sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

25/01/2015                                           INVENTAR

Cara leitora, caro leitor,

Hoje vou dando prosseguimento à série de crônicas intitulada "Histórias Que Vivi Com Minha Mãe", com a principal finalidade de divertir Dona Myriam, que felizmente já iniciou as sessões de fisioterapia com drenagem linfática e simpatizou muito com a fisioterapeuta. Tomara que elas conversem muito e que o tratamento contribua para reduzir o edema, aliviando as dores do lado em que foi feita a mastectomia. Tomara também que meu sobrinho neto Cauã Fraga cumpra o prometido e imprima esse texto para que sua bisa possa ler.

Eu estou radiante de alegria com a excelente colocação no concurso para professor da Universidade Federal do Sul da Bahia conquistada por Rafael, meu filho adotivo. Estou feliz e orgulhosa porque Rafa agora faz parte da instituição cujo proposta de trabalho ele muito admira e também porque trabalhando na Bahia ele fica mais perto de mim. Parabéns, Rafa!! Vitória merecida!!

Espero que junto a Dona Myriam vocês também se divirtam com esta história que me foi lembrada por Sandra, minha irmã mais velha.

                                                               INVENTAR 
Pois é. Na década de 60 mudamos de Taperoá para Ibirataia. Deixamos a cidadezinha de tipos humanos como Chico Lecó que desfilava tranquilamente pelas ruas com flores nas narinas, e fomos para onde desfilavam pelas ruas ameaçadores e ostentando poder, os playboys filhos de grandes fazendeiros de cacau. Deixamos a cidadezinha de economia quase artesanal onde predominava a pesca, e fomos para onde o capitalismo já mostrava suas garras, deixando inconciliáveis, de um lado aqueles da classe dominante, de outro, a plebe rude que pelas condições insalubres do trabalho nas fazendas de cacau, vivia se consultando no consultório de meu pai.

Perdemos o nosso frequente e salutar contato com pessoas do povo que em Taperoá gozavam da maior respeitabilidade social, para sermos recebidos, quando chegamos a Ibirataia, pela família de um prefeito reacionário e parceiro dos latifundiários. Perdeu-se a simplicidade dos catadores de cravo da Índia que nas portas de suas casas nos davam, afáveis, um dedo de prosa, e passamos a ser vistos com desconfiança pelos carregadores de sacos de cacau empregados  nos armazéns.

 A cidade era feia, não tinha festa folclórica como a Zameapunga de Taperoá, as crianças muito diferentes de nós, filhos de fazendeiros e comerciantes importantes, usavam bolsa, luva, chapéu e roupas da moda mandadas buscar em Salvador. A isso meu pai, indignado, chamava de "bossalidade". Nossos pais, é claro, desaprovavam estes estranhos costumes, e nós, destoando dos demais, continuamos nos vestindo de forma apropriada para o clima da cidade. Forma simples e despojada cabível a crianças filhas de pai comunista.

Para nós, isso implicou em nos sentirmos excluídos e marginalizados por aquelas crianças afeitas aos extravagantes hábitos de consumo, e, por isso demoramos a fazer amigos, a encontrar a nossa turma na cidade. Nos enturmamos com Marineide, filha de uma humilde vendedora de pastéis e banana real, e com Naldo, Nalva, Néia, Neide e Nólia, filhos de Dona Cide e de "Seu" Ramos, um simples funcionário de um armazém de cacau que morava defronte de nossa casa.

A mudança de cidade não foi sem consequências para a nossa vida privada. Afinal o social e o individual se interpenetram numa multifacetada determinação. De modo que saímos de uma vida inocente e quase paradisíaca que tínhamos em Taperoá, para uma vida em que sofríamos com as contradições que não compreendíamos e que logo se refletiram na vida conjugal de nossos pais que passaram a se desentender. A eclosão do golpe militar de 64 culminou com a nossa urgente e traumática mudança para Salvador, e logo em seguida nossos pais se separaram.

Então como fazíamos para viver em Ibirataia? Não era fácil. Sentíamos muita saudade de nossos deliciosos banhos de mar em Boipeba, e a atividade fotográfica de meu pai sofreu um declínio. Onde a paisagem bonita? Onde os tipos humanos originais? Meu pai, tão logo ficaram claras suas inclinações ideológicas, passou a ser antipatizado e mesmo perseguido pelos representantes da classe dominante.

 Era o médico dos pobres, muitas vezes remunerado com frangos, frutas e verduras. Minha mãe já sofrendo com seus problemas conjugais, se empenhava em cuidar de nós inventando estratagemas para nos divertir e também para se divertir. Muito longe estava de se identificar com os hábitos fúteis das esposas dos fazendeiros e comerciantes. A não ser Dona Cide, não tinha amigos naquela cidade inóspita.

Embora tivéssemos alguns, não éramos muito estimulados no uso de brinquedos industrializados. Eu, minhas irmãs e as amiguinhas filhas de "Seu" Ramos, brincávamos no quintal de fazer cozinhado usando panelinhas artesanais de cerâmica, tínhamos bonecas de pano e com elas exercíamos nossa criatividade lúdica. Lula, nosso irmão, acompanhava meu pai aos domingos no campo de aeromodelismo.

 Quando Dona Myriam, nossa mãe fazia uma fornada de biscoitos, nos estimulava a modelar com a massa figuras que viessem à nossa imaginação e, Sandra e eu, as mais velhas, nos aventurávamos a compor palavras. Era muito divertido comer biscoitos cujas formas foram criadas por nós. Tínhamos muitos livros de literatura infanto juvenil a exemplo do "Mundo da Criança", "Tesouro da Juventude" e a coleção de Monteiro Lobato. Grande parte do tempo minha mãe nos entretinha e educava contando e encenando aquelas histórias.

Um dia, de férias da escola da Professora Teresinha, talvez cansado das fadigas do repouso, Lula folheava uma revistinha e encontrou instruções para confeccionar um cineminha artesanal. Infelizmente não me recordo de detalhes e, por isso, não seria capaz de reconstituí-los aqui. Mas era muito simples. Pegava-se uma caixa de papelão e cortava-se o fundo, colando no espaço vazio deixado, uma tela de papel manteiga. Em seguida, montava-se com recortes de revista uma série de cenas que colocadas na ordem certa viriam a ser o roteiro do filme.

 Montado o roteiro da história, colava-se a sequência de cenas num barbante . Cada ponta do barbante era enfiada em um orifício que ficava em uma das duas  laterais da caixa de papelão por trás da tela de papel manteiga, de modo que conforme puxássemos o barbante, uma determinada cena ficava em evidência, podendo-se em seguida passar para outra e para outra e assim sucessivamente até o final da história. Se fosse só isso, seria um cinema mecânico, sem graça. E para que o papel manteiga? É que ele, por ser fosco, opaco, fazia uma sombra sobre as imagens ofuscando-as, para quem estava do lado de fora da tela como expectador.

 Para aumentar o mistério e a curiosidade sobre as cenas do filme, se fosse de dia, fechavam-se as janelas de modo a ficar escuro. Se fosse à noite, apagava-se a luz para obter o mesmo efeito. No escuro, o animador do cinema vinha com uma vela acesa por trás da cena e do papel manteiga, e movimentava a vela dando visibilidade e animação aos personagens. Era um efeito espetacular, particularmente para crianças que viviam em cidade como Ibirataia. Era preciso haver pelo menos dois operadores. Um para puxar o barbante passando a sequência de cenas, e outro movimentando a vela para dar animação aos personagens.

A descoberta de Lula foi para nós como a invenção da pólvora. Logo todos nós estávamos envolvidos e gastávamos horas na montagem dos roteiros. Dona Myriam, já de há muito preocupada com nosso isolamento social, sugeriu que fizéssemos sessões de cinema para outras crianças da cidade. Sandra confeccionou os ingressos com cartolina. Minha mãe deu a ideia de cobrarmos um preço simbólico para com o dinheiro ela fazer brigadeiro, bolo e suco para oferecer aos expectadores no intervalo da sessão. Com um lençol improvisou uma cortina para ser aberta somente na hora que começasse o filme. Marineide e as filhas de Dona Cide se encarregaram de divulgar a novidade para as outras crianças de Ibirataia.

 De repente, de uma hora para a outra, tínhamos frequentando a nossa casa meninos e meninas filhos de pais pertencentes às mais variadas camadas sociais. De repente não mais importava que fôssemos filhos de um defensor de ideias comunistas, e que usássemos roupas confeccionadas por simples costureiras da cidade. Éramos os criadores da grande invenção que todos queriam ver. Acho que foi essa a minha primeira importante experiência com a arte e com o seu enorme poder de transformação social.

 Em Ibirataia havia um cinema que não frequentávamos. Os filmes eram americanos, de péssimo gosto e nada apropriados para crianças. Com o nosso cineminha construíamos histórias que estimulavam o nosso imaginário infantil e nos tornaram os criadores de uma empreitada que revolucionou nossas vidas e a vida da cidade. Primeira importante experiência com a arte e de com ela construir um novo mundo suplantando o sofrimento. Experiência que me deixou para sempre impressionada e movida pela ideia de inventar. Inventar, inventar sempre, para além das adversidades.
                                                                        Marcia Myriam Gomes.

domingo, 11 de janeiro de 2015

11/01/2015  Cara leitora, caro leitor,

Aqui estou eu retomando a crônica de domingo. Voltando de uma viagem inesquecível a Maceió onde fui passar o Ano Novo com Dona Myriam Urpia, minha mãe, que caminha em franca recuperação da cirurgia. No dia 8 passado ela se consultou com uma oncologista que a considerou em muito bom estado. Apenas prescreveu uma medicação para prevenir recidivas e sessões de fisioterapia com drenagem linfática para que ela recupere mais rapidamente a motilidade da mão e braço direitos.

O encontro com minha mãe em Maceió foi uma experiência muito bonita de amor e respeito mútuos. Para mim foi profundamente importante poder cuidar um pouco da minha mãezinha e meu irmão e minha cunhada, embora estivessem com a casa cheia,  me receberam com a maior generosidade, compreendendo e acolhendo com todo carinho minha necessidade de estar próxima de Dona Myriam o maior tempo possível. Foram 6 dias em que vivi uma intensa e amorosa relação com ela, voltando para Salvador muito saudosa mas tranquila em saber que minha mãe recebe deles o melhor em afeto e cuidados materiais.

Assim que cheguei em Maceió, instalei uma cadeira cativa no quarto dela e só a deixava no fim do dia, quando já se havia preparado para dormir. Pela manhã passávamos a vista por álbuns de fotografia caprichosamente organizados por ela, fazendo uma verdadeira hora da saudade entre lágrimas e risos. Consultávamos alguns textos religiosos e líamos juntas um livro que muito a encantou, presente da sua sensível neta Lívia. É a história de um jovem que abandonou tudo para cuidar da avó que sofria do Mal de Alzheimer. Depois do almoço eu ficava velando seu sono e mais tarde lhe dava banho. Em seguida assistíamos à missa pela televisão e depois do jantar eu acompanhava com ela a novela de que gosta muito.

Me comovi ao observar sua alegre interação com a meiga bisnetinha Iasmin e com o inteligente e peralta Iuri. Fiquei muito bem impressionada com o cavalheirismo do adolescente Cauã Fraga que consciente de que sua bisa precisa de carinho e atenção assumiu comigo o compromisso de imprimir toda semana o "Blá, blá, blá domingueiro..." para ela ler.

Na hora da despedida não consegui controlar o choro convulso e aqui estou de novo escrevendo para ela as "Histórias Que Vivi Com Minha Mãe" confiante na promessa de Cauã. É a minha forma de mitigar a saudade e me fazer presente na vida de Dona Myriam, já que os dois telefonemas diários que fazemos não apagam a tristeza causada pela distância geográfica.

 Nutrida pelo feliz encontro com minha mãe aguardo ansiosa a próxima semana. É que Rafael, meu filho adotivo colombiano, prestará a última etapa do concurso para professor da UFSB. Torçam por ele que tem estudado muito numa aposta apaixonada pela proposta da universidade. De volta a Salvador tive um feliz encontro com um grupo de colegas de Psicologia, contemporâneas da faculdade, onde papeamos sobre vários assuntos. Foi um evento leve e divertido num fim de tarde de verão.

Recomeço o "Blá, blá, blá domingueiro..." com essas "Peripécias de infância". Espero que vocês e Dona Myriam se divirtam. Ela, quando ler, provavelmente dando muita risada, me dirá: "Não me lembro de nada disso. É pura imaginação sua. Quem conta um conto, aumenta um ponto." Imaginação ou não, muito prazer me dá de pensar que com meu texto posso entreter a ela e a vocês.

                                                   PERIPÉCIAS  DE  INFÂNCIA

Acho que já contei a vocês que quando criança eu adoecia muito. Também já mencionei que eu e Sandra, minha irmã um ano mais velha, temos personalidades quase opostas. Sandra sempre foi muito extrovertida, cheia de energia e gosta de comandar. Já eu sou mais tímida, quieta e fui muito cuidada por todos já que era chegada a ficar enferma com frequência.

Quem mais cuidava de mim era minha mãe. Mulher de médico, iniciada nos saberes da farmacologia, sem que precisasse chamar meu pai, com muito carinho e delicadeza sabia prescrever o remédio certo para debelar uma infecção, abaixar uma febre, aliviar uma dor. Tenho muito viva a recordação do desvelo com que ela cuidou de mim e Sandra quando fizemos cirurgia de garganta no Hospital Espanhol. Ainda hoje, quando adoeço (raramente, felizmente) meu primeiro impulso é telefonar a Dona Myriam para perguntar que médico devo consultar e o que devo tomar.

Eu estava com cinco para seis anos e vivíamos em Taperoá. Cidadezinha muito interessante pelos seus tipos humanos onde vivíamos felizes. Mas a felicidade não me impedia de adoecer. Um dia amanheci com febre alta e tive que ficar acamada. A empregada faltou, meu pai estava ocupado no consultório e estávamos sem antitérmico em casa. O fim da década de 50 no interior era um tempo em que era relativamente seguro deixar duas crianças sozinhas em casa por curto espaço de tempo no caso de uma emergência. Dona Myriam não teve opção. Me deixou em casa com Sandra enquanto ia à farmácia de Dona Adiles buscar o remédio.

Sandra me vendo fragilizada pela febre logo assumiu ares de quem cuida e se dispôs a fazer o que eu precisasse. Eu tinha a estranha mania de escondido dos adultos comer sal. Não sei se sofria de pressão baixa, se vivia desidratada, se era uma idiossincrasia metabólica ou mesmo mera peraltice. Então diante da oferta de ajuda de Sandra, que criança não tem juízo, eu disse que queria comer um pires de sal. E para que a arte tivesse todos os ares de transgressão a que tínhamos direito, não podia ser sal da nossa cozinha.

 Sandra não contou conversa. Saiu mais que depressa e foi ao armazém de "Seu" Aurélio que era defronte de nossa casa. O que ela disse lá no armazém, eu não sei nem tive a curiosidade de perguntar, tão ávida estava por comer meu sal. Sandra me entregou um pires de sal grosso. Será que "Seu" Aurélio julgou ser a minha febre causada por mal olhado? Quem vai saber o que se passa entre uma criança de sete anos e o dono de um armazém em cidadezinha minúscula como Taperoá?

A peripécia estava feita e eu me deliciava com o sal grosso de modo que não vimos nossa mãe voltar. O resultado é que fomos flagradas com o boca na botija. Ou melhor, no pires de sal. Como eu estava acamada e não tinha energia para me levantar para fazer qualquer estrepolia, sobrou para Sandra. Levou um senhor carão e foi ameaçada de ser posta de castigo. Antes porém, cuidadosa, minha mãe pegou o termômetro e mediu minha temperatura. Não é que a febre tinha cedido? Sandra foi então liberada do castigo. Pudera!! Não é para menos. Não é todo dia que se descobre um antitérmico barato e providenciado por uma traquinagem. Será que a minha febre era causada por mal olhado? Até hoje ninguém encontrou explicação plausível para as propriedades farmacológicas do sal grosso. Ou da peripécia?
                                                                                           Marcia Myriam Gomes.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

GRATIDÃO  COMOVIDA  A  MEU  IRMÃO  E  FAMÍLIA.

Saí de Aracaju no fim de novembro de 2014 com o coração apertado. Todos vocês sabem que fui até lá acompanhar uma delicada cirurgia de Dona Myriam Urpia, minha mãe, que para extirpar um câncer se submeteu a uma mastectomia. Poucos dias depois dessa experiência traumática para uma senhora idosa de 81 anos, talvez por efeito da anestesia, minha mãe ficou um pouco agitada e isso implicou em ter que se submeter a uma nova cirurgia para recolocação do dreno que havia saído do lugar. Duas anestesias gerais em curto espaço de tempo, numa paciente que tem já a saúde fragilizada por problemas respiratórios que datam de muitos anos.

Eu me sentindo apreensiva e impotente. Todos os meus irmãos estavam lá acompanhando o processo mas o clima na família era um tanto tenso. Minha mãe que mora com meu irmão Lula em Maceió, foi operada em Aracaju e passou o pós-operatório lá, em casa de Sandra, minha irmã mais velha, que teve a generosidade de me receber como hóspede. Ela tem um amor enorme por nossa mãe, mas é de uma personalidade um tanto centralizadora e autoritária. Juntando isso a todo o estresse da situação aliado talvez a um certo ciúme de mim e de meu irmão, criou-se uma atmosfera tensa no relacionamento de Sandra com minha mãe, o que em termos emocionais, não era favorável à recuperação de Dona Myriam. 

Como eu disse, estava me sentindo impotente. Pelo tipo de medicação que tomo à noite, por ordem expressa do médico não posso perder noite e queria cuidar de minha mãe. Sandra, com o maior empenho em dispensar esses cuidados (ela também pelo mesmo motivo não pode perder noite) e talvez movida por um certo ciúme, de uma forma que me soava um tanto mandona, deliberava as horas e as ocasiões em que eu podia estar com minha mãe. Serei eternamente grata a ela pelo modo dedicado com que recebeu Dona Myriam por quase dois meses na sua casa. Serei eternamente grata por Sandra ter me hospedado por uma semana, tendo por isso que ficar mal alojada no seu quarto de casal com meu cunhado Alfredo que cuidou de minha mãe com o carinho de um filho.

Mas a atmosfera entre minha mãe e Sandra era tensa. Minha mãe, fragilizada num pós-operatório e tendo sido sempre muito independente e dona de suas próprias decisões, sofria com o jeito mandão de Sandra. A impressão que eu tinha é que quanto mais acolhedora e continente eu fosse com o sofrimento de minha mãe, mais autoritária e tensa Sandra se tornava com ela. Chorei muito e conversei muito por telefone com minha terapeuta.

 Me dirigi a meu irmão Lula, e disse a ele que queria ter uma conversa particular com ele. A minha impressão é que a partir do momento em que lhe disse isso, Lula passou a evitar estar sozinho comigo e ignorou meu pedido de conversa. Meu irmão tem um amor extremado por minha mãe, cuida dela com um carinho impecável, tem estado muito sobrecarregado com as incumbências decorrentes de ficar responsável por vários anos por uma mãe idosa, e, pelo menos comigo, não é muito chegado ao diálogo sobre nossa mãe.

 Não tenho palavras para expressar minha gratidão a ele, mas, nesse momento, gostaria muito que tivéssemos um relacionamento que comportasse partilharmos mais um pouco as decisões em relação à nossa mãe, até para que ele ficasse menos sobrecarregado. Na segunda cirurgia de minha mãe, antes que a Sul América fizesse o ressarcimento, ele teve inclusive que tirar uma alta quantia do seu próprio bolso. Financeiramente eu infelizmente não pude ajudar. Mas gostaria, pelo bem de nossa mãe, que ele partilhasse mais as decisões comigo. Não sei se esse seu fechamento em relação a mim advém de alguma mágoa, se é do seu temperamento. Procuro respeitar e compreender.

Com aquela atmosfera familiar em Aracaju e vendo minha mãe em sofrimento, cheguei à conclusão que se eu retornasse a Salvador, talvez o clima entre Sandra e minha mãe ficasse menos tenso. Pensei que Sandra sem eu no seu quarto como hóspede, poderia descansar mais e com a minha ausência se sentiria menos ameaçada pelo ciúme, podendo se tornar mais afável e acolhedora com nossa mãe.

 Com o coração despedaçado por ter que deixar minha mãezinha ainda tão fragilizada, tomei a dolorosa decisão de retornar a Salvador, não sem antes conversar com Lindaura, esposa do meu irmão, que foi para mim um porto seguro. Aura de amor e acolhimento. Linda aura. Lindaura. Com ela desabafei minhas apreensões e conflitos e fui bem recebida e compreendida. Deixei um canal aberto para ter a quem telefonar, ter com quem me informar sobre o estado físico e emocional de minha mãe. Lindaura foi pra mim muito mais que uma irmã. Não sei o que teria sido de mim se não tivesse contado com seu apoio naquele momento. Sua generosidade é impagável.

Chorando muito dentro do avião, chorando muito ainda quando cheguei em casa de volta de Aracaju, mantive-me inquieta quanto ao estado emocional de minha mãe, inquieta quanto à sua recuperação da cirurgia, sentindo muita saudade e medo de perdê-la antes que pudesse voltar a vê-la. No começo de dezembro partilhei minhas apreensões com minha amiga irmã Ana Cecília, que mesmo com os preços altos da época, se disponibilizou a me dar uma passagem para Maceió de presente. Decidi viajar por época do Ano Novo sabendo que nessa fase de fim de ano Lula e Lindaura estão com a casa cheia de filhos, genro e netos. Eu precisava inadiavelmente rever minha mãezinha. Mas onde e com que dinheiro me hospedar?

Comecei uma busca desenfreada por pousadas, sabendo desanimada que em tempos de fim de ano Maceió é muito procurada e os preços encarecem. O preço mínimo que consegui foi para ficar num quarto com mais nove pessoas, numa pousada que por ficar próxima à praia, provavelmente seria muito distante da casa de minha mãe. Mas aceitei o desafio com a mão na cabeça por saber que não dispunha de dinheiro para a despesa com o táxi. Num momento em que rezava muito apreensiva, Lindaura, o anjo, me telefona para dar notícias da chegada de minha mãe em Maceió. Aí resolvo consultá-la quanto à localização da pousada. Ela, com a sua bondade infinita, com o coração terno de quem avalia o sofrimento de uma filha distante geograficamente de uma mãe idosa e se recuperando de uma cirurgia, diz que pode me hospedar.

Embarquei para Maceió com o coração aos pulos pela emoção de rever minha mãezinha, mas constrangida. Sabia que Lula e Lindaura estavam com a casa cheia e que por isso podia lhes dar trabalho. Ia com muita vontade de poder cuidar um pouco de Dona Myriam e ao mesmo tempo preocupada com as limitações impostas por minhas dores. Tenho uma grave hérnia de disco que comprime o nervo ciático que me faz viajar de cadeira de rodas, não me permite subir escada, ficar em pé parada nem caminhar mesmo por curtas distâncias. Ainda assim, acalentava o sonho de dar banho em minha mãezinha e estava com receio de dizer que não suportaria ajudar nas tarefas domésticas quando não houvesse empregados em casa.

Lula e Lindaura tiveram a enorme generosidade de me buscar no aeroporto. Senti Lula um tanto frio comigo, sendo Lindaura quem sustentava a conversa comigo no trajeto para a casa. Como sabia que havia muita gente lá, fui disposta a dormir em qualquer lugar, ainda que sem conforto. Nada disso. Meu irmão e minha cunhada me instalaram num quarto só para mim, tendo que para isso mudar de lugar o computador da minha linda sobrinha Luciana e improvisar a dormida de alguns netos. Cheguei a dizer que isso não era necessário, que eu me ajeitava em qualquer lugar, mas eles, generosos, não arredaram pé e me mantiveram no quarto. Uma gentileza dessa é impagável. Sentia-me envergonhada por saber que a minha presença ali naquele momento não era das mais oportunas, mas eles foram cuidadosos em me deixar à vontade.

Quando fiquei sozinha com a minha mãezinha uma onda de gratidão enorme a Lula, Lindaura, Luciana, Lívia, Iasmin, Iuri, Cauã e Eduardo me tomou. Todos eles colaboraram de forma carinhosa e desprendida para que eu pudesse passar o Ano Novo e aqueles cinco dias na companhia de Dona Myriam. Quando assisti Lindaura lhe dar banho no dia em que cheguei, as lágrimas rolaram de pura comoção. Fiquei certa de que minha mãe está muito bem cuidada e isso me encheu de carinho e gratidão por eles. Não importa se talvez Lula tenha sido o filho preferido por minha mãe e que por isso possa na infância e na adolescência ter usufruído de alguns privilégios. Não importa que ele possa ter diferenças comigo que não o deixam muito à vontade. Estou disposta a pagar o preço. Importa é que ele é um filho amorosíssimo que não mede esforços para proporcionar a minha mãe o que há de melhor em condições materiais e afeto.

Lula está sempre atento quando está para faltar um remédio, estava administrando os horários das medicações controladas e toda noite aplica em minha mãe o adesivo para o mal de Alzheimer. Lindaura até que eu assumisse essa função, é quem estava dando banho em minha mãe, cuidando das suas refeições, preparando seu shake às quatro da tarde, preparando um chazinho. Tudo com muito amor e delicadeza e principalmente respeitando a necessidade de autonomia de minha mãe. Nada lhe era forçado. Se precisavam lhe persuadir de alguma coisa, era sempre com jeito bem humorado.

Assim que cheguei instalei uma cadeira cativa no quarto de minha mãe e praticamente só saía de lá na hora que ela estava deitada para dormir. Lula e Lindaura compreenderam esse meu anseio de ficar com ela o máximo possível e respeitaram. Serei eternamente grata por isso. Talvez a experiência de intimidade amorosa mais importante que tive com minha mãe foi quando eu pude pela primeira vez cuidar de lhe dar banho. As lágrimas de comoção rolaram pelo meu rosto. Ver o quanto empenhada na sua higiene corporal ela está, mesmo com muitos lapsos de memória, me tocou muito. Ver o quanto ela continua imbuída de seu papel de mãe cuidadosa, me fazia ter que segurar as lágrimas quando ela perguntava se eu não queria comer um biscoito, ou quando no banho ficava preocupada para eu não me molhar.

Foi um encontro de mãe e filha muito bonito e enternecedor. Ela estava ainda muito traumatizada pelo modo como as coisas aconteceram em Aracaju e fez queixas do jeito mandão de Sandra. Pela manhã Dona Myriam me mostrava álbuns de fotografias cuidadosamente montados por ela e fazíamos uma verdadeira hora da saudade com lágrimas e muito riso. Também líamos juntas o livro que Livinha  (filha de Lula) lhe deu de presente e que a deixou encantada. É a história de um neto que abandona tudo para cuidar de uma avó com Mal de Alzheimer. Livinha é muito sensível. Luciana, outra filha de Lula, também é muito carinhosa com a avó. Seu filho, Cauã Fraga, um adolescente muito cavalheiro, se comprometeu comigo de imprimir todo domingo o "Blá, blá, blá domingueiro..." para sua bisa ler e irá cumprir o prometido.

Depois do almoço Dona Myriam dormia e eu ficava velando seu sono. Quando acordava eu lhe dava banho e à tardinha assistíamos juntas a missa pela televisão. A fé fervorosa de minha mãe é muito impressionante e comovente. À noite, depois do jantar, assistíamos à novela "Império". Fiquei junto de minha mãe o tempo todo. Nos enchíamos de beijos e afagos. Eu a apaziguava quando ela se desculpava por seus significativos lapsos de memória dizendo que isso é natural pela experiência traumática que foi a cirurgia e que tende a se reverter. Dizia a ela que eu também já estou ficando esquecida e nunca me impacientava quando ela perguntava a mesma coisa várias vezes. Foi uma experiência de amor e respeito mútuos.

Muito dolorosamente chegou a hora de eu partir. Não consegui controlar o choro convulso e senti uma dor imensa no peito quando entrei no carro e lhe acenei pela última vez. Iuri, meu sobrinho neto de 4 anos, ao me ver aos prantos, perguntou a Lula se eu era mãe da bisa. Meu irmão me levou ao aeroporto e voltou lá para saber se eu estava bem quanto soube que o voo estava com mais de uma hora de atraso. Esse cuidado dele comigo muito me comoveu. Parti com uma lembrança terna do meu irmão (estou chorando) e profundamente agradecida a ele e à sua família pelo amor que têm por minha mãe, por terem respeitado e compreendido que eu precisava muito viver esta experiência com ela. Os caminhos da vida são às vezes intrincados e belos. Obrigada, Lula, Lindaura, Livinha, Iasmin, Iuri e Cauã !!! Deus lhes pague!!!
                                                                                          Marcia Myriam Gomes.

sábado, 27 de dezembro de 2014

28/12/14  Cara leitora, caro leitor,

É o ano de 2014 que se despede. Ano cheio de altos e baixos. Passei o primeiro semestre tomada pelo encantamento com a psicanálise que sempre se renova em mim. Nem sempre pude estudar tanto quanto gostaria. Alguns problemas de saúde próprios da idade trouxeram percalços. Mas ainda assim, senti-me animada com o esboço de possibilidade do amor voltar a bater à minha porta. Vivi muito a falta das minhas sessões de supervisão. Quando a gente chegou há relativamente pouco tempo na psicanálise ( trabalhei em torno de 30 anos como terapeuta cognitivo comportamental), o investimento no tripé formação teórica- análise pessoal- supervisão tem que ser muito alto para se dar conta de fazer uma clínica com rigor. E às vezes, a depender do momento, tem que se fazer escolhas, nem sempre as mais agradáveis.

Veio o segundo semestre. Eu ainda encantada com as vivificantes surpresas do discurso amoroso, fico sabendo que Rafael, meu filho adotivo que esteve aqui em outubro, vai se submeter ao concurso para professor da Universidade Federal do Sul da Bahia, que tem um belíssimo projeto de funcionamento. Já está se submetendo e tem se saído muito bem. Isso me enche de ânimo e alegria. Também me alegrou muito participar dos preparativos do encontro das turmas de Psicologia de 71 e 72 que aconteceu em novembro, ao qual, infelizmente, não pude comparecer.

No final de setembro tudo se modifica quando recebo a notícia da doença de minha mãe. Isso ressignificou todas as coisas. Entre o diagnóstico, a cirurgia e o processo de recuperação que está em curso, me vi uma nova pessoa. Uma urgência de resgatar na minha relação com ela o que pudesse haver do tempo a ser aproveitado minuto a minuto, me fez ficar quase que inteiramente com a atenção voltada para Dona Myriam. Não vejo a hora de chegar em Maceió e abraçá-la, poder passar o Ano Novo com ela, assistir a todas as missas que ela quiser e a que tem direito e, principalmente, auxiliá-la nas atividades de rotina que ainda não pode fazer sozinha.

Nesse processo difícil pelo qual passa minha mãe, houve sofrimento meu e dos meus irmãos e familiares, muita solidariedade dos amigos, muitas descobertas gratificantes sobre o outro, muito medo e sobretudo uma aguda tomada de consciência sobre a questão do idoso. Hoje não vou escrever sobre "Histórias Que Vivi Com Minha Mãe". Não vou escrever sobre coisas do passado, porque vivo agora, no presente, uma história com minha mãe que sinto vontade de escrever sobre alguns aspectos como o meu texto de finalização de ano para vocês.

Como pude passar tantos anos pouco atenta e talvez até pouco sensível às questões que cercam a vida dos idosos? Dou-me conta hoje que essa que vos escreve é uma pessoa idosa. Somente há poucos meses me vi seriamente defrontada com o fato de que em torno de setenta por cento dos meus pacientes estão na faixa dos sessenta anos.

Talvez a primeira vez que me vi envolvida e de perto com os dilemas que cercam a vida de um idoso, foi quando uma amiga minha muito querida, passou a sofrer e se inquietar com o quanto é desafiador para nós, já na faixa dos 60 anos, viver em relação aos pais essa difícil inversão de papéis da posição de como filho ser cuidado, para a posição de filho cuidador. Quando minha mãe começou a envelhecer, já vivíamos geograficamente distantes e nosso contato ficava restrito às visitas que eu lhe fazia, em geral em viagens de férias. Às vezes só pude acompanhar o processo de envelhecimento de minha mãe por telefone, sem esse corpo a corpo tão necessário para que a nossa ficha caia.

A experiência vivida por minha amiga com seus pais, particularmente com sua mãe, pessoa por quem eu nutria grande afeto e que foi afetada por uma doença devastadora vindo a falecer em curto espaço de tempo, mexeu muito comigo. Isso aconteceu no ano passado. Acompanhar o sofrimento da minha amiga quando a minha mãe, com a saúde fragilizada e já apresentando alguns lapsos de memória começou a despertar em mim um enternecimento muito grande e um desejo de cuidar, contribuiu muito para que em 2014 eu fosse visitar Dona Myriam em junho, época de nossos aniversários, enxergando-a de um outro lugar. Felizmente fui visitar minha mãe em Maceió num momento em que pude lhe dispensar todo meu amor e carinho. Nem de longe eu poderia imaginar que em setembro estaríamos vivendo esse turbilhão de emoções e apreensões em torno do seu adoecimento e da perspectiva da cirurgia.

Quando visitei minha mãe em junho, pude observar mais de perto o quanto a condição de pessoa idosa que já não pode dispor da própria vida do modo que quer a estava afetando. Conversou muito comigo sobre seu constrangimento e aborrecimento por precisar deixar o seu dinheiro sob o controle de meu irmão, com quem mora. Confia irrestritamente nele, mas sofria por não se sentir mais dona de suas decisões. Falou também o quanto se sentia acanhada por não poder mais ajudar integralmente minha cunhada nas tarefas de casa aos domingos, quando não têm empregados. Confessou seu sofrimento em se sentir dividida entre se alegrar com a presença dos bisnetos na casa e num momento seguinte sentir uma certa irritação com a sua natural movimentação, o que às vezes a levava a ficar recolhida por muitas horas no seu quarto.

Havia muitos momentos em que interagia muito alegre e carinhosa com Iasmin, a sua bisnetinha mais nova. Fez questão de recordar com muita alegria e vivacidade episódios vividos conosco, seus filhos, quando éramos crianças. Sua memória para eventos do passado está impecável e ela sentiu muita necessidade de relembrar traquinagens e peripécias nossas, como se quisesse se deixar tomar inteira por aquelas imagens.

 Falou de um parente seu pela linha materna que viu na televisão e que vivia em Maceió, e confessou que gostaria de encontrá-lo para partilhar com ele alguns documentos de família. Eu a auxiliei na tentativa de localizar o parente que é professor da universidade. Minha mãe oscilava entre os momentos em que mostrava empenho na busca e os momentos em que fazer aquela pesquisa a deixavam cansada e irritada. Algum tempo depois, felizmente, encontrou o parente e partilhou o que queria com ele.

Não conseguia mais manipular o computador nem entrar no Facebook. No dia do seu aniversário eu entrei na sua página e li para ela as inúmeras mensagens de congratulações que recebeu. Fez questão de telefonar a cada um agradecendo. Agora recentemente, quando estive em Aracaju por ocasião da sua cirurgia, fiquei sabendo que ela já esqueceu suas senhas. Uma pena...Ela me pediu tanto para lhe mostrar as fotos do casamento de Ana Clara (filha de uma amiga minha muito querida por Dona Myriam) e acabou não podendo ver. Gosta muito de ler o "Blá, blá, blá...." com as "Histórias Que Vivi Com Minha Mãe". Mas para isso ela precisa que alguém faça a gentileza de imprimir.

Creio que todos vocês sabem que minha mãe ter mais recentemente tomado o Hábito de Carmelita e ter vivido uma intensa atividade religiosa num período mais remoto na Paróquia de Santa Luzia em Aracaju são os acontecimentos centrais da sua vida. Encontrou na religiosidade um alento e uma resposta satisfatória para suas indagações existenciais. Tem em torno de 50 cadernos manuscritos com suas reflexões bíblicas, um dos quais está agora comigo, presenteado por ela. Na visita que lhe fiz em junho, confessou-se apreensiva quanto ao destino que seria dado a esses cadernos quando ela não estiver mais conosco. Falou muito em morrer e no receio de em vida ter cometido vários pecados. Ficava feliz quando eu dizia que pela mãe dedicada que sempre foi, seus pecados, certamente inocentes, estavam com certeza todos perdoados.

A confrontação com a morte em uma pessoa idosa deve ser um processo doloroso e controvertido. Minha mãe oscilava entre momentos em que dizia saber estar sua hora chegando e isso ser um alívio, e momentos em que era visível seu medo de morrer. Muito difícil para mim saber o que dizer numa hora dessas. Felizmente a religiosidade traz o necessário conforto de saber que as questões da vida e da morte estão na mão de Deus. E era isso que eu tentava dizer à minha mãe, nos momentos em que sentia que estava vivendo um dilema entre viver e morrer.

 A perspectiva de perda de uma mãe é uma experiência muito penosa. Perdi o meu pai quando eu tinha apenas 21 anos e julgava ter sido um processo muito traumático. Hoje já não sei mais. Me parece muito difícil perder uma mãe aos 62 anos. Talvez, um tanto enrijecidos pela idade, estejamos menos aparelhados para vivermos processos de luto, além de nesta circunstância sermos confrontados com a nossa própria morte.

Agradeço à vida estar podendo encerrar esse ano junto de minha mãe. Agradeço à vida ter tido tempo de resgatar a nossa relação que foi no passado às vezes conturbada. Agradeço à vida, quando ouço a sua vozinha frágil, só sentir ternura, vontade de acolher, saudade. Sim, sinto muita saudade. E sofro também quando sinto seu humor um tanto deprimido. E sofro também de saber que ela ainda sente dor no lugar onde foram feitos os cortes cirúrgicos e padece por ter que lidar com algumas limitações às quais está ainda submetida. Por exemplo, se constrange muito por não poder ainda tomar banho sozinha e ter que "dar trabalho" a meu irmão e minha cunhada.

 Imagino que uma das coisas que entra em questão quando já se é idoso e se tem uma mãe idosa, é avaliar o quanto pudemos elaborar e deixar para trás conflitos familiares, mal entendidos, ruídos na comunicação. Quando um ente querido adoece gravemente, naturalmente devem vir à tona questões familiares mal resolvidas. Particularmente disputas e ciúmes entre irmãos, tentativas de uns exercerem poder sobre outros, jogos de predileção e preferências, falta de diálogo e de partilha nas decisões. Deve ser muito, muito solitário enfrentar o adoecimento o mesmo a perda de uma mãe quando os irmãos são desunidos.

Por isso, tenho torcido muito pela minha união com meus irmãos. Tenho pensado em qual pode ser a melhor forma de nos conscientizarmos que nesse processo de recuperação de uma cirurgia delicada, nossa mãe precisa muito que nos mantenhamos sensatos, cordatos, amorosos uns com os outros, dedicando cada um a ela o melhor de si, tentando ao máximo transcender questiúnculas de desavenças familiares, de discórdias entre irmãos, de prevalência do poder de um sobre o outro. Acho que tentar não se deixar tomar por essas questões é o projeto de Ano Novo que deixará Dona Myriam melhor e que nos deixará bem cada um com o outro.

Evidentemente tenho meus projetos profissionais, culturais, sociais e amorosos para 2015. Desejo que todos vocês realizem os seus. Entretanto o meu projeto maior é tentar me manter unida de igual para igual com meus irmãos para que possamos dispensar a Dona Myriam todo carinho e cuidado que ela precisa e merece. Esse texto depoimento de hoje vai ser publicado no Facebook para que minha irmã Lily que mora em Rio de Contas tenha acesso. Fora isso, será enviado somente aos amigos íntimos e àqueles que vêm acompanhando com carinho o processo de recuperação de Dona Myriam. No dia 4 de janeiro estarei em Maceió na companhia de minha mãe. Por isso não escreverei "Blá, blá, blá..." FELIZ  ANO  NOVO  A  TODOS !!!!!!!!!!!!!!!!!

                                                                 Marcia Myriam Gomes.  

sábado, 20 de dezembro de 2014

21/12/14      Olá, amigos leitores!!!

Então, quem diria, e é o ano que finda. Para quem gosta, fazer o balanço de ganhos e perdas. Alguns sonhos realizados, uns tantos projetos frustrados, que movidos pelo desejo, podemos recolocar na pauta das possíveis realizações para 2015. Acho que uma das coisas que mais quero para o Ano Novo além de saúde, paz e ver Rafael, meu filho adotivo aprovado no concurso para professor da UFSB ( passou e muito bem na prova do currículum, segunda etapa do processo), é renovar meu anseio de me manter causada pela psicanálise. Estudar cada vez mais, fazer minha supervisão, escutar meus pacientes com compromisso e rigor.

Dona Myriam Urpia, minha mãe, vai bem obrigada. Seu processo de recuperação da cirurgia caminha com progressos. Provavelmente já está hoje curtindo a companhia dos familiares em sua casa em Maceió, e sentindo saudades dos que por quase dois meses a receberam com todo o carinho e dedicação em Aracaju. Para distraí-la e também para que vocês continuem fazendo contato com as facetas pitorescas da sua personalidade, continuo hoje a escrever  "Histórias Que Vivi Com Minha Mãe".

Para fazer um contraponto à mídia, que não fala de outra coisa senão Natal, e, o que é pior, na perspectiva oportunista do consumo, resolvi escrever hoje sobre as experiências de minha mãe na dança de salão e como foliã de carnaval. Daí me dei conta de que aos 61 anos o funcionamento dos neurônios (será essa uma boa explicação?) cava um fosso às vezes fundo nas nuances das recordações. Dei-me conta que não me lembro mais principalmente de alguns nomes dos locais e que o enredo do que é relatado fica meio fragmentado por algumas lacunas. Aí vem a duplo propósito o nome da crônica de hoje. É um "lapso da dança".  Afinal, já faz muito tempo que escutei ou vivi essas histórias. Tomara que vocês, junto com Dona Myriam , se divirtam muito.

                                                          O  LAPSO  DA  DANÇA.

Dona Myriam é a caçula de 7 irmãos, três mulheres e quatro homens. Filha de família tradicional em Salvador, cujo pai tinha uma situação financeira confortável, nem por isso ficou livre de percalços e conflitos no seu desenvolvimento, particularmente na adolescência. É que Eduardo Urpia, meu avô, era muito repressor e severo e, o que é pior, avarento. Além dos gastos que fazia para prover a casa, não se dispunha a ter despesas que proporcionassem lazer aos filhos.

 Então Dona Myriam vivia se equilibrando na corda bamba de num momento, usufruir de bens e serviços compatíveis com a situação sócio- econômica de quem morava num casarão no bairro da Graça, e em outro momento passar por privações materiais descabidas. Parece que isso a ajudou a ser muito criativa. Ao lado disso, para contrabalançar a mão de vaca e a rabugice de meu avô, havia, felizmente, a enorme generosidade e alegria de Dona Orminda, minha avó, que não media esforços para ver seus filhos felizes.

Minha mãe sempre teve pendores para dança. Ainda criança parece que fez balé. Provavelmente financiado por tia Noêmia, uma espécie de madrinha adotiva que a paparicava estimulando suas inclinações. Entrando na adolescência tornou-se um pé de valsa. Quando se punha a desfilar e rodopiar nos salões do Clube Fantoches, da Associação Atlética e do Baiano de Tênis, não sobrava para mais ninguém. Era a rainha da festa. O grande problema era como chegar ao baile. Eduardo Urpia reprimia e não autorizava que minha mãe saísse com as amigas para dançar. Também parece que não era costume na época os pais autorizarem essas liberdades. Então minha mãe recorria à companhia de meus tios e junto com eles armava estratagemas inimagináveis para sair à noite de casa. Era levada aos bailes pelos seus irmãos, protegidos pelos mais criativos pretextos.

Um desses episódios muito interessantes que ela me contou, foi a respeito de um grande baile que ocorreria na Associação. Desculpa para enganar meu avô ela logo arranjou junto com tio Edmundo que iria acompanhá-la. Mas era uma festa muito especial e faltava o vestido. Passou-se uma semana das mais mirabolantes maquinações para ver como conseguir o dinheiro de Eduardo Urpia. E nada.... não teve estratagema certo. Na manhã do dia do baile minha mãe continuava sem o vestido. Então minha avó Orminda não contou conversa. Cortou um bom pedaço do tecido da cortina da sala e providenciou confeccionar o traje. Não era um baile à fantasia, mas minha mãe paramentada de cortina, rodopiou e deu show no salão. Fez o maior sucesso. Viram com quem ela aprendeu as peripécias de mãe criativa?

Se gostava de dançar, então seu comparecimento ao carnaval era garantido. Já casada, comprava bonitas fantasias para mim e Sandra, com direito a confete, serpentina e lança-perfume. Ai, como me lembro daquele cheiro! Ai, como era bom brincar de jogar lança-perfume no outro!! Bons tempos de carnaval. Sem assaltos, sem violência, durante o dia íamos aos bailes nos clubes e à tardinha assistíamos no centro da cidade ao encantador desfile dos carros alegóricos. Era uma época em que os moradores da Avenida Sete deixavam suas casas abertas e colocavam banquinhos nas calçadas sem qualquer receio. Lembro particularmente (eu devia ter 3 para 4 anos) do dia em que assistimos ao desfile fazendo nosso ponto de parada no Edifício Sulacap. Havia um carro alegórico com espécie de efeitos especiais luminosos muito bonitos, como se fosse em cascata. Lembro ainda hoje daquela imagem.

Na nossa adolescência, já não mais frequentávamos os clubes e saíamos mascarados junto com nossa mãe atrás do trio elétrico. O trio elétrico era ainda naquela época uma inocente "fubica" atrás da qual se comprimia uma multidão sem nenhum outro propósito senão dançar e se divertir. Entre a passagem de um trio e outro, Dona Myriam vestida de careta (como se chamava naquela época), encontrava pessoas conhecidas na avenida e brincava com elas lhes dirigindo os mais inocentes e divertidos gracejos. Acho que além da dança ela tinha vocação para teatro. Tamanha era a variedade de vozes que entoava e de gestos que encenava protegida pelo anonimato da máscara. Dizia-se que o melhor careta era aquele que passava grande parte de tempo brincando com alguém sem ser reconhecido. Apesar dos visíveis e grandes olhos azuis, Dona Myriam conseguia esta proeza. Nós ríamos muito tentando imitá-la, mas nem sempre conseguíamos. Muitas vezes no meio da brincadeira éramos literalmente desmascarados. Dona Myriam era um careta imbatível! Às vezes pegava no pé dos emproados juízes do Fórum e ninguém desconfiava da sua identidade.

Lembro especialmente de um carnaval em que fomos com minha mãe a um baile que tinha um concurso de gays fantasiados. Era um baile bonito, alegre, descontraído, muito famoso na época e, se não me engano, acontecia na sede do Teatro Villa Velha. A memória falha. Dona Myriam conseguiu no Fórum os ingressos para nós de última hora e tivemos que improvisar as fantasias. Ela vestiu-se de Chaplin mascarado. Prendeu o cabelo, arranjou não sei onde um fraque, as calças e os sapatos, pegou às escondidas uma cartola e uma bengala de meu avô, maquiou-se toda para não ser reconhecida, colocou a máscara e lá fomos nós.

 Dançamos muito, brincamos com muita gente até que encontramos um ex-namorado de minha mãe que tinha a infelicidade de ter um nome de sal de fruta. Tinham namorado quando ela tinha uns quinze anos, antes de conhecer meu pai e terminaram o flerte porque ela, de brincadeira de adolescente, uma vez ao invés de chamá-lo pelo nome, chamou-o literalmente de "sal de fruta".

 Minha mãe já há um bom tempo separada e ele sozinho na festa e sem máscara. Dona Myriam queria só brincar e se divertir e tirou muita onda com o rapaz sem ser reconhecida. De vez em quando ele dizia: "ainda não identifiquei quem você é, mas conheço esses olhos". Aí ela disfarçava, rodopiava, fazia mais um novo tom de voz e ele permanecia intrigado.

 Ela dizia a ele coisas sobre o seu passado de rapaz adolescente e nele ia crescendo vertiginosamente o desejo de reconhecê-la, sem sucesso. Dona Myriam, o Chaplin mascarado, estava se divertindo muito e ele cada vez mais intrigado. Ela foi se tornando cada vez mais brincalhona, até que inadvertidamente cometeu o maldito lapso. Ele a chamou para dançar no salão e ela respondeu: "agora não, sal de fruta, estou um pouco cansada". O homem não contou conversa: "você é Myriam. A única pessoa na vida que teve uma vez o atrevimento de me chamar assim". Cometido o lapso da dança o Chaplin estava irremediavelmente desmascarado. Não lembro mais o que fez Dona Myriam com a vergonha que passou e que resposta deu a Eno. Decididamente mais uma vez o flerte estava acabado.
                                                                                               Marcia Myriam Gomes.

domingo, 14 de dezembro de 2014

14/12/2014    Cara leitora, caro leitor,

O Natal vai chegando. As compras consumistas me consomem a ponto de fugir quilômetros delas. As convenções oportunistas do comércio capitalista não me fisgam. Mesmo que fisgassem, profissional autônomo não recebe décimo terceiro salário e essa época de festas de fim de ano os pacientes debandam, fazendo longos recessos de férias. Então ainda acho mais verdadeiro e oportuno o Natal com Jesus menino numa manjedoura.

Tenho muito a celebrar e a agradecer à vida neste fim de ano. Meu filho adotivo tirou uma excelente nota na primeira etapa do concurso para professor da UFSB, a universidade de seus sonhos. Dona Myriam Urpia, minha mãe, mulher admirável por sua força criativa diante das adversidades, vai se recuperando bem das duas cirurgias a que se submeteu. Finalmente já tirou o dreno. Não sabe ainda se já retorna a Maceió porque ainda sente dores e está vulnerável para encarar a viagem.

Quero agradecer muito a Graça, sua cuidadora diurna, pela dedicação, carinho e competência que não mede sacrifícios para dispensar a Dona Myriam. A minha querida irmã Sandra e a meu cunhado Alfredo, que a receberam na sua casa desde o dia 4 de novembro, com uma inacreditável disponibilidade amorosa, jamais encontrarei palavras ou gestos para agradecer. Também sou muitíssimo grata a meu irmão Lula e a Lindaura, minha cunhada, por tudo que têm feito por minha mãe.

Eu vou sendo acalentada pelo forte desejo de estar com Dona Myriam em breve. Enquanto isso não acontece, além dos telefonemas diários que diminuem só um pouquinho a saudade, para diverti-la e me sentir presente no seu cotidiano, continuo escrevendo a série de crônicas intitulada "Histórias Que Vivi Com Minha Mãe". O episódio narrado hoje, ocorrido quando eu tinha 2 anos, provavelmente me foi contado por ela, mesmo que eu teime em pensar que me recordo daquele dia. Bom, deixemos de lero lero e vamos à história!!!

                                               PAPAI  NOEL,  PAPAI  DO  CÉU.

Segundo me contam, eu nasci chorona. Para alguns, era uma criança dengosa e chata. Fortes, não é, esses significantes? Para outros, era uma criança muito sensível, que demandava um certo cuidado especial. E para Bantu, apelido de nossa empregada que fazia as vezes de babá, eu era menina chegada a um "calundu".

Na verdade, eu nasci prematura de peso e muito doentinha. Tive duas pneumonias que quase me levaram à morte nos primeiros meses de vida e não me alimentava bem. Tinha Lió, minha madrinha que me paparicava muito e também de certa forma recebi atenções especiais de meu pai, que era médico. Minha mãe me enchia de cuidados para eu não adoecer.

 Longe de mim fazer interpretações de colorido psicanalítico sobre o fato de eu ter sido uma criança que chorava muito, que estranhava num primeiro momento situações novas, um tanto assustadiça. Psicanálise feita com rigor, escapa de querer adivinhar o que veio primeiro, se o ovo ou a galinha. De mais a mais, aqui sou apenas uma "escrevinhadora". Portanto deixo as construções fantasmáticas a respeito das razões de eu ter sido assim ou assado, para outro espaço mais apropriado.

Estávamos em 1955. Morávamos com minha avó paterna e mais a família de tio Zezito, na Rua Pedro Júlio Barbuda no bairro de Nazaré. Não preciso dizer porque vocês já sabem, mas digo que éramos pobres. Não me lembro se quando eu contava 2 anos meu pai já estava formado em medicina. Mas com certeza ainda precisava recorrer a seus talentos de fotógrafo para manter a família.

Havia chegado o mês de dezembro e lá em casa sempre se celebrava o Natal. A árvore já estava armada com todos os presentes e saíamos à noite para ver a iluminação da Avenida Sete e da Rua Chile, num tempo feliz onde se consumia muito menos e não havia ainda a praga dos shoppings centers.

 Numa dessas idas à rua, provavelmente sem a minha presença, é que meus pais tiveram a ideia de comprar o insólito objeto. Era um grande cartaz colorido com uma vistosa figura de rosto de Papai Noel. Talvez pensassem com aquela figura em reforçar para mim o conceito sobre o bom velhinho. Segundo me contam, àquela altura, eu já era capaz de responder "Papai Noel" quando me perguntavam quem viria entregar na noite de Natal os presentes que estavam na árvore.

O cartaz era muito bonito e vistoso. Um Papai Noel com gordas bochechas bem rosadas e olhos azuis muito vivazes. Para fazerem surpresa, enquanto eu dormia colocaram a figura do bom velhinho na parede de meu quarto. Não sei o que pensavam os adultos. E a gente lá sabe, o que pensam os adultos? Provavelmente pensavam que ao acordar eu seria capaz de reconhecer o Papai Noel e ficar feliz de ver sua figura, associando-a com todos os presentes que me traria no Natal.

Ledo engano. Eu era mesmo chegada a um "calundu". Quando acordei e bati os olhos na figura, abri o maior berreiro. Entrei em pânico. Vieram Lió, meu pai e minha mãe me consolar explicando que aquele era o bom velhinho do Natal que nos entregaria os presentes. Eu chorava mais ainda. Fiz birra, esperneei. E dizia: "não, não, não quero Papai Noel". Todas as técnicas de persuasão foram usadas sem sucesso. Enquanto  o cartaz permaneceu na parede eu chorava desconsoladamente e até vomitei.

Depois do transtorno gástrico, resolveram tirar o cartaz da parede, rasgar e jogar no lixo. Ainda assim eu não aquietei. Segundo minha mãe me contou, somente quando ela ficou sozinha comigo, me pôs no colo e me acariciando falou baixinho que Papai Noel era na verdade um mensageiro de Papai do Céu, eu comecei a me acalmar e parei de chorar.

Quando Dona Myriam ler essa crônica e comentar comigo, sendo ela uma religiosa que tomou o Hábito de Carmelita, provavelmente fará uma interpretação religiosa do acontecido. Poderá até supor que eu já tivesse um conceito e bom conceito de Papai do Céu. Eu tenho cá minhas dúvidas. Acho que para uma criança de 2 anos, ainda tanto faz Papai Noel ou Papai do Céu. Ainda mais naquele tempo em que meus pais não eram religiosos. Posso estar enganada, mas penso que o segredo do meu apaziguamento está na fala baixinha de Dona Myriam me dando colo, independente do que ela estivesse me dizendo. A voz de Dona Myriam sempre foi tão musical !!!

Acho que ainda hoje quando tenho meus medos dessas estranhas figuras de "Papai Noel" que assustam o imaginário dos adultos, como a violência contra os socialmente desfavorecidos, contra os que padecem de sofrimento psíquico, contra os negros, os indígenas, os deficientes, os idosos, as mulheres, as crianças, ou mesmo quando sou assombrada por meus fantasmas existenciais, corro para o telefone para ouvir a voz musical de Dona Myriam. E fica tudo certo, não importa o que ela diga. O que importa é a voz.
                                                                                                            Marcia Myriam Gomes. 

domingo, 7 de dezembro de 2014

07/12/14  Cara leitora, caro leitor,

Aqui vou dando prosseguimento à série de crônicas intitulada "Histórias Que Vivi Com Minha Mãe", com a principal finalidade de entretê-la no seu processo de recuperação da cirurgia que, felizmente, também graças ao apoio de vocês, vai de vento em popa. Dona Myriam está mais alegre e animada. Não sei se Sandra, Alfredo ou Daniela. Alguém muito gentilmente imprimiu o "Blá, blá, blá..." de domingo passado para ela ler. Leu e se divertiu muito recordando-se das histórias de Taperoá.

 Passado o momento mais traumático que lhe atrapalhou um pouco a memória, Dona Myriam está muito lúcida e inclusive se lembrou muito vivamente de episódios vividos em Taperoá dos quais eu não me lembrava. Lembrou por exemplo, de um fora muito indiscreto e inconveniente que eu com 4 anos, dei com "Seu" Cazuza, chamando-o de fantasma, numa noite de festa em nossa casa. Ele, para a minha cabeça de criança, era um senhor muito esquisito, que além de usar um sapato branco, coisa inusitada para a época, por ter um defeito nas cordas vocais, falava fino e grosso.

Dona Myriam todo dia me pergunta quando será o aniversário de Iasmin, sua bisnetinha que mora em Aracaju. Está entusiasmada com a perspectiva do evento que ocorrerá nos dias próximos. Se tudo der certo tirará o dreno da cirurgia na próxima terça-feira. Está melhor adaptada à presença das cuidadoras, ciente de que este é um momento passageiro e que em muito breve ela poderá estar de volta a seu quarto em Maceió, fazendo as arrumações de que tanto gosta.

 Sandra, Alfredo e Daniela, cada um fazendo uso das melhores habilidades que tem, continuam cuidando dela com desvelo. Lula, meu irmão e Lindaura, minha cunhada, fizeram num primeiro momento uma espécie de ponte Maceió-Aracaju, para prestar assistência a minha mãe. Nos falamos pouco para Dona Myriam não se cansar, mas diariamente. Eu fico aqui torcendo para que possa chegar um momento de abraçá-la de novo com todo meu amor.

Esperando que Sandra ou Alfredo ou Daniela possam imprimir o texto para Dona Myriam ler, conto hoje mais um episódio que dará a vocês o prazer e alegria de se defrontarem com a generosidade e a criatividade desta mulher maravilhosa que eu tenho o privilégio de ter como mãe.
                                                      BOA  INTENÇÃO  DE  MÃE.

Estávamos em 68. A dureza da ditadura militar e eu na militância de esquerda. Anos de chumbo. Dona Myriam trabalhava arduamente para sustentar os quatro filhos e vivia muito preocupada com a possibilidade de eu ser presa e torturada pela violenta repressão. Ela era secretária do setor de urologia do Hospital das Clínicas, chefiado pelo muito simpático e doce velhinho de olhos azuis, Doutor Jorge Valente.

 Salário curto o de minha mãe. Mas muito carinho e elogio a seu desempenho por parte de seu chefe. De vez em quando minha mãe nos levava a visitar o setor, para prestarmos solidariedade principalmente aos idosos e às crianças que lá estavam internados. Assim aprendíamos que viver com dificuldades financeiras não era a coisa pior do mundo, e ao invés de olharmos para nosso próprio umbigo, olhávamos para o outro que sofre, com generosidade e respeito. Dona Myriam era a organizadora da festa de Natal do setor de urologia e arrecadava fundos no hospital inteiro para presentear os pacientes.

Nesses dias em que estive muito próxima dela acompanhando sua cirurgia em Aracaju, muito emocionada, ela me confidenciou o quanto de saudade e gratidão sentia por Solange Barbosa, minha tia, sua irmã bem mais velha e queridíssima, que lhe conseguiu aquele emprego com o bondoso Doutor Jorge Valente. Trabalhando no Hospital das Clínicas Dona Myriam fez muitos amigos, entre eles o muito afetuoso e na época residente de medicina Antônio Vinhais. Vinhais frequentava muito a nossa casa para nos visitar e comer o vatapá primorosamente preparado por minha mãe.

Morávamos no bairro da Graça na casa de meus avós maternos. Tempo em que precisávamos dar nó em pingo d'água para elaborarmos a aguda contradição de vivermos num casarão de família tradicional e passarmos pelas mais duras privações materiais. Pois em junho de 68 eu estava fazendo 15 anos. Nos meus hábitos nada burgueses de militante, eu não cogitava de fazer uma festa de aniversário e mesmo que cogitasse, não tínhamos recursos para isso. Então a data do meu aniversário que caiu num dia de semana, passou em brancas nuvens. Talvez um modesto bolinho para nós cinco e acabou-se a conversa.

No sábado seguinte a meu aniversário, logo de manhã minha mãe me pede para passar num armarinho da Avenida Sete para pegar um embrulho de encomenda. Não me disse o que era, nem eu perguntei. Em seguida ela me passou o telefone para eu falar com uma prima paterna que me convidou para passar o sábado inteiro na sua casa. Assim foi feito. Peguei a encomenda de minha mãe na Avenida Sete e passei o resto do dia na casa de minha prima, só retornando à minha casa na Graça lá pelas oito da noite.

Chegando no fim de linha do Bairro da Graça, saí do ônibus e desci a Euclides da Cunha para voltar para casa. Ao chegar mais perto, vi que algo fora da rotina se passava. Dona Myriam e um grupo grande de pessoas me esperavam na varanda, acenando. Subi as escadas muito curiosa, talvez até um pouco assustada. Mal deu para eu reconhecer Vinhais e alguns colegas meus do Manoel Devoto, e todos começaram a cantar "Parabéns".

 Eu, rubra de vergonha, agradeci os cumprimentos compreendendo que havia ali uma festa organizada em homenagem a meu aniversário. Então minha mãe toda feliz me disse que só faltava eu vestir o vestido. Perguntei: "que vestido?" E ela respondeu: "Esse que você traz na mão". A moral da história era que o embrulho que Dona Myriam me mandou pegar pela manhã no armarinho, era meu vestido de festa de aniversário que ela havia mandado confeccionar. Como esquecer dele? Cor de rosa com bolinhas brancas, de mangas compridas, saia bem rodada, punhos e gola brancos com biquinho de renda. Eu muito comovida e ainda um pouco envergonhada, entrei para por o vestido e me arrumar à altura da ocasião.

Enquanto me arrumava dava pulos de alegria e tremia de emoção. Compreendi que o telefonema da prima era parte da armação para me manter fora de casa enquanto se faziam os preparativos.  Bem de acordo com o mês de junho, era uma festa de São João. A varanda estava toda enfeitada de bandeirolas. No quintal havia uma fogueira assando milho e batata doce. Além das comidas todas típicas de São João havia também sarapatel primorosamente preparado por Dona Myriam. Minha mãe havia armado uma das dela e eu nem de longe desconfiara. Depois fiquei sabendo que ela vinha há muitos meses juntando tostões para fazer a festa. Dona Myriam (ai, as lágrimas), é assim.

Mas a maior surpresa ainda estava por vir. Alguns dias antes eu havia confidenciado a minha mãe que no Manoel Devoto estava sendo paquerada por um rapaz muito bonito de nome Vanilo. Naquele momento eu estava sofrendo muito por ter sido descartada por um namorado por quem era apaixonada. Quando eu entro na sala onde tocava música dançante, quem estava lá? Vanilo em pessoa que logo me tirou para dançar. Dançamos muito e começamos a namorar naquela noite.

 O namoro foi um excelente remédio para minha dor de cotovelo mas durou pouco. Vanilo era bonito mas na intimidade não fazia o meu tipo. Não era politizado, não gostava de ler, e envaidecido com sua beleza esqueceu-se de tornar-se sensível. Quando pus fim ao namoro, toda vez que no colégio eu passava por ele, escutava o assovio daquela famosa canção que diz assim: "Esse amor que eu não esqueço e que teve seu começo numa festa de São João, morre hoje sem foguete, sem retrato e sem bilhete, sem luar, sem violão...." e assim por diante.

 Vanilo me esquecer, foi difícil. Agora estou recordando que no ano passado encontrei-o no prédio onde tenho consultório. Acenou para mim, mas não o reconheci e ele se identificou. Continua um senhor bonito. Será que com o passar dos anos tornou-se mais sensível? Naquele encontro não deu para saber. Conversei com ele com um certo desinteresse e muito apressada. Tinha um paciente e estava bem em cima da hora. Vanilo foi fácil de esquecer. Mas o que já com 61 anos, a gente nunca esquece, é boa intenção de mãe amorosa.

                                                                         Marcia Myriam Gomes.