domingo, 31 de maio de 2015

31/05/2015 O RESTAURANTE "CASA DE TEREZA" EM SALVADOR PODE SER UM ENGODO??

Meus amigos e leitores, hoje aproveito o espaço da crônica dominical para fazer um comunicado. Para alertá-los quanto ao perigo de sermos desinformados, termos boa fé e confiarmos na palavra de desconhecidos com a maior credulidade. E para adverti-los: na minha modesta opinião e com base na minha experiência, sejam cuidadosos ao pisar os pés no restaurante "CASA  DE  TEREZA" que fica na Rua Odilon Santos, número 45, no bairro do Rio Vermelho em Salvador. O nome oficial do restaurante é "TEREZA  PAIM  GASTRONOMIA  LTDA" e o CNPJ é 11.255.233/0001-51 . Peguei esses dados na nota de venda que felizmente mantive em meu poder.

Passo a relatar em seguida o que me aconteceu indo até lá. Como já transcorreram alguns dias da experiência vivida, pode ser que o meu relato seja impreciso, omitindo alguns detalhes ou mesmo carregando nas tintas em outros. A nossa memória é falível, ainda mais sob o impacto de desgaste emocional. Mas tentarei ser o mais fiel possível aos fatos como ocorreram.

No dia 16/05 passado fui a esse restaurante a convite de Rafael, pessoa que considero como filho. Achei um pouco caro, mas a comida era aceitável. Quando pedimos a conta e a moça de nome Judith trouxe a máquina para passarmos nossos cartões, eu jamais poderia imaginar que passaria a viver um pesadelo kafkeano por ingenuidade e falta de informação. Rafael pediu à Sra. Judith para passar o seu cartão no débito. Ela manipulou o cartão na máquina enquanto Rafa e eu conversávamos distraídos, sem olhar o que ela fazia, e a senhora nos disse então que o cartão de Rafa não foi autorizado para débito. Rafa ficou surpreso e se perguntou o que haveria acontecido com seu cartão. Para encurtar a conversa (Rafa estava muito cansado e precisava dormir) me ofereci para pagar a conta com meu cartão e fui muito clara ao dizer à Sra. Judith que era no débito. Fui muitíssimo clara. 

Eu e Rafa continuamos conversando sem observar o uso que ela fazia da máquina, mas quando ela me deu o recibo azul saído da máquina, felizmente eu tive o cuidado de olhar. Nossa conta havia sido registrada na máquina como crédito. Então eu gentilmente reclamei porque fazia questão que fosse débito. Ela então disse gentilmente que ia fazer o estorno e corrigir o seu equívoco. "Não conseguiu" estornar. Alegou que era porque a empresa CIELO não opera com estorno em fins de semana. Eu pedi que ela resolvesse o problema porque fazia questão de pagar a conta no débito. Ela insistiu em dizer que não conseguia estornar. Então já um tanto chateada com a situação, eu disse que um acontecimento como aquele merecia ser publicado na internet porque semelhante equívoco não se justificava num restaurante do preço e da qualidade do "CASA  DE  TEREZA".

Então a Sra. Judith nos disse que ia com certeza fazer o estorno na segunda-feira seguinte (estávamos num sábado) e que para se desculpar do transtorno, nós não pagaríamos nada pelo almoço. Ficaríamos como convidados. Tomou meu nome completo e meus telefones para ligar na segunda-feira pela manhã e me dar o número do protocolo do estorno. Me deu o telefone 33293016 caso eu quisesse fazer contato. Eu felizmente guardei a nota da nossa conta no restaurante e o recibo azul da CIELO constando a cobrança em crédito. Eu e Rafa saímos do restaurante satisfeitos com a solução encontrada pela Sra. Judith. Ela nos tratou com gentileza e parecia ter resolvido nosso problema com elegância. Não sabíamos que o pesadelo Kafkeano estava sendo iniciado e que como dois bobos crédulos, talvez tivéssemos sido enganados. Chegando em casa Rafa fez a transferência de uma quantia de sua conta para a minha com a maior facilidade. Então por que será que no restaurante o seu cartão foi não autorizado para débito? Inabilidade da Sra. Judith para operar a máquina de cartão?

Embora crédula, eu observei que a Sra. Judith não me telefonou coisa nenhuma na segunda-feira de manhã para dar o número do protocolo do estorno. Então liguei para ela que me pediu um prazo até 15:00 h para me dar o número do protocolo. Chegaram as 15:00 h e a Sra. Judith não ligou. Então já meio aborrecida,  eu liguei para ela que num tom que me pareceu um tanto dissimulado, me deu o número de telefone da CIELO  (40025472) e número de protocolo 5931412 me assegurando que o estorno havia sido feito.

Então, mal impressionada com o tom da voz da Sra. Judith que me pareceu dissimulado, eu liguei para o número de telefone da CIELO dado por ela para checar o número de protocolo e se o estorno havia sido feito. O número supostamente da CIELO pedia o número do CNPJ do estabelecimento. Como eu não sabia que o número do CNPJ consta da nota de venda que estava em meu poder, fiquei sem ter como me comunicar com aquele número de telefone e sem poder checar o número de protocolo e se o estorno havia sido feito. Mas comecei a suspeitar levemente que havia algo errado na minha comunicação com aquela senhora e telefonei para o banco para checar o meu cartão. Fui informada pelo banco que aquela conta constava como crédito na minha fatura e que nenhum estorno havia sido realizado.

Ingênua, desavisada, e ainda dando um crédito de confiança ao estabelecimento, voltei a telefonar para a Sra. Judith comunicando o que eu constatei junto ao banco. Ela então me informou que o estorno havia sido feito pelo Sr. Wellington, responsável pelo setor financeiro, e que eu deveria passar a me entender com ele. Se não me engano, àquela altura já estávamos numa quinta-feira. Sou crédula, ingênua e desinformada, mas não tolero ser enganada. Liguei para o Sr. Wellington e ele me disse que o banco não tinha ainda registro do estorno porque são necessários 5 dias úteis. Se estávamos na quinta-feira, no dia seguinte se completaria o prazo de 5 dias úteis. Mas o Sr. Wellington me disse que me telefonaria somente na segunda-feira, dia 25/05 apenas para me certificar que estava tudo resolvido. Então, muito aborrecida, o adverti que se eu não tivesse notícia do estorno até o dia 25, acionaria judicialmente o restaurante "CASA  DE  TEREZA" e divulgaria o acontecido na internet.

Na segunda-feira, dia 25/05, ligo novamente para o setor de cartões do banco e me informam que a conta do restaurante consta na minha fatura como crédito e que dela nenhum estorno havia sido feito. Então, para lá de aborrecida, ligo para o Sr. Wellington e digo que vou passar no restaurante para falar com os proprietários acompanhada do meu advogado. Imediatamente em seguida a Sra. Judith me liga dizendo que está na linha com a empresa CIELO e que precisa que eu forneça a ela o número de protocolo que havia me dado. Ansiosa por ver o problema resolvido e preocupada com indo ao restaurante com o advogado prejudicá-la e ao Sr. Wellington como funcionários, forneço a ela o número do protocolo, mas, confesso, muito desconfiada.

 No mesmo dia no começo da tarde, ela me liga dizendo que por "um erro da CIELO" o estorno realmente não havia sido feito. Então me pede um endereço para o Sr. Wellington ir pessoalmente com a máquina da CIELO realizar finalmente o estorno. Boba, ingênua, e já fazendo jeito de quem gosta de apanhar, ao invés de sustentar que iria ao restaurante acompanhada de meu advogado, dei o endereço da lanchonete do prédio onde trabalho para o Sr. Wellington ir com a máquina realizar o estorno. Onde estava eu com a cabeça para dar o endereço do meu trabalho para pessoas desconhecidas e que se comportavam comigo de modo confuso?

Tão aflita eu estava para resolver o problema e me livrar daquela situação Kafkeana, que nem verifiquei se a máquina que o Sr. Wellington trazia era mesmo da CIELO e ainda dei meu cartão a ele para manipular na máquina. Ele sentou-se numa posição que não me permitia ver o que fazia com a máquina e com meu cartão. Alguns minutos depois, me devolveu meu cartão dizendo que não pode realizar o estorno porque a máquina estava dando "não autorizado". Então, estando ele ainda no prédio do meu trabalho, me perguntou se eu não queria receber o valor em dinheiro. Muitíssimo aborrecida e já considerando que obter o estorno do pagamento em crédito já se tornara uma questão de honra para mim, respondi que eu levaria o assunto ao meu advogado.

No mesmo dia, no fim da tarde, o Sr. Wellington fala ao telefone comigo e diz que conseguiu conversar com uma supervisora da CIELO e que conseguiu finalmente realizar o estorno. Marco para na mesma hora ele aparecer na lanchonete do prédio do meu trabalho com um comprovante do estorno para me entregar. Convido uma pessoa conhecida que estava na lanchonete para servir de testemunha. Na presença da testemunha, o Sr. Wellington me entrega um recibo de cancelamento de compra (estorno) feito em 25/05/2015. No recibo constavam o logotipo da CIELO, dados do meu cartão, número de protocolo e o prazo de 3 dias úteis para informação ao banco do cancelamento.

Na quinta-feira pela manhã, dia 28/05/2015, transcorridos os 3 dias úteis, ligo novamente para o banco e constato que finalmente o estorno havia sido realizado. Ufa!! Que alívio!!  Equívoco da CIELO? "Inexperiência" dos funcionários de TEREZA PAIM GASTRONOMIA LTDA para realizar o estorno de uma venda, operação de rotina em qualquer estabelecimento comercial? Estou eu sendo inadequada expondo o nome de dois funcionários por não possuir o nome do (a) proprietário (a)? 

 Talvez eles estivessem agindo daquele modo confuso tentando preservar seu emprego no restaurante. Deixo que cada um de vocês tire suas próprias conclusões. Afinal, não posso nem devo fazer pré julgamentos. De qualquer sorte, agradeço ao Sr. Wellington e à Sra. Judith por terem me poupado de acionar judicialmente o restaurante e de publicar o acontecido na internet. Compartilho a experiência com vocês como um desabafo e para adverti-los. Mas quem vai pagar pelo desgaste emocional que eu tive com esse processo kafkeano? Afinal transcorreram 12 dias de desgaste entre o almoço na CASA DE TEREZA e a constatação de que o estorno foi realmente realizado somente no dia 25/05/2015. E imaginem que na hora que lá entrei, gostando muito da decoração, por alguns segundos eu cheguei a cogitar de comemorar neste restaurante meu aniversário no próximo dia 19/06. Nem pensar!!!

Felizmente a gente pode sair desse mundo pequeno assistindo e se comovendo muito com o filme "SAL DA TERRA" sobre a vida e a obra do fotógrafo Sebastião Salgado e comendo um delicioso crepe na casa de uma amiga que nos recebe com carinho e doçura. Foi o que fiz ontem. 
                                                                                         Marcia Gomes.

domingo, 10 de maio de 2015

10/05/2015                                     MÃE

Não vi abril chegar com seus matizes de púrpura. Quem me disse que abril tem matizes de púrpura não importa. Não importa. Perdeu-se nas brumas melancólicas do passado, disto ficando apenas a sombra do objeto recaindo sobre o eu, como terá dito meu caro Freud num dos seus muitos momentos poéticos. Um objeto do qual resta uma sombra identificatória recaindo melancolicamente sobre o eu. Objeto perdido que me ensinou sobre os matizes de púrpura. Objeto inalcançável clamando dentro de mim como se alcançável fosse.

Não vi abril chegar com seus matizes outonais. Sequer me dei conta que estamos no outono. Ouvi ruídos distantes de acontecimentos trágicos no Nepal. Não assisti ao "Sal da Terra". Recebi visitas acolhedoras e também telefonemas porque estava com dor. Voltando a Freud, se não me engano ele disse algo importante sobre a tonalidade narcísica da dor. Se se está com dor, todo investimento de energia se volta para ela e o resto fica desinvestido. Estive com muita dor e a sua devastadora tonalidade narcísica. Perdi-me do outono.

Quando ergo o olhar para o céu e vejo esse azul nem um pouco aceso, revestido de cinza e emoldurando os prédios, sinto como se não tivesse estado aqui. Escrevo num momento em que não sinto dor e posso fazer contato com cores, sons, odores. Posso ver a rua, o ir e vir dos passantes, posso rever os amigos, estudar e ir fazer a unha. Sim, não se pode fazer a unha com dor. 

Não vi maio chegar com seus ameaçadores índices pluviométricos. Ouvi ruídos distantes sobre a força devastadora da chuva destruindo os casebres do povo. Maio está aqui enquanto estive desmaiada. Não se assustem. Não desmaiei. Apenas quase fico sem maio. Felizmente não fiquei sem maio. Se ficasse não me daria conta de que hoje é o dia das mães. Dia de Dona Ruth. A querida Dona Ruth que nos deixou saudosos. Dia de Dona Alice. A querida Dona Alice que nos deixou saudosos. Muitos dos meus amigos mais queridos, já sexagenários, estão hoje saudosos das mães que já se foram. Mas há aqui conosco Dona Linda, mãe de uma amiga muito gente boa. Mas há lá na Colômbia, Marina, a verdadeira mãe de Rafa, de quem me considero a brasileira mãe adotiva.

Há cada uma de nós, podendo ser mãe a seu modo. Ser mãe tem matizes de púrpura. É como abril. São tantos os matizes e tão variada a púrpura, que fica uma não compartilhável melancolia de se saber única tendo aprendido a exercer a maternagem com algum objeto inalcançável cuja sombra recai sobre o eu. Creio que digo sandices. Deixa eu ver se me faço mais compreensível. Ser mãe tem seu lado solitário melancólico do intransmissível. Não será o extremo dessa intransmissibilidade que acomete os que sofrem de depressão puerperal? Creio que digo sandices.

Deixa então que eu fale de uma mãe em particular. A quem mesmo sentindo dor eu imploro que me deixe ir a Maceió para matar as saudades. E ela não permite, não autoriza, me deixando sentir um intransponível abismo entre mãe e filha. Me deixando sentir que não a alcanço por mais que escreva "Blá, blá, blás domingueiros" com episódios sobre ela. Não a alcanço. Como se de repente tivéssemos sido deixadas por um Deus impiedoso e inclemente numa torre de Babel. Aí bate o medo da sombra do objeto recaindo sobre o eu. Aí dói o medo do esforço vão de reparar o irreparável. E sinto uma distância quilométrica me enregelando os ossos.

No dia seguinte a mãe em particular é outra. Me fala sorridente do cachorro de seu filho que numa traquinagem canina lhe roubou a escova de dentes. Sorri com ternura porque seu filho tem quatro cachorros que o divertem muito. E pede que eu seja cúmplice do seu sorriso de ternura. E sou. E lhe digo: "mãezinha, te amo muito!" E prometo que irei à missa no próximo domingo. Não há prova de amor maior a ela do que ir à missa. Em outro dia seguinte ouço a sua vozinha sumida dizendo em tom triste que não amanheceu bem. Então me deixo envolver por uma culpa devastadora por ter pensado em intransponível abismo entre mãe e filha. E penso em conseguir lhe dizer alguma coisa sábia que a anime. Não consigo. Não tenho quatro cachorros. Ainda que tivesse...

Penso no que lhe direi hoje ao telefone. Já tem lapsos de memória importantes e talvez não se recorde que é dia das mães. Talvez eu tenha lhe lembrar sobre isso. Será que vai gostar do presente que pedi à minha cunhada que lhe comprasse? Penso em lhe dizer alguma coisa bem bonita que a toque. Mas o que? Não sei ainda. Há 62 anos venho tentando saber o que posso fazer para tocá-la. Então vou deixar para saber o que dizer bem na hora, torcendo para dar sorte. Mas o que estou pensando aqui agora e que não direi pelo menos nesses termos,  é que ainda que haja o abismo intransponível, ainda que haja a torre de Babel, há muita coisa especial em mim que saiu igualzinho a ela. Ser mãe tem matizes de púrpura. E eu também tenho. Ou será que digo sandices?
                                                                                                    Marcia Gomes. 
12/04/2015                                  NOTÍCIAS.

Fim de semana pluvioso. A cidade de Salvador, pouco afeita à chuva, sofre muito com os alagamentos, deslizamentos de terra, buracos enormes nas ruas congestionando o trânsito. Como sempre, pra variar, os mais prejudicados são os socialmente desfavorecidos que de uma hora para outra se veem sem casa, sem bens, sem abrigo.

Eu ontem passei o dia em casa, entre encantada e assustada com a impiedosa cor cinza do céu e o vento fazendo ruídos fantasmagóricos nas vidraças. Tenho passado vários dias em casa e há algumas semanas não tenho enviado a vocês a crônica domingueira. Ontem passei o dia todo deitada assistindo, entre outras coisas, um documentário sobre um filme de Wim Wenders a respeito do fotógrafo Sebastião Salgado. Na verdade, assisti muita coisa na televisão, impossibilitada que costumo estar nos últimos tempos, de usar o corpo com liberdade.

É difícil não poder usar o corpo com liberdade. Como vários de vocês já sabem, estou com uma grave artrose degenerativa na região lombo-sacra da coluna vertebral, com quase total obstrução de nervos. Muita dor, impossibilidade de me locomover, sem condições de sentar para escrever no computador. Por isso, não tenho escrito o "Blá,blá,blá domingueiro..." Por isso, estou em falta com vocês. Está difícil estudar, está difícil ler, coisa que gosto tanto. Tenho ido regularmente ao consultório. Felizmente os assentos por lá não são de todo desconfortáveis. Mas tenho precisado faltar a alguns compromissos de trabalho e é triste saber que a vida pulsa à minha revelia. Muita coisa acontece e eu não participo.

Tenho ligado muito pouco para meus amigos. Quase não tenho entrado no Facebook. O último evento social de que participei foi o lançamento na reitoria do livro do amigo Olival Freire Júnior, sobre Física Quântica.Fiquei lá uns poucos minutos sob o imperativo de logo sair porque a dor não me dá trégua. A vida pulsa à minha revelia, mas não estou de todo desatenta. Quero parabenizar as queridas amigas e colegas Terezinha Queiroz e Myrian Vallias que fizeram aniversário recentemente. Quero parabenizar Rafael Andrés, a quem tenho como filho, que irá tomar posse na próxima semana como Professor Adjunto da Universidade Federal do Sul da Bahia. Quero desejar à amiga Ana Cecília um bom encontro de trabalho com Valsiner. Estou contente de saber que Eulina recém chegada do Capão está em Salvador.

Agradeço a todos amigos e colegas que enviaram dicas de ajuda profissional para meu problema na coluna. Não agradeci a cada um em particular porque meu acesso ao computador está restrito. As dicas foram muito úteis. Neste momento, me candidatei a uma primeira consulta no Hospital Sarah e estou aguardando ser chamada. Estou muito esperançosa de com esse atendimento vislumbrar uma saída para meu problema. Minha prioridade agora é cuidar da saúde para me restabelecer. É difícil e pode também ser solitário não poder usar o corpo com liberdade. Por isso, peço que aqueles que me escrevem, continuem escrevendo. Que aqueles que me visitam, continuem visitando. Que aqueles que me telefonam, continuem telefonando. E se eu demorar a responder, saibam que é por uma impossibilidade que vai passar.

Nesse momento em que permaneço muito tempo em repouso em casa, a interlocução com vocês, meus amigos e leitores me nutre muito. Por isso apesar da dor, sentei e escrevi para vocês este texto que espero, não pareça queixoso ou lamuriento. Queria, de algum modo, me fazer presente no domingo de vocês. Queria, de algum modo, dizer que mesmo que me ausente, estou pensando em cada um de vocês e louca para retomar a vida com todos os seus encantos.
                                                                                                      Um abraço,
                                                                                                               Marcia Gomes

domingo, 8 de março de 2015

Cara leitora, caro leitor,

Quero fazer meu agradecimento comovido àqueles de vocês que me disseram pessoalmente, por telefone ou por escrito, terem sentido falta do meu texto no domingo passado. Na verdade eu tive um pequeno problema de saúde que inviabilizou a escrita. Mas agora tudo caminha para ficar bem. Algumas pessoas estranhando a minha ausência, expressaram preocupação com a saúde de minha mãe, pelo que fico muito grata. Felizmente minha mãe está bem, se recuperando da cirurgia num processo promissor. Concluiu uma série de sessões de fisioterapia com drenagem linfática que foi muito satisfatória. Além de com as sessões ter se reduzido o edema na região do corte, o que diminui as dores e dá mais mobilidade na mão e no braço do lado em que foi feita a mastectomia, minha mãe estabeleceu uma rica interação com a fisioterapeuta, com quem trocou muita experiência sobre assuntos religiosos. Obrigada a vocês pelo carinho.

08/03/2015                                            RETALHOS

Escrevo num final de tarde de uma sexta-feira. O tempo é sombrio e às vezes chove um pouco. Há alguns minutos cheguei em casa retornando de um procedimento médico um tanto traumático ao qual me submeti. Um tanto traumático, mas nada demais. Apenas coisas de rotina da saúde da mulher. Estou um pouco apreensiva com o resultado do procedimento, mas nada demais. Dou-me conta que domingo, dia em que enviarei o escrito aos leitores, será o Dia Internacional da Mulher. Não me ocorre um tema sobre o qual escrever. Então sairão retalhos.

Retalhos de texto. Agora lembro de um filme que se não me engano chama-se "Colcha de Retalhos". É bonito. São várias mulheres tecendo uma colcha, enquanto tecem relatos de suas vidas recheadas do imaginário feminino. Vi esse filme em São Paulo. Quando eu morava em São Paulo na década de 80, um tempo cheio de contingências. Quando eu pensava que ia controlar o dia, lá vinha o dia me desconcertar com suas surpresas.

 Hoje foi assim. Um dia cheio de contingências. Enquanto esperei por três horas o médico me chamar para o tal procedimento, recebo a maravilhosa notícia de que Rafael, meu filho adotivo, foi nomeado Professor Adjunto da Universidade Federal do Sul da Bahia. Enquanto esperei por três horas o médico me chamar para o tal procedimento, recebo a boa notícia de que está chegando para mim uma jovem paciente. Saí de casa achando que seria imediatamente atendida pelo médico e que nem haveria tempo para boas novas.

Boas novas enquanto eu esperava por três horas numa clínica destinada à assistência à mulher, sem que ninguém viesse prestar a gentileza de explicar sobre o atraso do médico. Para que, não é? Éramos todas mulheres apreensivas com os "perrengues" arranjados por seus corpos. Entre nós havia uma senhora que sequer tinha almoçado, tão cedo chegou. E ninguém para explicar sobre o atraso do médico. Para que, não é? Provavelmente não passava pela cabeça dele, o médico, o quão apreensiva pode ficar uma mulher com os "perrengues" arranjados por seu corpo. Estávamos lá, mulheres à espera, desamparadas. De repente, resolvo me levantar, ir à recepcionista e reclamar. Peço uma explicação e num instante o médico aparece e começa a atender. E domingo será o Dia Internacional da Mulher.

Paro de escrever e me detenho num documentário que está passando no Arte 1 sobre Paulo Vanzolini. O cronista musical da vida noturna de São Paulo, com a linda canção "Ronda". Eu, mulher, vivendo em São Paulo na década de 80. O cinegrafista percorre rostos anônimos de mulheres na paisagem urbana da noite em São Paulo. A visão dos letreiros em neon na Avenida São João me faz sentir uma nostalgia aguda de ter vivido naquela cidade com alma de mulher maltratada. A alma de mulher maltratada é minha ou da cidade? De ambas. Não deve ter sido à toa que escolhi São Paulo como cenário para viver meu enredo de mulher sofrida. No documentário aparecem Chico Buarque e Paulinho da Viola bem jovens, cantando letras de canções sobre mulheres açoitadas pela vida.

Penso numa conversa que tive ainda esta semana com uma amiga em que comentamos que às vezes algumas mulheres escolhem se identificar com seus pais opressores para fugir da apavorante identificação com a mãe oprimida. Mudo de pensar. Penso em "Mulheres de Atenas", a linda canção de Chico, esse gênio de sensibilidade para apreender a alma feminina. Penso na Penélope que sou tecendo e esperando o retorno do meu herói de sua longa viagem. 

Volto a escrever somente quando acaba o documentário sobre Paulo Vanzolini. Escrevo pensando em Dilma, a presidenta. Não gosto de escrever "presidenta". Penso que talvez essa palavra tenha uma certa empáfia de tentar fazer atravessar pela garganta dos machistas que quem preside o país é uma mulher. Penso que essa palavra talvez tenha algo de uma investida fálica. Penso nas sórdidas investidas da mídia global em relação ao escândalo da Petrobrás. Será que seriam tão sórdidas se quem presidisse o país fosse alguém do sexo masculino? Sinto uma ternura solidária por Dilma, que aguenta e bem ser chamada de "presidenta". Ternura solidária por Dilma, que vai à luta, arregaça as mangas, sem nunca ter se dado ao luxo de ser Penélope. Deixo assim registrada minha homenagem à mulher brasileira e vou assistir valter hugo mãe falar sobre Billie Holiday.
                                                                                               Marcia Gomes.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

22/02/2015                          O  LEGADO  PORTUGUÊS  DO  CARNAVAL.

Aninha, uma amiga querida e amante das Letras, me escreveu ontem dizendo que enviou a minha crônica de domingo passado intitulada "A Cena e os Bastidores", para alguns familiares e amigos. Embora convicta de que o envio não foi pelas qualidades literárias do texto  (quem pode escrever alguma coisa razoável em meio ao barulho ensurdecedor dos trios elétricos e ao mau humor que isto nos causa?), fiquei contente ao saber da notícia. Aninha está morando em Portugal e enquanto seu marido faz lá um pós-doutorado, ela deve estar explorando as riquezas literárias da terrinha. Aninha tem pós em Letras e escreve muito bem. Tenho recebido  alguns bonitos relatos da aventura portuguesa do casal. 

Fiquei contente de pensar que ela pode ter mostrado a alguns amigos portugueses o meu depoimento sobre o carnaval, expressando minha compaixão por aqueles que vivem os bastidores da festa. Assim, se os estrangeiros que aqui estiveram por ocasião da festa, só tiveram oportunidade de ver o lado da cena montada por A.C.M. Neto, pelo menos por lá por Portugal fica-se sabendo um pouco que nem tudo são flores como a imprensa divulga.  Não que eu goste que se fale mal da minha pátria. Não se trata disso. O que não gosto é que prolifere a propaganda enganosa e que políticos oportunistas tirem proveito disso.

 E tem mais. A propósito de notícias alvissareiras de Portugal, mais ou menos uma semana antes dos festejos de Momo, almocei com um amigo querido que também está indo por agora fazer o pós-doutorado na terra de Camões, Fernando Pessoa e Saramago. Esse amigo, muito gente boa, ofereceu a sua nova residência européia para eu me hospedar caso eu deseje passar uns dias por lá. Eu serei mesmo boba se não fizer bom uso dessa oferta fraternal tão generosa. Só pela companhia já valeria muito a pena. E que ele também aproveite da estada lá para falar dos bastidores do carnaval no Brasil.

Também no pós carnaval, a propósito do que escrevi na minha crônica, uma amiga me escreve da Espanha comentando que adorou "a máquina de fazer espanhóis". Se ela adorou, que digo eu?  O livro finalmente me chegou às mãos na quarta-feira de cinzas. Há mais ou menos um ano ele me foi recomendado. Sabem vocês dessas coisas que a gente tem anotadas para comprar e nunca compra? Assim foi. Finalmente, bem antes do carnaval fui à livraria. Mas quem disse que encontrei? Só para quando finalizassem as festas. O livro de valter hugo mãe ( nome artístico com letra minúscula bem a propósito) estava fadado a ser o legado português do carnaval.

 Escrito por Valter Hugo Lemos, que mesmo que perguntemos a Freud jamais ficaremos a saber a razão da troca do sobrenome Lemos por mãe, é um romance tocante, bem escrito, irônico, mas sobretudo de uma sensibilidade genial para um jovem escritor angolano de quarenta e poucos anos que parece saber sobre as dores, as casmurrices e a sabedoria dos velhos, até mesmo mais do que eles próprios. Um arguto conhecedor dos idosos no seu modo de estar no mundo. Conhecedor de pessoas idosas e da idosa Portugal da ditadura salazarista.

 O livro é a história de um barbeiro português de 84 anos que tendo ficado viúvo depois de um casamento feliz, é levado pelos seus filhos para viver num asilo para velhos. Numa narrativa surpreendente vemos esse personagem encarnar uma reflexão sobre o próprio passado entremeada por uma reflexão sobre o papel de Portugal no mundo. Tudo se passa enquanto o idoso vai explorando novas formas de encaminhar sua vida, quando se vê confrontado com a insólita situação na qual os filhos (impiedosos?) lhe colocaram. Tudo escrito com irreverentes tiradas linguísticas "saramagóides" e uma rara originalidade de imagens e metáforas.

O autor além de romancista é poeta, artista plástico e cantor. Ganhador do prêmio literário José Saramago, foi muito elogiado por este escritor e publicou na Quasi Edições obras de Caetano Veloso, Manoel de Barros e Ferreira Gullar. Parece gostar de bons escritores contemporâneos brasileiros. 

Pois é, amigos!! O carnaval com suas sandices quase me tira do sério. Me deixou uma crise de coluna que mal posso escrever. Mas o que seria de nós não fossem os legados? No pós carnaval, muito mais que dor na coluna que passa, ganhei coisas que não passam  com "a máquina de fazer espanhóis". 
                                                                                                  Marcia Gomes. 

domingo, 15 de fevereiro de 2015

15/02/2015           A  CENA  E  OS  BASTIDORES.                            

E o carnaval chegou. Se não me engano, o primeiro que passo em Salvador depois daquele passado aqui em 1992, quando fazia uns seis meses que retornei da minha longa permanência em São Paulo que durou cerca de 10 anos. Passei o carnaval de 92 aqui nesta cidade que naquela ocasião era experienciada como um exílio. Voltei de São Paulo para cá por contingências de minha vida pessoal e, de certa forma, contra minha vontade. Voltei com um lado meu querendo ter permanecido em São Paulo, cidade que adotei como terra mãe. Antes que estivesse refeita desse doloroso luto, eis que chega o carnaval.

Naqueles dias de muita dor de amor, entre outras coisas, me sustentava escrevendo num diário que ainda hoje tenho comigo. Lá posso ler o que escrevi no dia 13 de fevereiro de 1992. Hoje também é 13 de fevereiro. Coincidência? Coisas do inconsciente? Quem vai saber? Só sei que tenho comigo esta página aberta: "...a tarde está caindo. A televisão repete o desfilar compulsivo dos adeptos da folia. Toca uma música bonita que pra variar fala da baianidade e suas múltiplas feições. Creio que todo esse clima de baianidade me impede o fugir do fato concreto que é estar aqui.

 Tenho duas crianças (sobrinhos) para cuidar até a quarta-feira de cinzas. Vou levá-las para ver o carnaval, morrendo de medo de que se percam na multidão. Vamos ao carnaval na companhia de um casal de amigos. ...A multidão se comprimia em torno dos trios elétricos, indiferente às minhas dores, também às suas próprias. De repente vejo-me também assim, concedendo uma trégua às questões existenciais.

 Predominam os ritmos afros. A famosa banda do Olodum e seus seguidores, muitos, entoa uma canção dolente com uma temática épica. Na mesma letra misturam-se feitos de Lampião e Maria Bonita, de faraós do Egito e caboclos índios. É muito engraçado. O povo todo sabe de cor a letra e parece jamais ter se intrigado com seu significado. É como se aquelas palavras se esvaziassem de todo significado e fossem recebidas apenas como meros efeitos sonoros.

 Cada um é coreógrafo de si mesmo e com tamanha criatividade, que raramente um gesto se repete. Às vezes o ritmo é frenético e os dançarinos sobem e descem numa sincronia que me faz suspeitar de que sejam, como marionetes, manipulados por uma força invisível que lhes rouba as almas. Eu também danço, pulo atrás do trio elétrico e sinto-me desalmada. Sou um corpo vibrátil que se expande, se dilata e que faz desenhos no ar como se buscasse o correspondente visual da experiência sonora. Não cabem pensamentos. Somos uma caixa de ressonância de ritmos que os devolve em gestos.

 Às vezes paro para observar, e sou tomada por uma ternura infinita por esse povo sábio que sabiamente desafia o passado e o futuro, e vive esse prazer do agora. Em cada cara um gozo. Os casais se esfregam como cobras enroscadas. Um cheiro persistente de suor se mistura à maresia e às vezes há o exalar de perfume barato. À exceção dos componentes dos blocos, raramente vê-se alguém fantasiado. Vestidos mal, como podem, dançam tudo que sabem. E sabem muito. Esse carnaval que assisto aqui na Barra, não é nem de longe o que come solto no centro da cidade. Devido à imensa concentração de gente, a prefeitura resolveu estendê-lo aos bairros".

Depois de ter escrito esse texto com 39 anos incompletos, passei todos os carnavais fora de Salvador. Com exceção de um curto período em que morei no bairro da Federação, depois que voltei de São Paulo, sempre vivi no bairro da Barra e proximidades. Então para não ver coisas que doessem à minha visão e para não escutar coisas que doessem aos meus ouvidos, sempre viajei para ficar bem longe da folia.

 Agora, em 2015, desejei muito ir a Maceió visitar minha mãe, mas não foi possível. Recebi o convite generoso de uma amiga para passar o carnaval no seu sítio. Mas não foi possível. Também desejei ir a uma praia deserta ou à Europa visitar a casa-museu de Freud. Mas não foi possível. Confrontada com as impossibilidades (?) me restou ficar no Morro do Gato, dentro da folia. E aqui estou no dia 13 de fevereiro, além de tudo, uma sexta-feira. Não sou supersticiosa. Nem um pouco. Gosto de atentar para as coincidências.

Dentro do meu apartamento, munida de livros e de filmes, me preparei para o confinamento. Comprei para ler "A Máquina de Fazer Espanhóis". Mas não chegou a tempo na Saraiva. Parece que por alguma razão, me coloquei no lugar de viver um carnaval onde o enredo da minha escola de samba se chama "Impossível". Lembro da subversão à lógica aristotélica feita por Lacan. Penso nas fórmulas da sexuação. Penso no "Real" e na Física Quântica. Lembro de uma conversa recente muito interessante que tive com um amigo. Confrontada com o "Impossível", essa coisa sobre a qual não há palavras para dizer, me resta viver o carnaval que me resta.

Desde ontem, quinta-feira, não escapou à minha observação o cenário dos bastidores quando olhava da minha janela a rua Sabino Silva. O que se vê nos bastidores do carnaval é muito triste. Um monte de vendedores ambulantes comprimidos para dormir dentro de barracas improvisadas. Daqui de cima posso acompanhar como é para eles o amanhecer, depois de uma noite com batuques ensurdecedores na Avenida Oceânica. Vejo agora, deitados em papelões de caixotes, com o sol inclemente lhes batendo no rosto, oito adultos, um adolescente e uma criança enfileirados dormindo no chão. Devem ser todos da mesma família. Mas quem disse que têm direito ao sono? Logo chega um caminhão de limpeza que com todo o barulho lança jatos d'água sobre a rua mal cheirosa, indiferente  à necessidade dos ambulantes a esse pedacinho de sono matinal.

Despertos a contragosto, alguns vão fazer suas necessidades nos banheiros químicos, outros gritam, xingam, protestam inutilmente contra os jatos d'água e o barulho do caminhão. Um deles amarra um saco enorme cheio de lixo onde predominam latas de cerveja. Nas outras barracas, parecendo não terem tirado sequer um cochilo, homens e mulheres carregam caixas de bebidas, ovos e ingredientes para preparar as guloseimas que vão vender mais tarde. É um vai e vem de arrumações e preparos, entre botijões de gás, fogões e grandes panelas. Não se divertem. Trabalham duro para ganhar uns tostões a mais e estão tensos sob as condições adversas em que se abrigam (não tomam banho? por quantos dias?). Discutem entre si agressivos, falando alto. 


A moça que colabora comigo prestando serviços domésticos não pode vir para o trabalho. O tal "Grampinho", ACM Neto, preparou com capricho um carnaval para inglês ver. Pessoas de baixa renda que precisam trabalhar na Barra e imediações não têm como se locomover. O percurso dos ônibus foi desviado de tal maneira, que além de terem que passar horas no ponto, elas precisam descer no Vale do Canela e caminhar até aqui. Essa é a situação pela qual passam minha empregada doméstica e os funcionários que trabalham como porteiros e vigias de prédios.

Entediada com as fadigas do repouso e precisando sair para comprar mantimentos, telefonei a uma companhia de táxi pedindo que viessem me pegar aqui. Responderam que não estão trabalhando nos trechos do circuito do carnaval. Então desci a minha rua em busca de um táxi. O policial me informa que os táxis não podem transitar na região. Digo que sou moradora, mostro meu adesivo de identificação e nenhuma argumentação adianta. Fico sem poder tomar um táxi. Então os moradores das imediações do carnaval que não têm carro, se tiverem uma emergência e precisarem sair, morrem? Gostaria de fazer esta pergunta a ACM Neto. 

Penso na cena que descrevi do meio do carnaval em 1992. Comparo com o que assisto hoje dos bastidores. Amanhã, no sábado, se eu tiver paciência, irei assistir à folia em um camarote. Provavelmente, não será diferente 23 anos depois. Provavelmente prevalecerá o clima de baianidade arquitetada para inglês ver. Afinal são 30 anos do Axé Music. Provavelmente vai ter Ivete, Margarete, Chiclete. Não é difícil rimar em meio a muita festa, muita alegria, tudo muito bem arrumado. Afinal é uma cena. Uma encenação. Mas os bastidores não mentem.

Hoje já é domingo. A experiência com o camarote foi exatamente como eu previa. Uma beleza!! Globeleza!!  O meu acompanhante foi um perfeito cavalheiro. Decidimos que o melhor era sair daqui de casa a pé a caminho da folia. Na ida, como era começo de fim de tarde a multidão era ainda amena. Na volta, quando retornávamos para casa, estava tocando o trio da Timbalada e aqueles que pulavam na pipoca subiam e desciam numa animação frenética. Meu acompanhante então pediu a uns policiais disciplinadamente enfileirados para nos escoltarem até a entrada de minha rua. Um deles nos atendeu com toda gentileza. Carnaval para inglês ver. De dentro do camarote quando o trio de Ivete Sangalo apontou na avenida, ela, toda malhada com uma fantasia muito bonita, homens e mulheres, mais jovens do que velhos, todos bem vestidos com um copo de cerveja na mão, em delírio gritavam, cantavam, dançavam, tiravam fotos com seus celulares de última geração. Não levei um empurrão sequer. Deliravam, mas educados. Carnaval para inglês ver.

Hoje, assim que acordei olhei da janela a rua Sabino Silva. Choveu durante a madrugada e os vendedores ambulantes não puderam dormir. Suas camas, papelões de caixotes, estavam sobre a grama encharcados e as barracas de trabalho tiveram que ser desmontadas. Estão agora tentando reerguê-las, desta vez, silenciosos. Os bastidores não mentem.
                                                          Marcia Gomes. 
                                                                                          

sábado, 7 de fevereiro de 2015

08/02/2015                              AURORA

Cinco horas da manhã de uma quinta-feira. Espio a Sabino Silva da minha varanda. A rua está quase por inteiro entregue aos sinais do amanhecer, ainda abandonada pelo ruído dos carros que se ausentam. Os toldos armados para o carnaval, ainda destituídos da sua função, parecem construções fantasmagóricas (fantasmáticas?) que querem somente enfeiar a paisagem. O céu é de um negror se abrindo aos poucos para nesgas de cinza, que, com mais velocidade, ganham tons róseos, enquanto o negro vai também com velocidade se azulando.

 Há nos prédios um silêncio sepulcral enquanto que o fundo azul-rosa do céu parece ser anunciado pelo canto de um galo solitário. Os passarinhos logo passam a acompanhá-lo numa orquestra discreta de gorjeios, que começa com um acorde aqui, outro ali, para logo em seguida, num crescendo, se fazer numa sinfonia célere, enquanto que ao fundo, o canto do galo vai esmaecendo. Então o céu já se transformou num clarão de amarelo de fundo azul, enquanto a orquestra perde um pouco em harmonia com o ruído eventual de carros passando.

 A passagem da noite para o dia é uma mudança gradual (fading in e fading out ) em que rápido se intercala o que é figura, e o que é fundo. Às vezes o ruído de um carro passando, dá a ilusão de uma onda do mar que furiosa se arrebenta para em seguida silenciar, se dissolvendo na areia da praia. Pura ilusão. Daqui do meu prédio não vejo o mar. De repente, o silêncio se faz e o galo se pronuncia de novo, em seguidos cacarejos. Entretanto seu canto é logo de novo sufocado pelo ruído dos carros que vai se fazendo mais frequente.

 O sol, indeciso ainda quanto a com que pujança quer se manifestar, se faz presente como um clarão impressionístico de contornos disformes por trás de um prédio, e sua força já diz sem titubeios que a transição já se fez. Então posso apagar a lâmpada. Definitivamente já é dia. Já é possível ver enfileirados um carro atrás do outro na rua. Quando de vez em quando o ruído de carros se faz fundo, os passarinhos comparecem não sei se com gorjeios, não sei se com gemidos, em protesto contra a invasão sonora da vida urbana que vai se impondo. O sol, agora um tanto mais decidido, brilha intenso e já me ofusca a visão, embora haja no céu um fundo nublado de tom plúmbeo, deixando pairar em mim a dúvida quanto ao que vai prevalecer. É luz? É sombra?

Rapidamente o clarão impressionístico ganha contornos cada vez mais ofuscantes de raios. O sol se decidiu. E a luz prevalece sobre a sombra. Agora que está decidido que teremos um dia de sol, vejo pessoas com a aparência de serem de baixo poder aquisitivo caminhando na rua. Provavelmente são trabalhadores dirigindo-se aos locais onde prestam serviço. Penso nestas pessoas que daqui do meu prédio não dá para ver se são jovens ou idosas. Me pergunto, para aquelas que podem ser idosas beirando a aposentadoria, como serão as vicissitudes do amor e da sexualidade. Agora que indiscutivelmente me chegam os claros sinais do envelhecimento, me vejo tomada por esse tema. Como é exercer o amor e a sexualidade num tempo de madurez. Que peculiaridade pode ter isto em pessoas desprivilegiadas sob o aspecto sócio-econômico?

 Escutei esta semana de uma manicure sexagenária de classe média baixa que tem um parceiro dez anos mais velho, que numa mudança gradual e natural como da noite para o dia, sua relação com o marido foi se tornando cada vez mais terna, cada vez menos sexual. Avalia que se amam mais, se acariciam mais, se beijam mais e sobretudo se aceitam mais, agora que está decidido pelas contingências, que não terão mais sexo no sentido estrito. Segundo ela diz, não planejaram isso, não discutiram a relação num papo complicado avaliando o que fazer com isso. Simplesmente aconteceu. Foi acontecendo talvez como um intercalar de figura e fundo, de fading in e fading out, como a substituição da orquestra de passarinhos pelo barulho urbano dos carros, como a substituição do clarão vacilante pelos raios brilhantes e decididos do sol.

Talvez pela primeira vez, escutei aquela mulher sem ideias preconcebidas. Estávamos num salão de beleza onde eu fui dar um trato nas unhas. Escutei genuinamente querendo aprender com ela. Escutei sem me perguntar por que o seu parceiro não lança mão de medicação para impotência. Vai ver tem risco de problema cardíaco. Escutei sem me perguntar por que ela não muda de parceiro para obter também uma satisfação sexual. Escutei admirando a sua coragem de se expor e a sua generosidade em partilhar comigo, também sexagenária, a sua experiência como sendo um modo de estar no mundo, entre outros, nem melhores, nem piores.

 Escutei acolhendo que para ela a escolha que fez é para sua subjetividade a melhor saída, não importa o que sobre isso esteja dito nos compêndios. Quando a gente alcança a madurez, muitas vezes, escutar ao vivo a experiência vale muito mais do que o que está escrito nos compêndios. Escutei, sobretudo, compreendendo e respeitando que a sexualidade vivida assim, pode ser uma alternativa de preservação de uma relação de amor. Escutei, sobretudo, não querendo atribuir a situação em que vivem, a uma inabilidade do parceiro. Vi que é uma situação dos dois, que não pesa mais sobre um do que sobre o outro.

Escutei suportando a "ferida narcísica" de começar a me dar conta de que também para nós mulheres, às vezes até primeiro do que para nossos parceiros, pode haver, sim, com o início do envelhecimento, um arrefecimento da libido. Escutei refletindo sobre mim mesma e consegui admitir que hoje em dia, mesmo quando estou na companhia de um homem muito interessante, já não recorro aos expedientes de sedução que usava no passado, às vezes quase numa atuação histérica. E não recorro, porque de certa forma prevalece um certo pudor aliado à maior vontade da troca, da partilha, do companheirismo, ainda que o desejo sexual continue ativo.

 Demorei para chegar a essa constatação. Dizem os ginecologistas que as cheiinhas de corpo como eu têm a vantagem de só muito tardiamente precisarem de reposição hormonal. Eu nunca fiz a tal reposição, nem vou fazer. Penso que ter sintomas de menopausa ou não ter, passa muito pelo lugar como mulher que se ocupa na cultura, independente de se ser cheiinha ou não. Sabemos que a reposição hormonal aumenta o risco do câncer de mama, tanto quanto o uso da "azulzinha" nos homens aumenta o risco de problemas cardio-vasculares. Sabemos também em contrapartida que o amor, a ternura, o afeto e o cuidado fazem muito bem ao coração.

 Penso agora que a sexualidade no idoso precisa ser vivida com as saídas singulares de acordo com a subjetividade de cada um, sem receitas prontas. Ainda outro dia, eu e um amigo, comentávamos com uma certa ironia sobre um conhecido comum muito sedutor no mau sentido, que está muito para além dos 60, e que se veste como um "garotão". Talvez esse arremedo de Don Juan se beneficiasse de uma conversa com a mulher que eu encontrei no salão de beleza. A conversa me fez tão bem e não é à toa que comecei esse texto tentando descrever a transição da noite para o dia e tentando fazer uma analogia com as mudanças graduais que acontecem na sexualidade dos que começam a envelhecer. Só me dei conta quando comecei a escrever, mas à saída do salão perguntei o nome da minha companheira de conversa. Ela me disse que se chama Aurora.
                                                    Marcia Gomes.