado: "Que ousadia dessa Marcia!! Como se atreve?" Gosto de você o suficiente para lhe dizer: "deixemos de mágoas". Muito triste por você, acabei de saber do falecimento de um dos seus amados cachorros. Fiquei muito triste, Lula, e quero lhe dar meus condoídos sentimentos. Sei do amor dedicado que você tem pelos seus cachorros. Você sempre foi muito afeito aos animais. Nunca me esqueço de quando minha avó Orminda disse não ser possível a nós mantermos um coelhinho de estimação na casa dela, onde morávamos, nós quatro, você, com todo amor segurando o animalzinho e chorando, fomos desesperados para a esquina esperar nossa mãe chegar do trabalho para darmos destino digno ao coelhinho. Nunca me esqueço disso. Também me lembro de nós juntos numa madrugada batendo na porta do apartamento de meu pai no Edifício Rívoli para darmos socorro ao nosso gatinho. Um animal de estimação, mesmo destituído da fala, compreende muito da nossa linguagem se tornando um ente querido, de valor inestimável. E como dói, meu irmão, perder um ente querido! Não há nada que possa ser posto no lugar. Imagino, Lula, a sua dor. A falta que ele vai fazer no canil quando você for alimentá-los. As recordações, as imagens. Tudo pode doer muito num primeiro momento do seu luto, meu irmão.Por isso lhe pedi que ligasse a Sandra se solidarizando pela perda da grande amiga Mariza. Não pude ir ao funeral de Mariza , mas cancelei meus pacientes para ir à missa de sétimo dia. Era a força que eu podia dar à minha irmã naquela hora de saudade. Eu também perdi um grande amigo em dezembro. Não importa, se pessoa ou animal, mas sim o que significou para a gente. Felizmente você tem Lindaura, fiel companheira, seus filhos e netos para lhe consolar. Conte com meu apoio. Você é meu único irmão homem. Excelente filho, marido, pai e avô.

Mesmo tendo mágoas e me reservando o direito de discordar de você, não precisamos nos tratar como estranhos. Mesmo que me excluam, não me permitirei excluir do laço afetivo que tenho com meus irmãos e a minha família. Somos uma família. Temos uma história em comum onde em muitos momentos fomos solidários uns com os outros. Não me esqueço eu e Lindaura e você fazendo no meu quarto o teste de gravidez de Livinha. Não me esqueço de vocês morando conosco nos primeiros tempos de casados e Lindaura se confidenciando comigo. Lembro de segredos que ela me contou.
Gosto muito de você e Lindaura e serei eternamente grata pelo quanto cuidaram de minha mãe. Na nossa conversa telefônica, embora eu não tenha gostado do modo um tanto hostil com que você se referiu a nossa mãe, sei que ela é uma pessoa não muito fácil e já tivemos muitos conflitos. Mas com a mãe com 83 anos, tendo passado por uma mastectomia e sofrendo do Mal de Alzheimer depois do muito que sofreu na vida, penso que temos que relevar e deixar que prevaleça a ternura. Tenho muito a agradecer a vocês. O modo gentil e hospitaleiro com que me receberam nas vezes que fui a Maceió. Lindaura é excelente anfitriã e não permite que a gente fique pouco à vontade como se fosse visita. Sinto muito carinho por seus filhos e meus sobrinhos netos. Quanto às atitudes suas ou de Lindaura, quem sou eu para julgar?  "Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é", diz a música. Cada qual que fique com sua consciência. Cada um de nós faz o melhor que pode e ninguém é melhor que ninguém. Mesmo quando erramos, estivemos tentando fazer o melhor.

Mesmo com dor, tudo pode frutificar em coisas belas. Estou encantada com o poder de superação de nossa mãe expressa em suas pinturas. Ela está se revelando uma artista. Compartilhei no Facebook o trabalho de pintura dela postado por Dani e vários amigos sensíveis  meus elogiaram muito. Com o cuidado de TODOS NÓS, eu e você agora à distância, (eu cuido muito dela por telefone, com uma escuta acolhedora e empática que TENHO CERTEZA é muito importante e necessária para ela e sei que você liga para ela todo dia) a cuidadosa generosidade de Sandra, Alfredo, Graça e Dani que são incansáveis no acolhimento a ela, as coisas vão se ajeitando. Sandra é uma filha muito dedicada e amorosa. Que Deus a abençoe. Sou gratíssima a eles todos em Aracaju. E, tão logo possa, darei um pulinho lá para cuidar de perto da minha mãezinha. Tenho minha advogada que está acompanhando esse processo de mudança de minha mãe. Sei dos meus direitos e não permitirei que NINGUÉM me exclua do amoroso desejo de cuidar da minha mãezinha, mesmo eu tendo que viver em Salvador.Filhos também têm direitos assegurados por LEI e cada vez tenho me inteirado mais disso junto à minha advogada. Não tenho mais 21 como quando meu pai faleceu. Estou atenta e pronta a defender meus direitos caso algum ignorante tente ameaçá-los. Fico contente de saber que você e Sandra  estão se esforçando por se entenderem da melhor forma possível em benefício da nossa mãe. Eu também estou trabalhando em prol do bem estar de minha adorada mãezinha. Sei que vocês não vão esquecer disso jamais. Contam e contem comigo.

Lula, meu querido irmão, conte com minha solidariedade com sua dor. Como psicóloga só posso dizer que ela só passa se for vivida. Tenho torcido pela saúde de Sr. Barreto. Diga isso a Lindaura. No próximo dia 13, seu aniversário, vou lhe telefonar para parabenizar. Não é porque você constituiu uma nova família nuclear, que deixamos de ser uma família. Somos uma família de 4 irmãos que viveram, cresceram, sofreram e se ajudaram juntos. Quando a nossa mãezinha se for  (não consigo pensar nisso sem muita dor e jamais mencionaria com ela a sua morte como uma possibilidade. Seria muito perverso. Ninguém está emocionalmente pronto para ouvir o outro falar da sua morte, muito menos mencionar assuntos de rituais funerários enquanto a pessoa está viva e bem de saúde. Isso conspira contra a natureza humana. Queiramos ou não, sou psicóloga e conheço um pouco desses assuntos) acho que a maior homenagem que podemos fazer a ela é tentarmos nos manter unidos como irmãos que se amam. É importante que você saiba que estou enviando este e-mail para todos os familiares próximos e distantes de minha mãe cujo endereço virtual possuo. Também para amigos dela como o juiz Dr. Justino que foi muito solidário comigo e com ela na época da cirurgia e pessoas nas quais ela confia muito como a minha grande amiga Ana Cecília. Talvez discordemos nisso, mas na minha opinião acho que todas as pessoas que querem bem a Dona Myriam, têm o direito de saber como ela vai, o que tem sido feito da vida dela e como está a dinâmica familiar. Não é muito meu jeito omitir, escamotear, jogar a sujeira pra baixo do tapete. Omitir de irmãos, então, nem se fala. Estou sabendo que é crime. Querido irmão, cuide-se. Busque ser feliz. Seu cachorro deve ter sido muito feliz tendo um dono como você, assim como Mariza foi feliz tendo uma amiga como Sandra. Desculpe se às vezes sou excessivamente sincera. Graças a Deus já me submeti a muitos anos de psicanálise e aprendi que está muito mal da cabeça quem precisa esconder a verdade de seus íntimos e de si mesmo. Estou fora dessa auto-sabotagem. Gosto muito de você e lhe admiro muito.Posso às vezes até sentir raiva de você, mas não desejo lhe diminuir nem excluir de nada. Como todos nós, você tem direito de saber e participar. É um cidadão e merece todo respeito.
                                                                                                     Com amor, sua irmã,
                                                                                                     Marcia Myriam Gomes.
NOTÍCIAS  SOBRE  MYRIAM  URPIA , minha mãe. Também de Sandra Alcoforado (minha irmã mais velha), Luiz Germano Gomes e Lilyana Gomes (a caçula, muito querida por mim)     04/03/2016

Meus amigos mais íntimos que compartilham da minha privacidade e me apoiam nas alegrias e tristezas, amigos de minha mãe que querem muito bem a ela e a apoiaram no difícil momento da mastectomia, familiares próximos e distantes de minha mãe que torcem pelo seu bem estar e se alegram em saber que ela está muito bem cuidada de perto em Aracaju, por Sandra, Alfredo, Graça e Daniela e muito bem cuidada à distância por mim e por Lula, filho dela com quem morou em Maceió até dezembro do ano passado,

Ontem tomei a iniciativa de escrever uma carta e-mail para meu muito amado irmão Lula, em razão do falecimento de um dos seus cachorros. Lula ( Luiz Germano) sempre foi muito apegado a animais e é o filho com quem minha mãe morou em Maceió até dezembro do ano passado, quando foi transferida para Aracaju para viver com Sandra, minha irmã mais velha, sem que eu fosse consultada a respeito dessa decisão. Não fui consultada nem informada da decisão sobre a qual tomei conhecimento através de minha mãezinha quando já estava lá instalada para morar em definitivo. Pensei que ela estava em Aracaju apenas passando uns dias pelo Natal e pelo Ano Novo, quando minha mãezinha muito sentida e traumatizada me informou do fato. Não quero julgar ninguém. Creio que vocês todos sabem que minha mãe está no começo de um processo de Mal de Alzheimer e, embora lúcida e consciente do que lhe acontece a maior parte do tempo, tem lapsos de memória e passa às vezes, por momentos de confusão cognitiva. O anos que viveu em Maceió sob os cuidados de Lula e Lindaura ( minha cunhada) D. Myriam foi muito bem acolhida, nada lhe faltando materialmente e de atenções com sua saúde. Serei eternamente grata a Lula e Lindaura.

Agora está sob os cuidados próximos de Sandra ( minha irmã), Alfredo ( meu cunhado), Graça ( amiga íntima de Sandra que a ajuda nos cuidados a minha mãe) Daniela e outros netos que embora não vivam na casa, estão em Aracaju e são muito amorosos com minha mãe. Sou infinitamente grata a Sandra e aos demais pela imensa dedicação amorosa a minha mãe. Eles têm sido incansáveis no carinho, paciência, dedicação e esforço físico no cuidado à minha mãezinha. Cuidar de uma senhora de 83 anos com a saúde debilitada (a exemplo de asma, depressão e Mal de Alzheimer) dá muito trabalho.Eu, embora em Salvador, tenho também cuidado muito de minha mãe, lhe telefonando duas vezes por dia com uma escuta acolhedora que minha profissão de psicóloga facilita. Pretendo visitá-la em Aracaju sempre que possível. Lula e Lindaura , embora à distância, continuam muito acolhedores com ela.

Sei que como pessoas sensatas e bem informadas vocês sabem que dificilmente processos familiares são vividos sem tensões e certos problemas na comunicação de seus membros. Desejosa de que vocês tenham conhecimento de como está minha mãe e de como está a dinâmica de relacionamento entre seus filhos que muito a amam, e considerando que como pessoas próximas a mim e a D. Myriam vocês têm todo o direito de saber o que se passa com nossa família, sob a minha visão e leitura, ( não posso nem devo responder pela visão dos demais) achei que valeria a pena encaminhar a vocês com cópia oculta a carta que escrevi a meu querido irmão Lula, em condolências pelo falecimento de seu cachorro. Peço desculpas a vocês se com essa iniciativa cometi alguma inconveniência.
                                                                       Um beijo muito grato,
                                                                        Marcia Myriam Gomes.
É  TUDO  O  QUE  PENSO  E  SINTO  -  Antônio Virgílio B. Bastos -- Professor Titular do Instituto de Psicologia da UFBA e Pesquisador do CNPq.
04/03/2016

Somos todos Lula.

Não adianta querer prender e arrebentar o presidente Lula achando que vão destruí-lo. Já o prenderam na ditadura e a ditadura caiu. O apartheid na África do Sul prendeu Nelson Mandela e caiu.

Lula nem pertence mais só a sua própria pessoa. Ele representa um projeto popular nacional. Lula é o fim da fome, o fim da miséria no Brasil, é o projeto nacional de um país de todos, da igualdade racial, da justiça social, de melhores salários e melhores aposentadorias, de crianças na escola e jovens na universidade, de médicos para todos, de moradia decente para todos, de mais direitos para todos, da participação popular nos destinos da nação, do Brasil potência. Mas potência popular com as riquezas ficando para todo o povo brasileiro.

Por isso somos todos Lula. Lutamos por ele, sobretudo, porque Lula é quem melhor teve e tem a capacidade de liderar esse projeto. Mas lutamos também porque é covardia o que estão fazendo com ele.

E não venham com mentiras contra Lula, porque quem dera todo político fosse honesto como ele. Foi, possivelmente, o presidente que saiu com menor patrimônio da presidência. Ganhou dinheiro sim, mas legitimamente, depois de deixar a presidência, com palestas.

Seus filhos são pequenos empresários. Não foram nomeados diretores de estatal como um jovem Aécio Neves recém-formado foi nomeado diretor da Caixa no governo Sarney. Não viraram diretor de banco privatizado pelo pai, como ocorreu com o filho de Alckmin. Não ganharam concessões públicas de TV nem de lavra de mineração. Não foram funcionários fantasmas em gabinetes de senadores. Não viraram sócios de bilionários como a filha de José Serra.

E Lula criou um Instituto voltado para cooperação do Brasil com a África e a América Latina. Se tivesse criado um instituto picareta para defender o cartel da imprensa ou dos bancos ou da geopolítica estadunidense estava tudo "certo". Mas defender a integração com pretos e "cucarachos"? Ah... isso só pode ser crime na cabeça dos coxinhas doentes, racistas e preconceituosos.

É injustiça e covardia o que estão fazendo com Lula, por isso temos que defendê-lo e não podemos nos omitir.

Não adianta quererem destruí-lo para entregar o pré-sal a estrangeiros, e também para o mercado financeiro globalizado e corrupto nos escravizar. E para o "B" sair dos BRICS e virar colônia econômica dos EUA. Porque vamos derrubar esse entreguismo e servilismo. Somos todos Lula.

   ATO  PARA  MARCUS  VINÍCIUS  17/02/2016

Caras (os) amigas (os) e colegas,

Provavelmente vários de vocês souberam da atrocidade cometida contra Marcus Vinícius. Seu assassinato quase certamente em uma emboscada. Marcus Vinícius era psicólogo, colega de muitos de nós, e professor aposentado da UFBA. Era uma pessoa muito consciente dos dilemas de seu tempo, empenhado em defender a inclusão social daqueles classificados como "portadores de transtornos psiquiátricos", lutando contra a força devoradora da indústria farmacêutica fortemente aliada ao capital, e interessada na existência de hospitais  encarregados do confinamento de pacientes. Atuou incansavelmente no movimento Luta Antimanicomial. Teve um papel muito importante na formação de psicólogos esclarecidos e preocupados com as repercussões das suas ações na sociedade. Vivia cercado de muitos jovens que queriam aprender com ele e que de certa forma o tomavam como modelo. Atualmente estava envolvido num trabalho de demarcação de terras com comunidades carentes. Numa espécie de "ironia do destino", na semana do carnaval, quando o povão que ele defendia ardorosamente, se comprimia se machucando nas cordas dos blocos que pelos preços extorsivos só admitem privilegiados, Marcus Vinícius foi cruel e perversamente assassinado.

Contudo, o legado deixado por ele não pode ser exterminado. No desejo de preservá-lo,  de manter conosco a memória de Marcus Vinícius e clamando por justiça no esclarecimento do crime e punição dos culpados, será realizado um Ato em sua homenagem. Data: 18/02 amanhã, quinta-feira. Hora: 17:00 h Local: Salão Nobre do Palácio da Reitoria da UFBA. 
                                                                                            Um abraço,
                                                                                                Marcia Gomes. 
Mensagem muito íntima a Ana Cecília, minha melhor amiga sobre alguns mal entendidos naturais, entre nós todos, seres de linguagem. O desarranjo linguageiro aconteceu quando tratávamos de Ana Helena, outra amiga queridíssima, com quem infelizmente não disponho do recurso poético que disponho com Ana Cecília e que amortiza nossas questões de relacionamento. Felizmente, entre as três o afeto e a confiança prevalecem, acima de tudo. Data da mensagem: 14/02/16 

Por favor, não sinta muito por tudo isso. Na minha opinião não existe intersubjetividade. Então não é possível haver "comum nicação". Seres falantes, estamos sempre a tropeçar nos malentendidos os quais não vejo como necessariamente maus. Não acho possível sermos cem por cento bem entendidos. É o preço que pagamos por estarmos imersos no mundo da linguagem. "A palavra mata a coisa", diz Lacan. A tal realidade dos fatos tão cara aos behavioristas e cognitivistas, está perdida para sempre. Quanto aos malentendidos ( não é possível haver bem entendido cem por cento) se podemos falar sobre eles, podemos também crescer com eles. Que ótimo nos liberarmos da ilusão quanto a mudar o mundo, pessoas e muito menos interpretações. Aliás, não gosto muito desta palavra. Ela parece sugerir que há um mundo objetivo da realidade, sobre o qual interpretamos mais ou menos fidedignamente. Quanto mais fidedignos, mais corretos cognitivamente. Acho tudo isso uma grande bobagem que parece nos fazer cultivar nostalgia quando nos sentimos incompreendidos nas nossas verdades. Para mim, vivemos imersos inevitavelmente nas nossas leituras e ficções. Por isso, na minha opinião, se queremos estar com o outro precisamos esclarecer de vez em quando sob pena de sucumbirmos numa torre de Babel. Esclarecer para mim não significa buscar a verdade dos fatos, inalcançável, mas se aproximar um pouco mais da ficção de cada um para respeitá-la. Fico muito grata por você tentar dizer para mim de qual é a sua ficção quanto ao episódio "telefonema meu a Ana Helena". Isso apazigua, e a mim me ajuda muito a sem mágoas dar o assunto por encerrado. Penso que publicar escritos do silêncio sem guardá-los a sete chaves, é de certa forma querer contar ao outro sobre as suas ficções.Felizmente você é uma poeta de estatura e assim se permite se deixar devassar pelo outro nos seus redutos. Do contrário, seria uma esquizofrênica. Desculpe o uso dessa palavra tão estigmatizada e usada mesmo muitas vezes como xingamento, acusação ao outro. Não achei outra melhor agora nesse momento. Eu, infelizmente não sou escritora. Então preciso falar quando o copo está cheio. O bonito disso tudo ao meu ver é que como disse Freud a poesia antecipa a psicanálise e ambas têm muito em comum. Penso que talvez seja um pouco ingênuo se ressentir com o que inevitavelmente faz parte da nossa constituição como sujeito: o equívoco, o titubeio, o mal dizer. Para mim essas coisas são preciosos e bonitos instrumentos de trabalho.

O que é isso, menina? Eu, lhe dando oportunidade de divulgar seus escritos? Pirou de vez? Quem sou eu? Só lhe perguntei se conhece o negócio da Fundação Cultural porque Fátima mencionou e eu não conheço, para usarmos na obra de Boinha. Não lhe aconselhei como escritora. Lhe consultei como escritora. Tá vendo como as vezes é bom e necessário esclarecer para o outro sobre quais são as nossas ficções? Por absoluta burrice tecnológica, não tenho como lhe enviar o poema de Niltinho. Seria inconveniente para você ficar amiga dele no Face? Adoraria dar uma passadinha no evento "Poesia em Família". Tomara que eu possa. Da minha parte estou satisfeita com o que conseguimos e podemos dar um ponto final na conversação penosa sobre eu, você e Ana Helena. De resto e o que importa é que gosto muitíssimo de você. Bom domingo.
                                                                                                                            Um beijo,
                                                                                                                                    Marcia.




sábado, 6 de agosto de 2016

Em 31 de janeiro de 2016  --- Carta aos amigos Ana Cecília e Carlos Machado, comentando sobre o luto de Nilton, companheiro de Boaventura, meu amigo e poeta, falecido em 19/12/2015 , por conta de um câncer devastador na laringe, metaforizando seu desejo de morte suicida.
Oi, Ana Cecília e Carlos,

Às vezes um valor mais alto se levanta. E estou sempre a priorizar aqueles que estão sentindo dor. Dor no coração. Adoraria ter entrado no papo de vocês sobre a mulher de Ló. Ana, achei interessante e fiquei um tanto perplexa com o seu TAMBÉM É HOMEM. Mas foi um dia atípico. E não pude entrar no papo. Carlos, tampouco pude ler o seu livro. Tampouco houve a reunião da curadoria de Boaventura para que eu pegasse os exemplares para você. Ana, você avó full time. Eu, talvez cuidadora da dor full time. Só pude escrever no computador coisas rápidas sem maiores implicações minhas enquanto Niltinho dormia no sofá. Agora levei-o para o quarto de Rafa. É que o avô dele morreu sexta-feira em Areia Branca. Eu só fiquei sabendo hoje de manhã cedo quando ele me ligou dizendo que estava no ônibus a caminho de Salvador. Chegou aqui em casa arrasado. Não contava com ter que voltar a Areia Branca local onde tinha uma casa de passeio com Boaventura tão cedo. Sempre imaginava que iria sofrer muito e não deu outra. A casa foi construída pelos dois com muito carinho e zelo. Boinha gostava muito de lá onde decorou a casa com muito gosto. Enquanto esteve doente não querendo se tratar (talvez quisesse mesmo morrer logo) pedia insistentemente a Nilton para ir para lá. Niltinho, muito sensatamente, se recusou, argumentando que Boinha precisava se tratar e em Areia Branca (um povoado) não tem recursos nem funciona plano de saúde. Niltinho sente culpa por não ter feito a vontade do amado. Diz que pensou em não ir ao enterro do avô, mas não quis repetir com o pai a "desfeitxa" que fez a ele não comparecendo ao funeral de Boinha nem lhe fazendo sequer um telefonema. Me disse chorando : "Marcinha, eu sou uma bichinha dismunhecada mas queria dar um abraço em meu pai e mostrar a ele como a gente trata alguém que perdeu um ente querido". Está muito preocupado com a avó que está muito deprimida. Niltinho não suportou ver a casa, ouvir os comentários maldosos daqueles que perguntaram se ele ficou rico com a herança, etc, etc. Então, como fez Boaventura muitas vezes, embriagou-se e entrou no ônibus com uma lata de cerveja na mão desacatando o motorista. Fiquei muito preocupada com essa repetição identificatória. Enfim, passei o dia todo com ele, alimentei-o, levei-o para dormir no sofá, essas coisas. Ele chorou muito. Mesmo porque o álcool é depressor quando se está fazendo uso de ansiolítico. É isso, meus amigos. Estou tendo a oportunidade de conhecer uma pessoa muito bonita e muito especial. Coisas da vida. Um beijo pra vocês. Boa semana. 
                                                                                                                                    Marcia.