sábado, 21 de fevereiro de 2015

22/02/2015                          O  LEGADO  PORTUGUÊS  DO  CARNAVAL.

Aninha, uma amiga querida e amante das Letras, me escreveu ontem dizendo que enviou a minha crônica de domingo passado intitulada "A Cena e os Bastidores", para alguns familiares e amigos. Embora convicta de que o envio não foi pelas qualidades literárias do texto  (quem pode escrever alguma coisa razoável em meio ao barulho ensurdecedor dos trios elétricos e ao mau humor que isto nos causa?), fiquei contente ao saber da notícia. Aninha está morando em Portugal e enquanto seu marido faz lá um pós-doutorado, ela deve estar explorando as riquezas literárias da terrinha. Aninha tem pós em Letras e escreve muito bem. Tenho recebido  alguns bonitos relatos da aventura portuguesa do casal. 

Fiquei contente de pensar que ela pode ter mostrado a alguns amigos portugueses o meu depoimento sobre o carnaval, expressando minha compaixão por aqueles que vivem os bastidores da festa. Assim, se os estrangeiros que aqui estiveram por ocasião da festa, só tiveram oportunidade de ver o lado da cena montada por A.C.M. Neto, pelo menos por lá por Portugal fica-se sabendo um pouco que nem tudo são flores como a imprensa divulga.  Não que eu goste que se fale mal da minha pátria. Não se trata disso. O que não gosto é que prolifere a propaganda enganosa e que políticos oportunistas tirem proveito disso.

 E tem mais. A propósito de notícias alvissareiras de Portugal, mais ou menos uma semana antes dos festejos de Momo, almocei com um amigo querido que também está indo por agora fazer o pós-doutorado na terra de Camões, Fernando Pessoa e Saramago. Esse amigo, muito gente boa, ofereceu a sua nova residência européia para eu me hospedar caso eu deseje passar uns dias por lá. Eu serei mesmo boba se não fizer bom uso dessa oferta fraternal tão generosa. Só pela companhia já valeria muito a pena. E que ele também aproveite da estada lá para falar dos bastidores do carnaval no Brasil.

Também no pós carnaval, a propósito do que escrevi na minha crônica, uma amiga me escreve da Espanha comentando que adorou "a máquina de fazer espanhóis". Se ela adorou, que digo eu?  O livro finalmente me chegou às mãos na quarta-feira de cinzas. Há mais ou menos um ano ele me foi recomendado. Sabem vocês dessas coisas que a gente tem anotadas para comprar e nunca compra? Assim foi. Finalmente, bem antes do carnaval fui à livraria. Mas quem disse que encontrei? Só para quando finalizassem as festas. O livro de valter hugo mãe ( nome artístico com letra minúscula bem a propósito) estava fadado a ser o legado português do carnaval.

 Escrito por Valter Hugo Lemos, que mesmo que perguntemos a Freud jamais ficaremos a saber a razão da troca do sobrenome Lemos por mãe, é um romance tocante, bem escrito, irônico, mas sobretudo de uma sensibilidade genial para um jovem escritor angolano de quarenta e poucos anos que parece saber sobre as dores, as casmurrices e a sabedoria dos velhos, até mesmo mais do que eles próprios. Um arguto conhecedor dos idosos no seu modo de estar no mundo. Conhecedor de pessoas idosas e da idosa Portugal da ditadura salazarista.

 O livro é a história de um barbeiro português de 84 anos que tendo ficado viúvo depois de um casamento feliz, é levado pelos seus filhos para viver num asilo para velhos. Numa narrativa surpreendente vemos esse personagem encarnar uma reflexão sobre o próprio passado entremeada por uma reflexão sobre o papel de Portugal no mundo. Tudo se passa enquanto o idoso vai explorando novas formas de encaminhar sua vida, quando se vê confrontado com a insólita situação na qual os filhos (impiedosos?) lhe colocaram. Tudo escrito com irreverentes tiradas linguísticas "saramagóides" e uma rara originalidade de imagens e metáforas.

O autor além de romancista é poeta, artista plástico e cantor. Ganhador do prêmio literário José Saramago, foi muito elogiado por este escritor e publicou na Quasi Edições obras de Caetano Veloso, Manoel de Barros e Ferreira Gullar. Parece gostar de bons escritores contemporâneos brasileiros. 

Pois é, amigos!! O carnaval com suas sandices quase me tira do sério. Me deixou uma crise de coluna que mal posso escrever. Mas o que seria de nós não fossem os legados? No pós carnaval, muito mais que dor na coluna que passa, ganhei coisas que não passam  com "a máquina de fazer espanhóis". 
                                                                                                  Marcia Gomes. 

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